sábado, 6 de novembro de 2010

A PRIVATIZAÇÃO DA OPINIÃO PÚBLICA


REINALDO AZEVEDO, DA VEJA - A mídia reacionária se fazendo de vítima.

Por Alexandre Figueiredo

A grande mídia conservadora se acha a "representante maior" da opinião pública. Quer ser a porta-voz de toda a sociedade, mas na prática apenas emite a voz de uns poucos, dotados de grandes privilégios, e que agora veem seu mundo fantasioso do elitismo social começar a ruir, sendo desacreditado até nas urnas, quando o projeto reformista de Lula foi reafirmado, desta vez sob a responsabilidade de Dilma Rousseff, a governar o país assim que entrar 2011.

Desde muito tempo a grande imprensa quer privatizar a opinião pública. Em 1964 ela se voltou contra os progressos sociais sinalizados pelo governo João Goulart e fez de tudo para que o golpe militar fosse efetivado, abrindo caminho para uma ditadura de duas décadas.

O pior é que a grande imprensa também lutou para apoiar a ditadura militar, e quem da mídia estivesse contra o regime, que fosse sufocado econômica e politicamente. Daí que a TV Excelsior, o jornal Correio da Manhã (que a princípio apoiou o golpe, mas depois repudiou a ditadura) e a histórica Última Hora sofreram pressões diversas que as fizeram falir em algum momento.

A Última Hora teve até um fim estranho, pois o jornal fundado por Samuel Wainer para apoiar Getúlio Vargas e que, sediado no Rio de Janeiro, teve publicações próprias em outras cidades, como São Paulo - algo como uma sucursal transformada em um jornal à parte - , foi "comprado" pela Folha de São Paulo para "adormecer" de forma indefinida até hoje.

Aliás, a própria Folha de São Paulo, que só nos últimos anos foi desmascarada, defendeu o golpe militar e apoiou decididamente a ditadura. O fato do célebre periódico paulista - que as gerações mais recentes viam como ícone maior da "imprensa moderna" até serem alertadas da verdade por trás disso tudo - ter colaborado com o fornecimento de veículos para a Operação Bandeirantes (OBAN), mesmo depois dela ter se transformado no DOI-CODI, mostra o quanto a Folha parece vibrante por fora e podre por dentro.

As campanhas pela redemocratização, entre 1983 e 1984, apenas fizeram criar uma polarização momentânea dentro da grande mídia conservadora. De um lado, Globo e Estadão estavam numa posição claramente reacionária. De outro, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e Grupo Bandeirantes tiveram seus momentos levemente "progressistas". O primeiro grupo esteve surdo às campanhas pela redemocratização, enquanto o segundo grupo tornou-se relativamente solidário às mobilizações.

Isso porque mesmo dentro da classe política conservadora havia gente que decidiu romper com a ditadura. O MDB, que havia surgido de um teatrinho de democracia do regime militar, era um balaio de gatos que incluiu de esquerdistas moderados, cristãos humanistas e conservadores "fisiológicos" ("fisiológicos" porque são flexíveis ao tendenciosismo do poder), virou o PMDB que existe até hoje. E alguns humanistas estavam à frente pela campanha de redemocratização, como o grupo político que depois fundou o PSDB, então um elegante partido liberal-humanista comandado por André Franco Montoro e Mário Covas.

Mas, retomada a democracia, as articulações do poder se alteraram de tal forma que, ao longo desses 25 anos, muita coisa aconteceu. Conservadores ferrenhos de repente tentaram posar de "progressistas", como Fernando Collor, José Sarney e Paulo Maluf, todos fingindo solidariedade com o antigo rival Lula em troca de vantagens políticas.

A grande mídia parecia se transformar numa imparcial instituição democrática. Apenas parecia, para os olhos menos sutis de seu público de nível médio. Mas depois ela deixou a máscara democrática para defender um golpismo e um conservadorismo cujo ápice se deu em torno da campanha de José Serra, candidato de que os barões da grande mídia não se deram o cuidado de dissimular sua preferência.

Por isso a reputação quase santificada da grande imprensa, que fazia com que muitos incautos acreditassem no jornalismo como sendo o "substituto" da consciência humana, ruiu completamente. A analogia do "culto" à grande imprensa ao sacerdotismo ortodoxo medieval se tornou ainda mais claro quando, junto à Folha de São Paulo, as Organizações Globo e o Grupo Abril se juntaram, no apoio a José Serra, entidades do catolicismo medieval, ortodoxo e punitivo, como a TFP e o Opus Dei.

Só essa base retrógrada e a campanha da grande imprensa, que não mediu escrúpulos para romper com a conduta ética e profissional para defender seus pontos de vista, fazem com que os "donos" da opinião pública sejam cada vez mais desacreditados. E que uma mídia alternativa atuante na Internet e na imprensa nanica mostram que a opinião pública, apesar dos seus usurpadores, continua sendo opinião pública.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...