quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

ETNOCENTRISMO CRUEL


A INTELECTUALIDADE NÃO ENTENDE OS DRAMAS VIVIDOS PELO POVO DA PERIFERIA.

Por Alexandre Figueiredo

Um sociólogo universitário, pretenso juíz da cultura das periferias, caminha pelas ruas de noite e observa um mendigo velho, maltrapilho e embriagado, que, com sua garrafa de cachaça na mão, faz uma dança estranha, como que parodiando os passos indígenas e, às vezes, parando para rebolar feito uma paródia andrógina de uma mulata de escolas de samba. Enquanto faz tais danças, balbucia palavras sem nexo, ou então pronuncia de forma frouxa "vem pro colinho do papá, rebola no colinho do papá".

Escrevendo um artigo numa revista de comunicação, o polêmico sociólogo narra o episódio com a alegria de uma criança que viu um espetáculo de circo. Não é preciso dizer que o sociólogo viu o mendigo e não teve escrúpulos em dar uma gargalhada. Cinicamente, o sociólogo, mal disfarçando a cínica abordagem com um discurso politicamente correto e intelectualóide, escreve as seguintes linhas:

"A periferia é pop. Isso não podemos negar. É admirável o poder criativo de nossas periferias, o espetáculo alegre da auto-esculhambação que só o povo, na sua miséria, consegue fazer. Venham o "rebolation", o "tchan" e o "créu" esfregar seus glúteos redondinhos nas caras das elites moralistas, a cultura popular é o remexer dos glúteos, só não vê quem não quer. Até os mendigos compreendem perfeitamente o caleidoscópio pop da periferia, com sua linda bagunça, com sua natural mistura de referências, de signos, símbolos e rituais. Todos conectados com o mundo, já não mais compondo a famigerada aldeia global, mas compondo a gigantesca favela global com suas parabólicas ativas para as novidades do planeta".

Que sórdido desprezo social esconde esse discurso tão animado, tão doce, que provoca aplausos da plateia deslumbrada com toda a retórica "pop" e "globalizada" apresentada no meio acadêmico!

Enquanto o sociólogo fica alegre com a dança patética do mendigo, ele, que se gaba tanto em ser um cientista social de "sérios compromissos com o povo", desconhece todo o drama que está por trás da atitude debilitada do pobre idoso.

O mendigo, na verdade, nunca teve uma boa escola. Aliás, não teve uma escola sequer. Surgido de uma gravidez não desejada, na infância levava surra da mãe, alcoólatra. Foi desprovido de uma boa educação, por isso não pôde compreender sua missão social na vida, e quando podia, ia com os amigos jogar bola e, com o tempo, tomar também suas pingas. Se vadiou devido à sua situação lamentável de infortúnios sociais.

Com o tempo, foi abandonado pelos amigos, enquanto outros morriam cedo pela bebedeira. E, sobrando ele, na mais dramática de sua miséria, há muito pedia dinheiro emprestado para comprar pinga, tornando-se um mendigo insuportável, triste, inútil.

Nada foi feito por ele em sua vida. Se ele tornou-se decadente, foi a sociedade que o fez, pelo seu desprezo e descaso.

E ainda existem intelectuais que tiram sarro dos dramas da periferia, classificando-os de "doce espetáculo". Isso é que é etnocentrismo, dos mais cruéis.

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