sábado, 13 de novembro de 2010

A INTELECTUALIDADE ACRÍTICA


Essa realidade não aparece nos textos intelectuais que defendem o brega-popularesco.

Por Alexandre Figueiredo

Falar de cultura popular num blog político, e de esquerda, não parece ser uma tarefa fácil. Algumas pessoas não entendem o aspecto político que está por trás da ideologia brega-popularesca que está na mídia - que a utiliza como um claro mecanismo de controle social das classes pobres - , que envolve grupos poderosos que estão por trás da grande mídia e que se relacionam com grupos políticos dominantes para a efetivação do entretenimento caricato de caráter pretensamente popular.

Outras pessoas, também baseadas nessa incompreensão, pensam que o povo pobre vive feliz no paraíso de Adão e Eva. Mas um paraíso diferente, de casas mal-construídas, lixo solto pelas ruas, comércio clandestino sem carteira assinada nem sindicatos, prostituição. Um "paraíso" do lixo, de um povo "feliz" sem ter qualidade de vida.

A gente estranha logo de cara por que uma parte influente da intelectualidade brasileira carece de uma postura crítica diante dos problemas acerca da cultura do povo. E prevalece mesmo sem investir, mesmo parcialmente, na mesma consciência crítica que marcou a intelectualidade estrangeira, que não tinha medo de causar polêmica, de remar contra a maré, de lançar teses que rompem com o status quo pensante no Primeiro Mundo.

O antropólogo Hermano Vianna envergonharia, com toda a certeza, seus colegas do exterior. A intelectualidade brasileira tem um quê de apologista, corporativista, burocrática. Primeiro as verbas de pesquisa, a visibilidade na mídia e a solidariedade dos coleguinhas, depois pensa-se em colocar alguma abordagem "crítica".

O intelectual daqui cria um discurso sobre o povo que é cheio de paternalismo, de visão etnocêntrica - ou seja, a visão idealizada, fantasiosa mesmo, do outro - , mas é um discurso dotado de muito sonho e fantasia. Um discurso que se torna padrão nos textos publicados em periódicos acadêmicos ou mesmo difundidos pela crítica musical.

Um desses paradigmas é o jornalista Pedro Alexandre Sanches, cria da Folha de São Paulo, mas (até quando?) colaborando em alguns veículos da imprensa esquerdista, provavelmente na carona de algum sincero dissidente da Folha. Até porque Sanches mais parece estar ainda vinculado com o padrão Folha de abordagem da cultura popular, mas dentro de um discurso "cabeça" que virou até piada no imaginário popular.

É só ler o texto "A índia negra branca do Pará" que Pedro Sanches escreveu para a revista Fórum, que virou até capa na sua edição de março passado, causando estranheza na intelectualidade crítica, que existe, mas não tem um terço da visibilidade que Sanches possui na mídia.

Afinal, de que vale um Dioclécio Luz - "demonizado" pela opinião pública por ter associado as histórias da Turma da Mônica ao estímulo ao bullying - falando que não se faz revolução social com breganejo? "Legal" é dizer que até os grandes ídolos da suposta "música sertaneja" não tem espaço na mídia. "Legal" é dizer que aqueles "ídolos populares" que batem ponto no Domingão do Faustão estão fora de qualquer veículo da grande mídia.

"Legal" é acreditar que um músico sério como Turíbio Santos vive escondido nas páginas de Caras. Até agora eu não o vi em Caras. E vocês, viram?

DELÍRIO INTELECTUALÓIDE

Pois o texto de Pedro Alexandre Sanches na revista Fórum, que fala do tecnobrega - que começa a ser apelidado jocosamente de "tucanobrega" porque o ritmo foi usado na campanha política tucana do Pará e hoje é apadrinhado pela Rede Globo, já que a Som Livre contratou os tecnobregas para uma coletânea em DVD - , não passa de um grande delírio intelectualóide.

Afinal, não se trata de um texto sobre a realidade do tecnobrega do Pará, um ritmo meramente comercial e que é apadrinhado pela grande mídia local. Aqui vale uma observação: a ideia de "grande mídia" não pode se limitar àquela que tem escritório na Avenida Paulista, em São Paulo. Existe grande mídia regional também, e ela exerce sua parcela de poder e controle social no âmbito regional. Com suas rádios FM, seus jornais locais, sua TV local que em parte se afilia a grandes redes, mas noutra parte produz programas de caráter regional.

Pedro Sanches apenas empresta, para a "análise" do tecnobrega, referenciais que não são próprios da população que consome o estilo, nem de seus ídolos. São referenciais que são apenas exclusivos do autor, um paulista que ouviu rock alternativo de sua cidade, que conhece a música pop internacional, fez sua escola através da geração Bizz, mas tem pouca compreensão da cultura regional da periferia. Tenta compreender, mas o máximo que consegue fazer é um etnocentrismo cordial, positivo, uma visão idealizada do povo pobre, que "sabe sem saber", "faz sem ter ideia do que faz".

É um discurso cheio de sonho e fantasia. O discurso de Sanches é menos cínico e brutal do que o de Paulo César Araújo - que fez a mesma apologia, só que dirigida aos bregas dos anos 60-70 - , que para tentar nos convencer de que Waldick Soriano era um "cantor de protesto", foi bastante panfletário.

O autor de Eu Não Sou Cachorro, Não, além disso, não apostou em certezas nem em fatos concretos, mas em suposições: de acordo com Araújo, Waldick fazia canções de amor, mas talvez fizesse também "música de protesto", só porque o trabalhador supostamente canta "Eu Não Sou Cachorro Não" quando está com raiva.

Sanches também não tem mais a sombra da Folha de São Paulo, enquanto Hermano Vianna foi vender sua etnografia fast food sob o teto da Rede Globo. Sanches se livrou de "apanhar" da mídia esquerdista que incluía o antigo patrão de Sanches, Otávio Frias Filho, como um de seus alvos de ataque. Vendo o avião da Folha em pane, Pedro Alexandre Sanches caiu de paraquedas na imprensa esquerdista, sem o janismo cultural de Paulo César Araújo, sem a antropologia "global" de Hermano Vianna.

E o que Pedro Sanches fez para abordar o tecnobrega? O comparou à tese de antropofagia que o escritor modernista Oswald de Andrade lançou há mais de 80 anos. Não é a primeira vez que modernistas são usados postumamente para fazer propaganda indireta dos fenômenos do brega-popularesco. O próprio Hermano Vianna quis ser uma caricatura de Mário de Andrade, seja no rosto comprido, careca e de óculos, seja na repetição das viagens de pesquisa cultural, sem no entanto adotar a postura crítica e criteriosa do autor de Macunaíma. E não havia a tal "cultura" brega-popularesca na década de 1930.

Só que nem os fãs de tecnobrega, nem os próprios ídolos e talvez nem o pessoal das "aparelhagens" - similar do tecnobrega às equipes de som do "funk carioca", em ambos os casos grandes empresas por trás do espetáculo desses estilos - sabem quem foi esse tal de "Osvaldi Andrade". Quem conhece é o próprio Pedro Alexandre Sanches, e essa postura de associar a mediocridade cultural atribuindo a elas referenciais que o pessoal nela envolvido desconhece é muito grave.

Isso é etnocentrismo. É um etnocentrismo bondoso, cordial, positivo, que trata o "outro" com carinho, alisando o cabelo. Mas é uma visão etnocêntrica. Idealiza-se o outro, mesmo "positivamente". Torna-se paternalista, tal como o pai que ao ouvir seu bebê dizendo "gugu-dadá", já diz que seu filho já sabe falar. O "outro" é elogiado ao máximo, mas nem por isso o "outro" deixa de ser visto de forma fantasiosa, utópica, paternal. O "outro" é visto como alguém que "sabe sem saber", e isso não existe. Isso não está na realidade concreta.

Como também é um absurdo atribuir a um "movimento social" o mero ato de jovens suburbanos que apenas vão e vêm de casas noturnas suburbanas para ver seus ídolos popularescos. Isso é muito grave. Rende até chacota, dá até piada. Imagine se, numa piada, um professor pede a um aluno para enumerar os movimentos sociais.

Digamos que o professor pergunte o seguinte:

- Cite-me os movimentos sociais em várias partes do mundo. No Oriente Médio.

- A luta pela libertação do povo palestino.

- E nos países hispano-americanos?

- São vários. Há o movimento zapatista no México, as Mães de Maio na Argentina, a luta dos índios mapuche no México.

- E no Brasil, o que existe?

- São as popozudas do "funk carioca", a juventude risonha do tecnobrega.

- Meus Deus! Meu Santo Deus! - diz o professor, envergonhado e estarrecido. - Como posso aguentar tamanho asneirol?

Pois é isso mesmo que tende a acontecer. Tudo por conta de uma intelectualidade acrítica brasileira, que parece querer fazer brincadeira. Não sabem eles o quanto essa pseudo-cultura de caráter popularesco e que é dominante nos últimos 20 anos é consequência direta das relações que as diversas oligarquias e aristocracias econômicas, sejam urbanas ou rurais, provincianas ou imperialistas, exerceram desde a fúria direitista da época do segundo governo de Getúlio Vargas.

Não é por acaso que os primórdios da música brega se dão justamente nos redutos latifundiários anti-varguistas, por volta de 1958, quando os coronéis, assustados com o avanço do desenvolvimentismo de Kubitschek - que era do conservador PSD, mas mantinha alianças com o trabalhismo do PTB do vice João Goulart - , apostaram na domesticação cultural do povo pobre como meio de neutralizar o crescimento das Ligas Camponesas.

Isso a abordagem sonhadora dos apologistas do brega-popularesco não querem mostrar. Fica incômodo, vamos deixar tudo como está, o povo está "feliz", "É o que o povo sabe fazer", "É o que a maioria gosta"...

Como é que uma cultura popular que nos trouxe sabedoria, fez abalar cenários políticos aparentemente inabaláveis, que nos trouxe, no passado, um acervo musical de arrepiar, que nos deu mestres de grande valia como Anísio Teixeira e Milton Santos, como é que o Brasil de Zumbi dos Palmares, de Antônio Conselheiro e dos negros da Revolta dos Malês, vai agora se resignar na mediocridade sócio-cultural só "porque é isso que o povo sabe fazer" e "porque a maioria gosta"?

A "maioria gosta" da Rede Globo e da Folha de São Paulo e nem por isso os "fenômenos" da grande mídia deixam de ser criticados.

Por isso, há um grande abismo que separa as doces abordagens de nossa intelectualidade acrítica e a intelectualidade crítica do exterior. Aqui temos medo de ir contra o estabelecido, temendo que isso cause o caos social, o mal-estar intelectual, ou até mesmo a guerra civil.

Desde quando fazer o povo voltar a ouvir baião autêntico vai provocar uma guerra civil no Nordeste? O povo pode desenvolver cultura de qualidade e ser civilizado. Pelo contrário, a "paz" do "funk carioca" esconde um bastidor de criminalidade e violência que envergonham tanto nossos cientistas sociais que eles preferem fingir que isso não existe e continuar vivendo no sonho do "paraíso funqueiro".

É estarrecedor que muitas empregadas domésticas de hoje, com origem nordestina, desconheçam o mestre Luiz Gonzaga, o Gonzagão. A própria neta do artista, uma das integrantes do conjunto musical As Chicas, ficou espantada por que a empregada dela nunca ouviu falar de Luiz Gonzaga, um nome que foi tão popular no Brasil quanto Pelé dentro do território brasileiro. E "Asa Branca" chegou a ter alguma repercussão no exterior.

Como é que se pode aceitar que o povo nordestino não pode mais ter seu próprio patrimônio cultural, não pode apreciar nem produzir baião autêntico? Enquanto isso, a intelectualidade paulista e seus simpatizantes afirmam que o máximo agora do povo nordestino é aceitar como seu o "forró eletrônico", um engodo apátrida que junta elementos dos ritmos caribenhos, da música country, da disco music, da sanfona gaúcha e do brega de Odair José, e cujo repertório é quase todo de versões de música estrangeira. O que diz muito do caráter anti-regional desse tal "forró eletrônico".

E a intelectualidade, em vez de averiguar, questionar, contestar, analisar, prefere arrumar desculpas. Atribuem a falta de regionalidade a um suposto "mundialismo", o que deixa implícita, mesmo na mais "progressista" dessas abordagens, uma analogia ao conceito neoliberal de "globalização".

Aí esses intelectuais falam que agora o povo nordestino "se conecta à Internet", "está por dentro do pop mundial", entre outras tantas lorotas pós-modernas. Talvez tão perigoso quanto o papel reacionário da Folha de São Paulo na sociedade brasileira, é ver seu ex-empregado se fantasiar de "crítico musical de esquerda" e, nas revistas Fórum e Caros Amigos, servir os seus leitores da abordagem puramente neoliberal da cultura brasileira, com direito a uma analogia literal da tese do "fim da História" de Francis Fukuyama, por sinal ídolo do ex-patrão (mas ainda mestre) de Sanches, o Otavinho Frias.

É só ler, por exemplo, o texto "Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais?", além de outros do mesmo autor, para percebermos o quanto Pedro Alexandre Sanches tem de Fukuyama.

Sanches pensa a MPB da seguinte forma: "Tivemos Jackson do Pandeiro, Ataulfo Alves, Elizete Cardoso e até Tom Jobim. Tivemos catiras, baiões, modinhas, sambas-rock e outras bossas. A História da MPB cumpriu seu curso, e agora o que nos cumpre é endeusar o brega, o tchan, o rebolation, o "funk" e deixar a bunda rodopiar". Exatamente o que Francis Fukuyama pensa sobre a História da Humanidade, com surpreendente semelhança de sentido.

Mas isso seria destruir o sonho da intelectualidade, seria romper o corporativismo, a burocracia, a "paz social" do mercado brasileiro. E faz com que até a mais "progressista" dessa intelectualidade etnocêntrica sofresse da "síndrome de Regina Duarte", com um medo de que as revoltas sociais representassem na ampliação verdadeira dos espaços da expressão dos pobres no Brasil.

Afinal, é muito diferente ver o povo pobre fazendo baiões autênticos novamente e jogando informação na cultura popular e ver ídolos do forró-brega invadindo espaços da MPB por conta de alguma brecha paternalista da intelligentzia. É muito diferente ver um nordestino compondo uma nova canção com a força de uma "Asa Branca" e ver um grupo de "forró-brega" gravar covers de Luiz Gonzaga no seu décimo CD de carreira.

Daí a incoerência de ver Ivana Bentes reprovar o mito da "periferia legal" e elogiar o documentário Sou Feia Mas Tô Na Moda de Denise Garcia, que também aposta nesse mito, lançando até mesmo lamentáveis ícones da mediocridade cultural, como a Gaiola das Popozudas, que na verdade prestam serviço à imbecilização sócio-cultural associada à exploração machista das mulheres-objetos e a alienação dos homens pobres pela supervalorização de seu "apetite sexual".

Com isso, virão o quê? Mais desculpas? A coisificação da mulher pelas mulheres-objetos pode ser vista como "feminista" porque essas mulheres de glúteos exagerados não dependem de marido? Ou a pornografia representaria a "iniciação sexual" das jovens da periferia?

Por isso mesmo a intelectualidade etnocêntrica, que faz apologia ao que está aí sob o rótulo de "cultura popular", só consegue brilhar no Brasil, quando sua retórica de sonho e fantasia consegue arrancar aplausos da plateia pouco informada. Mas, em relação à intelectualidade da Europa e dos EUA, com tradição de analisar criticamente os fenômenos da mídia, sem receio de causar incômodos nem de ameaçar o sucesso de modismos e nem de atingir reputações consolidadas, a intelectualidade brasileira apenas brinca de "pensar".

É até gozado Pedro Alexandre Sanches falar mal da mania propagandística dos críticos musicais e dizer que ele faz crítica musical para estimular a reflexão crítica das pessoas. Pedro Sanches deveria olhar para si mesmo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...