quarta-feira, 24 de novembro de 2010

NOAM CHOMSKY E A MEDIOCRIDADE CULTURAL, NUMA SÓ NAVALHA


Para a intelectualidade etnocêntrica, isso é um "movimento cultural". Para Noam Chomsky, é a mais cruel amostra da mediocridade cultural que escraviza o povo pobre.

"ESTIMULAR O PÚBLICO A SER COMPLACENTE NA MEDIOCRIDADE.
Promover ao público a achar que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto…".

Essa frase, entre aspas, não é declaração de algum internauta preconceituoso de algum fórum perdido na Internet.

Trata-se de uma das contundentes denúncias de Noam Chomsky sobre as dez manobras tramadas pela mídia para dominar a população.

Noam Chomsky não é qualquer um, é um dos maiores linguistas do mundo, com mais de 50 anos de trajetória.

E, como analista político, expressa uma lucidez ímpar, com uma visão precisa da realidade política e midiática internacional.

No exterior, os grandes intelectuais respiram.

Ninguém tem medo de senso crítico.

Lá o senso crítico pode abalar as estruturas docentes, burocráticas e políticas de um país, mas ninguém tem medo de dar-lhe espaço, financiar trabalhos críticos, análises polêmicas.

Mas aqui, e hoje em dia, Noam Chomsky não teria entrado sequer nas portas do mestrado.

Noam ganharia diploma de Licenciatura ou Bacharelado como um vira-lata ganha um osso e depois é enxotado para longe.

Aqui a intelectualidade louva a mediocridade cultural como se fosse "a expressão das periferias".

Cria artigos confusos, que falam de referenciais que nem os ídolos elogiados ouviram sequer falar.

Wando lutou na Revolução Cubana? DJ Marlboro é o novo Antônio Conselheiro? Como Chitãozinho & Xororó só fizeram sucesso por causa das redes sociais da Internet, se ainda não havia Internet em 1989? Que influência de Jackson Pollock aparece no É O Tchan que eu não vi? A "dança do quadrado" é uma homenagem a Tarsila do Amaral?

Muito simples se a resposta a essas perguntas fosse afirmativa. Mas a resposta é negativa.

Os referenciais "cabeças" só partem de quem supostamente "analisa" tais "fenômenos".

A mediocridade está ali, escancarada. Nos risos tolos, na personalidade ingênua, na falta de autonomia artística, no tendenciosismo modista, no mercantilismo tosco do grotesco.

Os analistas do exterior investigariam horrores, analisando desde a ignorância popular até os mecanismos de dominação por trás da manutenção da miséria pelos poderosos.

Mas, no Brasil, tudo é lindo. O povo é mediocre, mas é "feliz". Deixemos o povo assim. "É o que o povo gosta, é o que o povo sabe fazer".

Fossem alunos de Noam Chomsky, os intelectuais etnocêntricos brasileiros, tão badalados, festejados e até venerados, ganhariam uma nota zero, sem chance de recuperação.

O povo pobre só pode melhorar com mais dinheiro no bolso, atendimento à saúde, casas melhores e farta cesta básica.

Mas na escola, impera o simulacro educacional de professores incapacitados que fingem ensinar e alunos desestimulados que fingem aprender.

A intelectualidade etnocêntrica quer ouvir suas preciosidades raras e antigas da MPB, sem que empregadas domésticas e faxineiros os amolem.

Por isso também são tendenciosos quando defendem a mediocridade cultural brasileira.

O povo pobre não pode ler Gilberto Freyre, Paulo Freire, Sérgio Buarque, Caio Prado Jr., Darcy Ribeiro. Nem Clarice Lispector, Manuel Bandeira, Otto Lara Rezende, Otto Maria Carpeaux.

O povo só pode ler jornal Meia Hora, Agora São Paulo, ver o policialesco Brasil Urgente.

O povo pode ter salários e casas melhores e mais comida na geladeira, mas têm que continuar fazendo o papel de plebe desdentada nos programas de auditório. Ou então de jovens pobres abobalhados fazendo música medíocre.

"É o que o povo sabe fazer, é o que a maioria do povo gosta".

Chomsky ficaria transtornado, se ouvisse isso.

Até a estética, um dos elementos primordiais da expressão da linguagem artística, é desprezada por uma intelectualidade que, cinicamente, nos convida para tal desprezo.

"É o que o povo sabe fazer, é o que a maioria do povo gosta".

Frase linda, mas é justamente essa frase que expressa o ítem gravemente denunciado por Noam Chomsky, o da COMPLACÊNCIA À MEDIOCRIDADE CULTURAL.

No fundo, a intelectualidade quer dizer: "Me deixem ouvir os primeiros discos da Gal Costa, a discografia do Wilson Simonal, os discos da Banda Black Rio, do Zimbo Trio etc, em paz. Deixe a ralé longe disso! Que eles fiquem com seus créus, tchans, tecnobregas, rebolations, que é o que essa massa repugnante só sabe fazer e curtir!".

É essa ideia cruel, descrita no parágrafo anterior, que a intelectualidade, nos seus lindos textos, tão festejados, venerados, encarados como verdade absoluta, quer dizer.

O povo quer produzir conhecimento, e não "sucessos do povão".

O povo quer cidadania, e não fazer o papel de "bons selvagens", ingênuos e patéticos, na lente da grande mídia.

O povo quer melhoria de vida, e não apenas fama e visibilidade.

O povo pobre quer mostrar que não é burro, e não expressar a burrice sob o verniz da "inteligência pós-moderna".

O povo pobre quer fazer um Brasil mais digno, mais humano, e não um Brasil meramente pop e grosseiro.

Isso é o que Noam Chomsky tem a dizer com sua frase, quando associada ao caso brasileiro.

E isso é o que a intelectualidade tão festejada não consegue entender. Ou tem medo de compreender.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...