quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O VERDADEIRO APARTHEID CULTURAL



Por Alexandre Figueiredo

A exclusão social está em discriminar a mediocridade cultural supostamente atribuída aos pobres? Não. De jeito nenhum. A rejeição dessa mediocridade não é manifestação de preconceito, de segregação nem de moralismos, elitismos, saudosismos ou qualquer rejeição injusta.

Afinal, cultura é para ser apreciada. Mas cultura também é para produzir conhecimento e transmiti-lo socialmente. Só que o que hoje se chama de "cultura popular" está preso ao paradigma da grande mídia, mesmo quando tenta-se livrar a grande mídia da responsabilidade pelo sucesso de ídolos do brega-popularesco, sucesso este agora atribuído "tão somente", mas equivocadamente, às chamadas redes sociais da Internet.

Não. A cultura popular, sem aspas, não são os popularescos que rolam no rádio FM, na TV aberta, mas juram de pés juntos que só fizeram sucesso por causa do YouTube. A verdadeira cultura popular não tem atravessadores, como os empresários que montam grupos de forró-brega, de porno-pagode e "funk carioca", e não se preocupa em ter uma estrutura empresarial sofisticada.

A compreensão equivocada da cultura popular, associando a ela os ícones da cafonice dominante em nosso país, em nada contribui para a melhoria do povo e está causando um travamento na evolução social do povo pobre que fez o projeto progressista da Era Lula ficar incompleto. Lula quis fazer um governo Jango num Brasil de Ernesto Geisel. Difícil desenvolver uma cultura popular autêntica que se baseie em popozudas acéfalas, breganejos conservadores, sambregas "engraçadinhos", funqueiros abjetos e axezeiros megalomaníacos. E tudo isso com seu sucesso alimentado por uma mídia conservadora e oligárquica.

Jogar o brega-popularesco para os espaços da MPB autêntica não resolve nem contribui para enobrecer a cultura do nosso povo. Primeiro porque, por mais que o brega-popularesco tenha um forte "apelo popular", ele é falso, postiço, porque a popularização "espontânea" foi conquistada a muito jabaculê e politicagem, principalmente das velhas oligarquias rurais e da grande mídia reacionária. Fugir a essa realidade e acreditar que até Chitãozinho & Xororó só fez sucesso por causa do YouTube é um grande equívoco.

Isso não contribui porque a mediocridade cultural é como um remédio de gosto ruim. É hipócrita crer que, para "perdermos o preconceito", temos que gostar dessas músicas malfeitas, de intérpretes sem personalidade própria, apenas meros fetiches a animar as plateias do Faustão e as páginas de Caras. Difícil crer nisso, porque não somos preconceituosos, ouvimos essas músicas em todo lugar, pelas ruas, pelos mercados e lojas, pela vizinhança. Não gostamos dessas músicas e seus valores medíocres porque os conhecemos, não porque desconheçamos.

O apartheid cultural verdadeiro é esse. A classe média pode ouvir MPB de qualidade e apenas dar espaço para o brega-popularesco para dizer que adora pobre. Pode apreciar artes plásticas de linhagem modernista e pós-modernista, mas aceita as popozudas para dizer que está "em dia com a periferia". Tudo escrito bonito, em artigos badalados. Mas toda essa "solidaridade" com a periferia não passa de uma grande hipocrisia elitista.

Isso porque essa condescendência com a "cultura" brega-popularesca, a pretexto de "aceitar" os valores e referenciais supostamente associados à periferia, não é mais do que um sentimento elitista, típico da madame que reserva um cantinho na sala de sua rica mansão, ou de seu rico apartamento, para sua cadelinha poodle fazer suas "necessidades". Um cantinho de fezes ao lado do sofá da madame. Isso é o brega-popularesco, quando jogado nos espaços da MPB.

É como se a intelectualidade dissesse para deixar o povo fazer porcaria porque é "isso que o povo sabe fazer" e "o que a maioria gosta". Isso é que é preconceito, que parte até mesmo, pasmem, de pessoas "progressistas" como Leonardo Sakamoto e Eduardo Sander (Blog do Patolino). Para não dizer as pregações do ultrabadalado Pedro Alexandre Sanches, o sempre discípulo e bom-aluno de Otávio Frias Filho.

Como pessoas assim podem estar comprometidas com os movimentos sociais se, no âmbito cultural, se comportam como se fossem produtores do Domingão do Faustão? Mal comparando, é como se Justo Veríssimo quisesse ser, a seu modo, uma caricatura de pensador folclorista.

O que está por trás dessa condescendência intelectual ao brega-popularesco - atitude que tem um quê de politiqueira - talvez fosse um temor de que o povo da periferia se apoderasse do privilegiado acervo cultural privativo dessa intelectualidade.

É notável que esses intelectuais, sejam cientistas sociais ou jornalistas culturais, tenham suas empregadas domésticas e entrem em contato com faxineiros e porteiros dos prédios onde moram. E, quando vão à rua, entram em contato com garis e feirantes, por exemplo.

O maior temor dessa intelectualidade é que, de repente, numa faxina, sua discoteca seja ao menos "consultada" pela empregada doméstica, que, quando limpar os CDs do seu patrão, terá curiosidade em ver títulos de artistas como Jackson do Pandeiro, Elza Soares, Noite Ilustrada, Banda Black Rio, João do Vale, Riachão, entre tantos outros.

Que horror sentiria o intelectual com a curiosidade de sua empregada! Ele, sossegado do privilégio de possuir os segredos da cultura do povo pobre da antiguidade, ver os pobres de hoje romperem a escravidão midiático-latifundiária e descobrirem os segredos de sua discografia de raridades, lhe causa horror.

Por isso a classe média foi correndo, correndo, comprando os discos da MPB antiga remasterizados pelo ex-baterista dos Titãs, Charles Gavin. Para que, pelo menos, quase nada vase para o deleite do povo pobre, que passa a ser enganado pela intelectualidade "generosa".

Por isso é que o intelectual, quando escreve seus artigos sobre brega-popularesco, quer dizer exatamente assim: que não quer que o povo aprecie ou crie a mesma música que o próprio povo criou outrora, porque é "velha", "complicada", só serve para os museus e academias, porque a música "não pára no tempo".

Criam apenas desculpas, alegações tendenciosas. Querem é se apropriar do que o povo pobre fez de precioso no passado. Parecem como certos seresteiros de segunda linha do passado, que compravam sambas dos morros para depois roubar a autoria, omitindo a autoria original em prol do falso crédito dos seresteiros.

Agora é a intelectualidade, guiada pelo semi-deus Pedro Alexandre Sanches - o queridinho da vez, depois de Hermano Vianna e Paulo César Araújo - , que com seu discurso "feliz", sobre uma periferia "idealizada", tentam evitar que o povo volte a fazer a rica cultura popular que lhe é própria. Por isso defendem as músicas medíocres que fazem sucesso no rádio, mas são desprovidas de valor cultural e artístico autênticos.

Toda essa defesa é para despistar o povo da curiosidade dos antigos mestres da cultura popular. A cultura não fica parada no tempo, mas ela sem dúvida segue um caminho. O brega-popularesco foi um mero desvio que as elites arrumaram para o povo, temerosas de onde o caminho se dirige, que é a emancipação popular.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...