sábado, 27 de novembro de 2010

GLOBO, SBT E A CRISE DO BRASIL CAFONA



Por Alexandre Figueiredo

A crise financeira do SBT e a crise de poder da Rede Globo, que continua dominante mas deixou de ostentar a hegemonia de tempos atrás, mostram o quanto o Brasil vive numa fase tanto de reajustamento de valores sociais e culturais, políticos e econômicos, quanto vive uma crise em que os valores hegemônicos desde o golpe de 1964 estão em crise, mesmo aqueles que utilizam-se de vários pretextos para continuarem prevalecendo, desta vez sob a roupagem "progressista".

Esse é o caso do brega-popularesco. No auge de uma pregação de uma elite de intelectuais - críticos musicais, cientistas sociais e certos blogueiros - em defesa do que eles pensam ser "a verdadeira cultura popular", essa pretensa cultura, que se ascendeu de forma vertiginosa sob o apoio da grande mídia, sobretudo nos anos 70 e 80, atingindo seu auge na década de 90, vive agora uma crise, se não de mercado, mas também de hegemonia.

Afinal, o brega-popularesco é uma ideologia baseada numa visão rasteira, provinciana e tendenciosa do pop comercial dos EUA. Se alinha com os interesses neoliberais, aplicados ao âmbito cultural. No entanto, desde os últimos anos da Era FHC, quando a tragédia da plataforma P-36 da Petrobrás (então à beira de se rebatizar como Petrobrax), do "apagão" da energia elétrica e do comentário irônico do próprio Fernando Henrique Cardoso, chamando os aposentados de "vagabundos", fez o brega-popularesco, hegemônico na maior parte das rádios FM e em quase toda a TV aberta, retrabalhar seu discurso.

Nos primórdios da Era Lula, iniciou-se uma campanha de perpetuação do brega-popularesco que, além da crise da Era FHC, foi motivada também pela crise do rádio FM, que, pelos arranjos politiqueiros, deixou a segmentação musical de lado para apostar na absorção de programas não-musicais, típicos de rádio AM, mudando o foco jabazeiro das gravadoras para os dirigentes esportivos, empreiteiros e banqueiros.

Dessa forma, ídolos que ainda faziam sucesso hegemônico no país começaram a trabalhar um discurso estranho. Mesmo sendo muito populares, esses ídolos alegavam ser "vítimas de preconceitos", na ânsia de serem levados a sérios e a penetrar em espaços mais apropriados para a MPB autêntica.

Esse discurso, altamente tendencioso, que tentava empurrar a mediocridade musical e seus valores associados para a intelectualidade - até novelas mexicanas, programas policialescos e jornais populistas eram temas de teses universitárias apologéticas, feitas tão somente para fazer propagandas desses fenômenos a públicos intelectualmente melhor qualificados - , a princípio ocorria dentro dos "pátios" da mídia conservadora, sobretudo nas Organizações Globo, mas também na Folha de São Paulo e nas revistas Contigo e Caras.

Mas, com o passar do tempo, a discurseria se ampliou para o âmbito da mídia esquerdista, apenas por uma lacuna existente no Brasil, em que a intelectualidade ainda não tinha uma posição acerca da cultura brasileira. Isso era grave, porque até nos assuntos do Oriente Médio havia uma posição de esquerda formada, solidária aos palestinos, em detrimento da política israelense apoiada pelos EUA. Mas, no âmbito da música brasileira, chegava-se ao ponto da esquerda defender os mesmos sucessos da cultura estereotipada que aparecia no Domingão do Faustão e dava até capa do caderno Ilustrada da Folha.

A ideologia brega-popularesca, baseada na destruição gradual de identidades culturais regionais, transformando-a no arremedo de si mesma, com fortes elementos da cultura estrangeira, assimilados de cima para baixo através das rádios e TVs dominadas por oligarquias nacionais e regionais, foi um mecanismo de controle social patrocinado por governos conservadores, como a ditadura militar e os governos de Sarney, Collor e Fernando Henrique. Sua hegemonia se deu nos anos 90, em consequência da distribuição politiqueira de concessões promovida pelos oligarcas José Sarney e Antônio Carlos Magalhães, quando o primeiro presidia a República e o segundo era ministro das Comunicações, nos anos 80.

Mas o discurso movido pela intelectualidade tentou reverter a situação. Tão cedo Paulo César Araújo tentou convencer, no seu livro Eu Não Sou Cachorro, Não, da falsíssima imagem de "subversivos" dos ídolos bregas. Araújo, apesar de aplaudido no seu discurso panfletário, se esqueceu que nenhum ídolo cafona esteve presente em qualquer manifestação pela redemocratização do país. Apesar disso, a lorota conseguiu enganar muita gente.

E, nesse caminho todo, o "funk carioca" tentou vender uma imagem de "esquerdista", enquanto aparecia em tudo quanto era veículo das Organizações Globo e no resto da mídia golpista. Ficava complicado fazer o mesmo com os neobregas "sofisticados", que são os cantores de axé-music, breganejo e sambrega que apareciam toda semana no Domingão do Faustão. Mas eles tinham sua campanha, pelo menos, na mídia golpista.

A mídia esquerdista só lembrava dos neobregas "sofisticados" em citações discretas, enquanto investia mais em tendências mais grosseiras, como o "funk carioca" e o tecnobrega. Que no entanto também entravam na mídia golpista pelas portas da frente.

SBT CONSOLIDOU O BREGA NO BRASIL; GLOBO O REFINOU

A ideologia brega foi formatada desde quando os latifundiários se inquietavam com as mobilizações sociais, seja pelas Ligas Camponesas, seja pelo catolicismo de esquerda, seja por iniciativas como a campanha educacional do professor Paulo Freire.

Visando reestabelecer o controle social sem investir demais na violência do campo (que se limitava a exterminar líderes e militantes), o latifúndio financiou uma campanha midiática que transformou o povo pobre numa caricatura resignada, sem identidade nacional nem regional, mergulhado ao subemprego, à prostituição, ao alcoolismo, cuja trilha sonora, a princípio, foram os arremedos de serestas desprovidos de qualquer contexto social, verdadeiras paródias dos seresteiros originais (que, estes sim, tinham sua história e valor).

Com o tempo, sobretudo através da Crise do Petróleo de 1973, que afetou a economia mundial e derrubou o "milagre brasileiro" da ditadura, a ideologia brega que era instrumento de controle social da grande mídia teve que passar por transformações.

O caráter puritano dos bregas originais ganhou um impulso "pornográfico" com piadas de duplos sentidos e mulheres de glúteos enormes. A breguice teve que forjar uma falsa diversidade regional, sobretudo no Norte e Nordeste, devido a políticas turísticas promovidas pelos governadores civis ligados ao poder ditatorial.

A ideologia brega ampliava sua formatação, de forma que viesse a soterrar a verdadeira cultura popular vigente entre os anos 40 e 60, e na década de 70 criou-se um estereótipo de povo pobre que nenhuma chanchada da Atlântida ou da Cinédia seria capaz de criar.

O SBT, no entanto, foi o símbolo maior da ideologia brega, consolidando todo um processo de estereotipação e domesticação das classes pobres. O pretexto vinha do próprio dono, o ex-camelô Señor Abravanel, conhecido pelo codinome de Sílvio Santos, um homem vindo das classes populares, mas de perfil bastante conservador.

A partir de então, a cultura popular virou refém da ideologia brega. O povo não podia mais se expressar culturalmente, tal como no começo dos anos 60. A emancipação popular pela cultura foi travada, não bastassem os transtornos como a crise econômica e a crise educacional, além do próprio cenário político corrompido pela ditadura.

Com a ascensão midiática do SBT, a Rede Globo, conservadora à sua maneira, mas longe das manobras popularescas, aderiu à ideologia brega a partir de Michael Sullivan e Paulo Massadas que, ex-músicos de Jovem Guarda, tinham uma visão de cultura equivalentes à visão do ex-ministro Roberto Campos tinha da economia. Ou seja, uma visão puramente neoliberal, mercantilista.

Juntos, SBT e Globo contribuíram para o aniquilamento da cultura popular, transformando-a numa gororoba apátrida, numa espécie de pop provinciano, esquizofrênico, caricato e confuso, que nada contribui para a emancipação social do povo, não produz conhecimento artístico nem valores sociais edificantes.

A ideologia brega não faz o povo se evoluir, apenas consiste num viciado processo de produção de sucessos e seu consequente consumo, um processo "cultural" que tem mais a ver com Economia, Administração e Publicidade do que com qualquer conceito de Arte e Cultura.

Com a crise financeira do SBT e a crise de hegemonia da Rede Globo, o brega-popularesco se encontra num grande impasse, o que faz com que a intelectualidade que defende esse processo de manipulação cultural também ficasse apreensiva, já que as contradições de seu discurso não o fazem totalmente convincente.

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