sábado, 6 de novembro de 2010

ÔNIBUS, POLÍTICA E TECNOCRACIA: O POVO É SOMENTE UM "DETALHE"



Por Alexandre Figueiredo

Hoje foi inaugurado o "novo" sistema de transporte coletivo na cidade do Rio de Janeiro, por iniciativa do prefeito Eduardo Paes. Ancorado em medidas como a padronização visual e o uso do Bilhete Único em duas horas, o modelo é claramente influenciado pelo padrão curitibano lançado pelo então prefeito e arquiteto Jaime Lerner no auge da ditadura militar, em 1974.

Nota-se, pelo perfil dos seus defensores, adeptos e beneficiários, que o povo, os passageiros comuns, são pura e simplesmente desprezados, reduzidos a mera carga, a um mero gado humano para sustentar os interesses de certos grupos empresariais interessados. O povo é só um "detalhe" para o discurso de tecnocratas e autoridades.

São políticos conservadores - apesar de estar no PMDB, Eduardo Paes tem raiz política no mesmo PSDB de José Serra - , tecnocratas do urbanismo e transportes, alguns empresários dominantes (nem todos os empresários apoiam essa medida) e busólogos "pelegos", interessados em obter vantagens pessoais no status quo político-econômico.

Portanto, ninguém que esteja realmente em defesa do interesse público, apesar dos discursos inflamados, nervosos, agressivos e por vezes ofensivos, tentarem provar o contrário. Afinal, falar é fácil, e o que mais existe neste país é a defesa de interesses privados sob o pretexto do "interesse público".

Todos "defendem a cidadania". Todos "defendem o interesse público". Não é à toa que um dos mais famosos ditados populares diz claramente: "De boas intenções, o inferno está cheio".

Seria preciso um livro para explicar detalhadamente os equívocos que o modelo de transporte coletivo a ser adotado no Rio de Janeiro e que já é vigente há tempos em Curitiba, São Paulo e Belo Horizonte, entre outras cidades ou regiões metropolitanas. Mas alguns aspectos anti-populares são observados, dentro dessa medida supostamente moralizadora do transporte coletivo:

1. CONCENTRAÇÃO DE PODER DA PREFEITURA - A padronização visual, independente de representar confusão ou perda estética, indica que a identidade visual não corresponde mais à empresa, mas ao "serviço" determinado pela prefeitura municipal, através de sua Secretaria de Transporte. No caso de linhas intermunicipais, uma paraestatal ligada ao Estado exerce tal função.

2. CAMUFLAGEM DE EMPRESAS ESTIMULA CORRUPÇÃO - As irregularidades operacionais podem ser estimuladas, e isso pode influir em vários transtornos como a sobrecarga profissional dos rodoviários, o prolongamento da vida dos ônibus nas frotas (que, teoricamente estimadas para 10, podem ir para doze, só porque o modelo coincide com o de carros um pouco mais novos). Qualquer irregularidade, a empresa dificilmente não será punida, porque seu reconhecimento visual será dificultado.

3. POVO NÃO PODE DENUNCIAR - Os defensores da padronização visual dos ônibus, sempre com seus argumentos "técnicos" e "objetivos", são capazes de reconhecer as empresas de ônibus por trás do visual uniformizado. Mas o cidadão comum, não. Este penará muito para pegar o ônibus, e só será bem sucedido se vir o ônibus de frente, com a bandeira correta. Mas não poderá reconhecer o ônibus de longe, senão com muito sacrifício e uma atenção quase matemática. Por isso, se um ônibus sofre acidente, ninguém poderá informar a empresa, só chegando muito perto do veículo.

O "novo" sistema para os ônibus cariocas, portanto, oferece muito mais desvantagens do que vantagens. No peso da avaliação, o sistema recebe conceito negativo, mas só mesmo a prática para confirmar a teoria cautelosamente analisada pelos que não confiam em padronizações visuais nem em consórcios politicamente organizados.

Enfim, é como diz o ditado: "Para que simplificar, se pode complicar?". Medidas arbitrárias e anti-populares são adotadas, suas imperfeições aparecem e paliativos serão feitos para maquiar a situação e forjar pretensa eficácia. Mas depois os interesses politiqueiros e tecnocráticos virão à tona e o já crescente ceticismo popular se transformará numa indignação cada vez maior.

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