domingo, 26 de dezembro de 2010

COMO RECONHECER UM PSEUDO-ESQUERDISTA


HÁ QUEM DIGA GOSTAR DE CHE GUEVARA, MAS QUE NO FUNDO GOSTA MESMO É DO CABO ANSELMO.

Por Alexandre Figueiredo

Um dos fenômenos constantes do Brasil da Era Lula é o pseudo-esquerdista. Em diversos aspectos, pessoas que são reacionárias demais, para contrabalançar, adotam posturas falsamente progressistas, seja para tentar agradar os amigos, seja para obter uma vantagem pessoal.

O pseudo-esquerdista é tão ou mais perigoso do que um direitista assumido. Ou mesmo um ultradireitista assumido. Isso porque o falso esquerdista, no primeiro momento, parece ser solidário à causa esquerdista, declara-se adepto de nossas causas, jura que isso é incondicional, mas na hora H ele, de uma forma ou de outra, lança seus preconceitos direitistas adormecidos pelas circunstãncias.

O falso esquerdista, da forma que hoje conhecemos, é um produto dos tempos de crise da Era FHC, há cerca de dez anos atrás. É claro que, em toda causa nobre, sempre existe aquele falso adepto que tenta puxar o tapete, um pentelho que diz ser nosso aliado mas no fundo é um dos piores traidores, talvez o pior dos rivais. De Joaquim Silvério dos Reis entre os conjurados mineiros do final do século XVIII até o Cabo Anselmo de março de 1964, o Brasil já tinha presenciado casos de gente traíra dentro dos movimentos e causas elevados.

O falso esquerdista contemporâneo é um inimigo silencioso. Um rival oculto, que tenta ser o melhor dos aliados da causa esquerdista. Um indivíduo que, a princípio, não oferece perigo e se declara um entusiasmado adepto do esquerdismo, dos movimentos sociais, do socialismo.

Identificar ele pode não ser uma tarefa dificílima. Mas quem está deslumbrado com situações como a campanha de Dilma Rousseff, que requereu, tal qual no caso de Lula nas campanhas anteriores, uma grande aliança, uma grande frente ampla teoricamente de centro-esquerda, não consegue entender o pseudo-esquerdismo.

Mas o falso esquerdista esconde muitas vezes um passado de direita, uma formação ideológica direitista, um comportamento reacionário demais na véspera, além de procedimentos e posturas antes hostis à causa que hoje diz assumir.

Em primeiro lugar, ele esconde antigas rivalidades debaixo do tapete, sem demonstrar arrependimento real. "Arrependimento", para o falso esquerdista, é simplesmente dar um riso esnobe e dizer "Isso são águas passadas", estufando o peito que nem um aristocrata em começo de festa.

Sua adesão é tendenciosa, e às vezes certas correntes esquerdistas toleram tais pessoas porque, muitas vezes, o falso esquerdista tem visibilidade, tem mais status social. Não é um procedimento coerente nem prudente, cujo preço pode ser caro com o passar do tempo, mas muitas vezes ele é a opção escolhida para a esquerda vencer determinada causa.

Alguns aspectos podem ser reconhecidos no falso esquerdista. Quanto aos motivos de sua falsa adesão à esquerda, podemos saber que:

1) Ele é extremamente reacionário, mas não está amparado diretamente por um grupo de poder.

2) Seu grupo social é quase todo formado por simpatizantes de esquerda.

3) Seu mestre nos ideais conservadores e reacionários anda sofrendo muita encrenca na vida.

4) Interesses corporativistas ou mesmo do seu grupo de trabalho ou estudo impõem que ele adote a esquerda não como opção pessoal, mas como forma de manter-se ligado ao grupo social ou profissional em que faz parte.

5) Tornou-se desafeto de seus antigos aliados da direita, por motivos pessoais que não afetam no conteúdo ideológico.

6) Em certos casos, pode ser um espião a serviço da própria direita, infiltrado nas fileiras esquerdistas.

Quanto ao comportamento, o falso esquerdista adota notáveis estranhezas:

1) Suas pregações aparentemente pró-esquerdistas não vão além de comentários óbvios, previsíveis e sem qualquer naturalidade.

2) Em um momento ou em outro, os comentários elogiosos a figuras de esquerda sucumbem a uma elogios enjoadamente bajulatórios.

3) Numa circunstância ou em outra, o falso esquerdista sempre atrapalha na discussão dos problemas que atingem as forças sociais envolvidas.

4) A pretexto de "prudência", ele defende a anulação de qualquer mobilização social ou de qualquer postura mais crítica em relação aos problemas em ocorrência.

5) Quando acontecem mobilizações sociais, ele sempre intervém para atrapalhar, desviando passeatas, por exemplo.

6) Só quando suas vantagens pessoais estão em jogo, ele aplaude os movimentos sociais.

No meio do caminho, o pseudo-esquerdista sempre deixa a máscara cair. Como o professor mineiro Eugênio Arantes Raggi, conhecido nos fóruns de Internet, que no Twitter chegou a pedir para um amigo deixar de falar mal da mídia golpista, a pretexto de que ela "é desprezível".

Postura assim a gente vê em pelegos, parasitas e outros traíras. O que o professor mineiro quis dizer é, na verdade, uma defesa bem sutil à mídia golpista, já que Raggi, conhecido pelo seu reacionarismo digno de colonista de Veja, não consegue convencer com seu petismo forçado, com seu "esquerdismo de resultados" de motivações claramente corporativistas (sabemos que os docentes são quase todos petistas).

E, se Eugênio Raggi está (ou estava, não sei) inscrito na rede social de Luís Nassif, no entanto também participa dos fóruns da Globo.Com, num jogo duplo de um direitista enrustido, um provável misto de Joaquim Silvério dos Reis com Cabo Anselmo.

Há muitos outros casos de pseudo-esquerdistas. Que surpreendem porque uns parecem surfistas, outros usam cabelo rastafari, outros parecem universitários comuns. Em 1968, os integrantes do Comando de Caça aos Comunistas tinham aparência de beatnik ou de intelectual nouvelle vague. Os reaças de hoje usam tatuagens e piercings e defendem extremamente gírias como "balada", "galera", "aê véio" e "miguxo" porque é um vocabulário "moderno" (pelo menos nos padrões do PiG) a esconder suas ideias essencialmente retrógradas.

O NEOCOM DE AMANHÃ - O pseudo-esquerdista é um neocom em potencial. Hoje ele se protege por contextos como o corporativismo sindical, ou então a pouca idade - já que é quase um "protocolo" da juventude ser de esquerda; José Serra o era, nos seus vinte e tantos anos - , mas, obtidas as vantagens pessoais, mudam de lado completamente.

Por isso muitos desses reaças não se incomodam quando são chamados de direitistas. Sem abrir muito o jogo, eles se limitam, esnobes, a dizer "Você é que pensa assim, seu b...", sem dar mais detalhes.

É porque eles sabem que, se lhes é vantajoso ser esquerdista hoje, lhe será mais vantajoso ser de direita amanhã. Hoje, são uns "esquerdistas" forçados, quase caricatos, não mais que grotescos, mas amanhã seu latente apetite direitista será multiplicado, assustando aqueles que ainda o viam como um simpático mas "controverso" aliado.

O falso esquerdista, em muitos casos, não quer o aumento salarial em índices mais justos, defende a privatização de forma sutil, não quer a emancipação cultural do povo, não deseja que se ampliem as críticas aos abusos da grande mídia, dissolvem passeatas, desfazem as greves que deveriam ocorrer, enquanto realizam outras que não devem ocorrer.

Por exemplo, denunciam operários grevistas que reivindicam justamente melhores salários e condições de vida. Mas, por outro lado, armam greves de bibliotecários, médicos e rodoviários para, respectivamente, atrapalhar candidatos de concursos públicos - que dependem de bibliotecas para colher material de estudo - , deixar gente morrendo sem atendimento médico e forçar aumentos das passagens de ônibus.

Por isso o pseudo-esquerdista é uma erva daninha que se aproveita de que "é bonito ser de esquerda" e põe a causa esquerdista a perder. Não pode ser visto como um aliado verdadeiro, porque na hora H ele trairá a causa esquerdista, mais do que o direitista assumido.

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