terça-feira, 28 de dezembro de 2010

BREGA-POPULARESCO: A "CULTURA POPULAR" DE DIREITA


A "SUBVERSIVA" BANDA CALYPSO, NAS PESSOAS DE JOELMA E CHIMBINHA, AO LADO DOS CASSETAS, SOBRETUDO O BOBO-DA-CORTE DO INSTITUTO MILLENIUM, MARCELO MADUREIRA.

Por Alexandre Figueiredo

O assunto cultura começa a ser, aos poucos, incluído na pauta dos blogs progressistas, seja pela indicação da irmã de Chico Buarque, Ana de Hollanda - ambos filhos do eminente historiador Sérgio Buarque de Hollanda - , para ministra da Cultura do vindouro governo Dilma Rousseff, seja pela lembrança dos progressistas quanto à MPB autêntica e seus mestres.

Artistas como Chico Buarque, Alceu Valença, Aldir Blanc, Gal Costa nos primórdios e até o saudoso Chico Science, são citados em detrimento da mesmice brega-popularesca que é a cada dia mais contestada.

Afinal, são intelectuais autênticos, antes ocupados pelo debate político, enquanto houve uma outra facção de intelectuais, sejam artistas, críticos musicais, cientistas sociais e celebridades, que defendia o brega-popularesco a pretexto de que era "a verdadeira rebelião das classes populares".

Essa intelectualidade, que eu defino como intelectualidade etnocêntrica, lançou mão de reportagens, documentários, artigos, monografias, resenhas, programas etc, defendendo os tais "sucessos do povão" como se fosse "a verdadeira cultura do povo pobre". Era um discurso habilidoso, sutil, persuasivo, que durante um bom tempo enganou muita gente.

A música brega-popularesca e os valores sócio-culturais que lhe dão suporte - que definem as classes pobres como uma multidão domesticada e resignada com sua inferioridade social - existem desde o final dos anos 50, quando a mídia latifundiária do interior do país e as oligarquias rurais e urbanas associadas lançaram os primeiros ídolos cafonas, lançando seu modelo de "cultura popular" baseado na destruição das identidades regionais e na promoção do conformismo social dos pobres, dentro dos seus mais baixos valores éticos, sociais, econômicos etc.

Dos arremedos caricatos de seresteiros até os funqueiros de hoje, passando por falsos caipiras "sertanejos", falsos sambistas "românticos", axézeiros, falsos forrozeiros e uma infinidade de figuras ao mesmo tempo pitorescas e caricatas como apresentadores policialescos, mulheres-frutas, idosos alcoólatras, favelados risonhos demais, a ideologia brega-popularesca criou uma concepção de "povo" que não é mais do que sua caricatura, se compararmos com a história das classes pobres que se deu ao longo de 510 anos.

A defesa dessa ideologia brega-popularesca - sem esse nome, aliás, porque até surgir esse termo, ela se confundia com a cultura de fato popular - expunha, na verdade, os preconceitos de uma intelectualidade que, mesmo festejada por setores influentes da opinião pública, pouco ou nada contribuía para a manutenção e mesmo a renovação da verdadeira cultura popular.

Afinal, esse discurso de defesa apronta sérias contradições. Entre elas, a tese de que a MPB autêntica estaria "parada no tempo" e que a "cultura popular" do brega-popularesco representaria "a verdadeira renovação".

Na prática, o que vemos é o contrário, afinal nomes como Alceu Valença e Gal Costa, para não dizer Chico Buarque, são capazes de profunda renovação artística, enquanto os ídolos "inovadores" do brega-popularesco - como as "duplas sertanejas", os "pagodeiros românticos" e as "divas do axé" - começam a se perder em sucessivas regravações de seus sucessos, em DVDs ao vivo lançados um atrás do outro, quase que totalmente recheados de covers, ou seja, de canções alheias de qualquer natureza.

Como podem ser considerados "renovadores" ídolos que fazem apenas uma carreira musical claramente medíocre que se congela em álbuns de auto-reverência, ao vivo, com duetos e muitos, muitos covers? Mesmo alegações como "eles fazem um som mais pop" soam muito vazias, com todo o discurso pós-moderno em que até Antônio Conselheiro e Zumbi dos Palmares e, por outro lado, Malcolm X e Malcolm McLaren são usados para "justificar" o sucesso do "funk carioca".

Esse discurso demonstrou não mais ser um delírio desses cientistas sociais, críticos musicais e artistas e celebridades, que tentam justificar fenômenos da mediocridade cultural a partir de referenciais sócio-político-culturais que só existem na imaginação dos próprios intelectuais.

As contradições são inúmeras e revelam preconceitos de direita até mesmo em intelectuais que tentam ingressar nas fileiras esquerdistas. O que dizer de Hermano Vianna, Pedro Alexandre Sanches e mesmo Leonardo Sakamoto se inspirarem no historiador neoliberal Francis Fukuyama para dizer que "a Era de Ouro da MPB acabou e agora música brasileira é o créu, o tchan, o rebolation, tecnobrega, arrocha etc)?

Além do mais, o próprio trânsito desse discurso de defesa é estranho. Afinal, para quê Gaby Amarantos aparecer na capa da Revista Fórum se, cinco meses depois, ela aparece em tratamento VIP pela ultradireitista revista Veja, justamente naquela edição de outubro com a capa mostrando frases supostamente contraditórias de Dilma Rousseff?

Por isso o discurso que se veio em torno de ritmos como o "funk carioca" e do tecnobrega, mas que socorre também os ídolos "sofisticados" (duplas de "sertanejo", cantores e grupos de "pagode romântico", "divas do axé" etc), perdeu completamente o sentido, apesar dos aplausos de focas de circo continuarem barulhentos.

Isso se explica porque vivemos num tempo em que esquerda e direita definem suas posições em vários assuntos, até mesmo no Oriente Médio ou no caso Wikileaks. Como isso não poderia ocorrer no âmbito cultural? Será que o pagodeiro-carneirinho que canta para George W. Bush e protegido da Globo pode ser definido como "artista revolucionário" nas páginas de Fórum?

A própria retórica em prol do "funk carioca" e do tecnobrega como "fenômenos sem mídia" ou "de esquerda" não passou de uma grande lorota. Claro, o ídolo que está começando a carreira nunca ia aparecer na grande mídia, isso não faz dele um "guerrilheiro bolchevique". Além disso, a facilidade com que os dois ritmos entraram na grande mídia - até o direitista O Liberal soltou fogos para o tecnobrega - , a mesma mídia golpista que condena os movimentos sociais, é algo para despertar muita suspeita.

Por isso o discurso de intelectuais antes renomados, ou, pelo menos, queridos por seus amigos e pela solidariedade corporativista, mais uma vez se dissolve feito castelos de areia sem que alguém venha para reforçar logicamente suas convicções. Ivana Bentes escreveu um texto reprovando o mito da "periferia legal", mas errou ao aplaudir um documentário de Denise Garcia que, mostrando até mesmo o grupo Gaiola das Popozudas (ícone do machismo lúdico brasileiro que tem Valesca Popozuda como principal integrante), reforça o mesmo mito condenado por Ivana. Seriam aplausos corporativistas?

A cada vez mais o brega-popularesco em geral e a Música de Cabresto Brasileira (nome dado para uma "música popular" que rola em rádios FM e TV aberta associadas a grupos oligárquicos) demonstram que são a "cultura popular de direita". E que alegações como "ruptura de preonceito" e "desprezo à estética" se tornem menos convincentes.

Primeiro, porque a ideia de "preconceito" está erroneamente ligada ao sentido de "detestar", como se não gostar fosse sempre em função de não conhecer. Mas quem odeia a Música de Cabresto Brasileira a conhece muito bem, de cor e salteado, através dos passeios nas ruas, nos supermercados, nas lojas de eletrodomésticos, camelôs e na consulta de rádios FM e TV aberta, etc.

Segundo, porque a estética é um dos elementos fundamentais da linguagem artística. Se os intelectuais "recomendam" que desprezemos a estética para validarmos este ou aquele fenômeno "de sucesso", é porque algo está errado e os intelectuais querem apenas que escondamos a sujeira no tapete. Isso em nada ajuda na manutenção nem na renovação da cultura popular autêntica, e não passa de uma censura sutil às nossas críticas bem analisadas.

Por essas e outras, os preconceitos dessa intelectualidade que defende o brega-popularesco se mostram evidentes, pois no fundo eles acham que o povo pobre "é melhor naquilo que ele tem de ruim". O que eles defendem não é a verdadeira cultura das classes populares, que nada tem de grotesca ou patética. Mas é a "cultura popular" que aparece no Domingão do Faustão, nas FMs "do povão", nas "dicas culturais" da imprensa populista.

Essa defesa, embora se diga solidária às classes pobres, definidas como "povo da periferia", no entanto se refere às oligarquias que investem, patrocinam, sustentam e difundem essa pseudo-cultura, que é estereotipada, apátrida, medíocre, que transforma o povo pobre numa massa domesticada, conformista, consumista, sem valores sólidos.

Essa defesa, no fundo, é a defesa da mídia golpista, do latifúndio, da politicagem e sobretudo do jabaculê, que foi o propinoduto que durante muitos anos reinou na dita "cultura popular", empurrando ídolos grotescos que, com o tempo, só se tornaram mais arrumadinhos e perfumadinhos. Mas continuam medíocres do mesmo jeito.

Enquanto isso, a verdadeira cultura popular ocorre fora de micaretas, vaquejadas, "bailes funk", domingões da TV etc. O povo quer falar, sem intermediários.

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