domingo, 28 de novembro de 2010

RIO DE JANEIRO: O COMBATE AINDA É UNILATERAL



Por Alexandre Figueiredo

É certo que há méritos no combate que a polícia e as Forças Armadas fazem para reprimir o narcotráfico no Rio de Janeiro. De fato, aquele misto de fascismo e neoliberalismo informais existente nas favelas, se não acabar por completo, sofrerá baixas e perderá sua força hegemônica.

Mas é evidente que o combate ainda é unilateral e mesmo os chamados "chefões" do narcotráfico, vários deles presos em penitenciárias de segurança máxima, nem estão no topo da hierarquia do comércio de drogas ilícitas. Os maiores chefões estão livres, felizes passeando em cruzeiros marítimos, viajando para Nova York como quem vai para a casa do vizinho, comprando ações em Wall Street, rodando de limusines.

É muito fácil reprimir a parte "pobre" do narcotráfico, ainda que mesmo esse combate acontece de forma incompleta, diante da grande estrutura existente no crime organizado, com uma grande hierarquia existente em cada facção, que faz com que, a cada integrante morto em tiroteio, entra um sucessor no lugar, para fazer a mesma coisa.

A criminalidade cresceu pela omissão as autoridades, que não investem em Educação, Saúde, nem na Inclusão Imobiliária, um tema que será muito constante nos futuros debates da opinião pública. A exclusão das classes populares do mercado imobiliário, marginalizando até mesmo os trabalhadores da construção civil, proibidos, pelo poder econômico, foi vista como a "pimenta nos olhos dos outros" pelas elites, pelos burocratas e mesmo pelas autoridades, numa gentileza "cristã" digna de um Pôncio Pilatos.

O povo pobre cobra da sociedade a sua atenção. Não serão os espetáculos popularescos que, nas rádios FM e na TV aberta, mostram e continuarão mostrando a voz das classes pobres. O povo pobre não fala através do "créu", do "rebolation" ou do "tecnobrega", que são mais um espetáculo ventríloquo das elites coronelistas, transformando o povo apenas numa sub-voz do poder dominante.

O povo fala quando faz passeatas, quando fecha rodovias botando fogo nos pneus, pedindo o combate à impunidade, pedindo melhorias de vida, pedindo reforma agrária, pedindo moradias dignas, entre tantas e tantas coisas.

O povo colabora denunciando traficantes, telefonando anonimamente para informar sobre ações criminosas da vizinhança. São os movimentos sociais se indignando não somente com a opressão promovida pelas elites propriamente ditas, mas também pela opressão feita por elites domésticas, que são as facções criminosas que disputam o mercado de drogas ilícitas e outros comércios clandestinos envolvendo distribuição de gás e serviços de TV paga (estes apelidados jocosamente de "gatonet").

É preciso então sermos objetivos. De um lado, temos que reconhecer que a criminalidade organizada esconde, nos bastidores, verdadeiros barões do pó que vivem escondidos nos mais altos escalões de riqueza e poder no mundo inteiro.

De outro, temos que reconhecer que é necessário um policiamento nas favelas, não da forma grotesca que certos policiais truculentos desempenham, é preciso separar o joio do trigo dentro das populações pobres, porque existe muita gente boa nas classes populares e, felizmente, elas são maioria. Mas também existem alguns infelizes que não aceitam a pobreza e, em vez de lutar por dignidade, ameaçam a tranquilidade de seus próprios vizinhos através das atividades ilícitas.

Portanto, é muito delicado o problema da criminalidade. É preciso cautela para evitar injustiças da melhor maneira possível. E investir não apenas na repressão da criminalidade nas favelas e outras comunidades populares, mas em melhorias sociais que ofereçam qualidade de vida para a população, resolvendo a tristemente histórica discriminação política das autoridades às classes populares.

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