segunda-feira, 29 de novembro de 2010

RETRATO DE UM INTELECTUALÓIDE



Olá, Caros Amigos!

Sou um intelectual bastante festejado por vocês, aparentemente associado às causas progressistas, ao combate contra o Partido da Imprensa Golpista, à solidariedade com as classes populares.

Posso ser um cientista social com Mestrado e Doutorado, pesquisador de muitos livros sobre Antropologia e Sociologia, portador de uma rigorosa base teórica que me garantiu não só os títulos que eu tenho, mas as relações sociais do meio acadêmico.

Ou então eu posso ser um crítico musical, escritor de pelo menos dois livros, pesquisador do passado recente da Música Popular Brasileira, colecionador ávido de discos de música brasileira dos últimos 50 anos.

Posso ser um ou outro. Ou então um e outro ao mesmo tempo. Não importa, sou qualquer um dos dois.

Vocês me tratam como um Deus, o que eu falo vocês apoiam e aplaudem sem questionar. Se eu digo que a bunda agora é a única força confiável da música brasileira, vocês ovacionam sem dar qualquer contestação. E se vier alguém que me contestar, vocês reagem contra ele com desprezo e medo.

Vocês nem acreditariam, no entanto, que eu defendesse a bunda como força motora da MPB atual, uma tese até discutível, mas muito interessante de se defender. Mas eu defendo.

Vocês nem imaginariam, mas boa parte da breguice, da cafonice que eu defendo e que finjo ignorar que aparece no Domingão do Faustão, é por causa de um complexo social que eu tenho e que vocês nem desconfiam.

Eu tenho medo que minha empregada doméstica ouça os mesmos discos que ouço.

Sabe como é, eu conheço o repertório de Wilson Simonal no auge da carreira, ouço os primeiros LPs de Gal Costa, Elis Regina no começo da carreira, conheço Zimbo Trio, Dom Salvador Trio e a trajetória de César Camargo Mariano. O Clube da Esquina, então, sei até o lado B de cór e salteado.

Mas eu tenho medo de que minha empregada venha um dia a ser fã de Sílvia Telles, eu tenho grande pavor de que tenha que discutir com o porteiro do meu prédio se o melhor era Dick Farney ou Lúcio Alves, ou se Itamar Assumpção era mais ou menos rebelde que Arrigo Barnabé no cenário musical da Lira Paulistana.

Desculpe decepcionar vocês, mas essa é a verdade.

Sei que vocês copiaram o linque do meu blog para seus blogs progressistas, que meu blog atinge um ritmo de crescimento de seguidores impressionante. Sei que até meus pecados são santificados pelos seus artigos generosos e condescendentes.

Mas a verdade é que eu inventei muita besteira sobre esses ídolos da "música popular de mercado". Vocês acreditaram e passaram a comprar os discos do É O Tchan nos sebos, achando que foram adquirir uma das preciosidades injustiçadas da história recente da MPB.

Acreditaram que um Alexandre Pires da vida seria o novo Simonal, quando o cantor mineiro da geração anos 90 não vai além de um pálido cruzamento de Lionel Richie com Julio Iglesias, de Usher com Luiz Miguel, com pandeiro e cavaquinho.

Falei muita besteira, porque os divulgadores das gravadoras me cobravam para defender seus contratados e evitar que seus discos morram em lojas de sebos de discos em falência.

Eu mesmo já chegava ao absurdo de dizer que os ídolos da dita "música sertaneja" - uma imitação malfeita de boleros e country que nada tem a ver com a música caipira tradicional - não tinham acesso à grande mídia.

E vocês, animados com minhas histórias de pescador de música brasileira, acharam que o "sertanejo" patrocinado pelos latifundiários, era a trilha sonora do MST. Minhas bobagens geravam bobagens cada vez piores.

Para vocês terem uma ideia, eu sou elitista. Sim, sou elitista.

Acho o máximo que o povo fique na sua mediocridade, enquanto eu ouço sozinho as preciosidades da MPB que ouvia desde a infância.

Enquanto o povão acredita que Chico Buarque não passa de galanteador barato, eu ouço seus CDs no meu fone de ouvido.

Enquanto o povão acredita que Belchior não passa de um maluco isolacionista, os primeiros discos dele estão na minha coleção, para meu deleite privativo.

Inventei que o espetáculo das popozudas do 'funk' e do 'pagode' era expressão do feminismo popular só para impressionar os outros. Mas até o mundo mineral - tenho que me apropriar do Mino Carta, me aproprio da mídia esquerdista a toda hora - sabe que elas tão somente estão a serviço de valores machistas, que valorizam a mulher como mero objeto sexual.

Aliás, repito: me aproprio da mídia esquerdista a toda hora. Coloco expressões como "Che Guevara" e "reforma agrária" nos meus artigos só para que meu nome esteja associado a referenciais de esquerda. Mas, prestando bem atenção, nenhum referencial esquerdista é defendido abertamente por mim. Eu me limito apenas a reprovar os abusos extremos da direita.

Até porque uma confissão bastante contundente vai decepcionar todos vocês: EU SOU DIREITISTA.

Eu fui criado pela Folha de São Paulo, pela mesma elite da USP da parte dos políticos tucanos.

Eu quero que o povo fique medíocre, com seus Waldicks, Odairs, Chitões, Tchans, Créus, Gabys, Calcinhas, Calypsos, Belos, Luans, Gretchens, Wandos, Sullivans, e que me deixe ouvir a minha MPB em paz.

Eu acabo de redescobrir o baião dos anos 40 e 50 e vou ouvir tais discos abraçado à minha empregada? Nem morto!

Redescubro o samba da safra 1955-1960 e o feirante da minha rua vai me pedir para gravar um CD do Jorge Veiga? Vá plantar batatas! Que ele vá acreditar que o "rebolation" é que é a vanguarda cultural brasileira e me deixe em paz!

E eu só estou na imprensa esquerdista porque tenho contatos no meio intelectual que me colocaram para lançar livros na editora esquerdista, para ter colunas na imprensa de esquerda, para ser elogiado por blogueiros progressistas.

Mas, obtidas minhas vantagens pessoais e, por outro lado, com o crescimento dos avanços sociais que farão as classes pobres descobrirem meus segredos da Música Popular Brasileira, prometo a todos vocês que me tornarei um convicto e dedicado neocon.

Portanto, me encontrem, daqui a uns dois anos, nos salões do Instituto Millenium.

Abraços a todos.

Intelectualóide."

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