sábado, 20 de novembro de 2010

FAVELA E AS CANÇÕES "DE PROTESTO" QUE NÃO PROTESTAM


A FAVELA MERECE UMA CULTURA POPULAR DE QUALIDADE, NÃO A "CULTURA" QUE AS RÁDIOS FM TOCAM.

No dia da consciência negra, celebrado hoje, em que se lembra a luta de Zumbi dos Palmares, os negros brasileiros estão numa situação bem melhor do que naqueles anos terríveis de escravidão, quando o negro nem cidadão era considerado.

Mas hoje a maioria do povo negro ainda é pobre e mora em residências precárias como as favelas. E sua luta ainda continua, plenamente, com força e coragem, mas com humildade, sabedoria e conduta pacífica, como são os autênticos movimentos sociais.

A mídia popularesca e seus colonistas - a intelectualidade que se infiltra na imprensa esquerdista mas segue direitinho a cartilha de Otavinho Frias, vide seu para sempre pupilo Pedro Alexandre Sanches - tenta atrapalhar as coisas.

Assim como o machismo empurra as mulheres-objeto "popozudas", que pensam que ser feminista é não ter marido, o racismo da mídia golpista tenta transformar o negro num misto de tarado e bobo alegre, através da chamada "bunda music" baiana ou do "funk carioca".

Nomes como Mr. Catra e Psirico são dois exemplos de como a visão estereotipada do negro brasileiro é trabalhada pelo Partido da Imprensa Golpista e pela Música de Cabresto Brasileira.

Para um país cuja negritude guarda uma história rica de muita luta, muitos sacrifícios e muitos êxitos, gerando negros e negras atores, intelectuais, artistas, políticos, jornalistas etc, de grande talento e personalidade, reduzir a negritude ao circo de traseiros remexendo e sorrisos tolos - nada a ver com os sorrisos naturais do povo pobre, porque nada têm de tolos - é compactuar com o império da grande mídia, cuja formatação da pretensa "cultura popular" não pode ter sua gravidade menosprezada.

Afinal, por mais que a intelectualidade nos enrole com desculpas e alegações surreais para legitimar a "cultura" brega-popularesca, as armadilhas do showbiz à brasileira mostram que essa "cultura verdadeiramente popular" nada têm de verdadeira nem de popular, mas é apenas uma ideologia comercial popularizada, que nada contribui para o fortalecimento de nossa cultura, limitando apenas a alimentar a mídia e a indústria fonográfica com sucessos de gosto duvidoso, que não produzem conhecimento nem valores sócio-culturais, e que são fadados ao mais puro esquecimento, por mais que Pedro Alexandre Sanches, Caetano Veloso e Fausto Silva tentem salvar esses sucessos para a posteridade.

Uma amostra de seu caráter duvidoso está em três letras de músicas oficialmente ditas "de protesto": "Rap da Felicidade", de MC Cidinho & MC Doca, sucesso do "funk carioca", "Favela", do grupo de porno-pagode baiano Parangolé e "Firme e Forte", de outro grupo de porno-pagode Psirico.

O caráter de "protesto" é desmontado nas próprias letras que, a uma análise profunda, são letras que nada têm de protesto, promovendo apenas o conformismo social. A mensagem do "Rap da Felicidade" se limita tão somente a pedir a inclusão dos favelados no espetáculo de consumo da classe média, num "protesto" muito vago que nada contesta no "sistema" de injustiças sociais em que vivemos. "Favela" aposta no "orgulho de ser pobre" e "Firme e Forte" expressa a conformação com a miséria e com a degradação social, a pretexto da fé.

Embora haja certos clichês aparentemente identificados com a mobilização social, as três letras deixam claro que não fazem protesto algum, sua "indignação" é vaga e imprecisa, seu "orgulho" em ser pobre trava qualquer desejo de melhorias sociais, enquanto se conforma com o sofrimento e as limitações sofridas. No caso do "funk", a única "revolta" está na insegurança e na repressão policial.

Diante de canções de protesto feitas por Zé Kéti e João do Vale, nos anos 60, de Bezerra da Silva e, atualmente, em Milton Nascimento e Martinho da Vila, da mais genuína mobilização social, as três letras, que reproduzimos a seguir, tornam-se lamentáveis exemplos de como a mídia golpista, que têm nesses dois estilos expressões típicas, mas não únicas, de domesticação social do povo pobre, faz em relação à periferia.

O povo pobre quer qualidade de vida, quer justiça social e, acima de tudo, quer cultura melhor. E não essa "cultura" estereotipada de lotadores de plateias que nem para protestar contra a miséria sabem fazer:

Rap da Felicidade
Cidinho
Composição: Julinho Rasta/Kátia

(refrão)
Eu só quero é ser feliz
Andar tranqüilamente na favela onde eu nasci, é
E poder me orgulhar
E ter a consciência que o pobre tem seu lugar

Fé em Deus... DJ

Eu só quero é ser feliz
Andar tranqüilamente na favela onde eu nasci, é
E poder me orgulhar
E ter a consciência Que o pobre tem o seu lugar

Mas eu só quero
é ser feliz,feliz,feliz,feliz,feliz
onde eu nasci
ham...
e poder me orgulhar
e ter a consciência
Que o pobre tem seu lugar

Minha cara autoridade, eu já não sei o que fazer
Com tanta violência eu tenho medo de viver
Pois moro na favela e sou muito desrespeitado
A tristeza e a alegria aqui caminham lado a lado
Eu faço uma oração para uma santa protetora
Mas sou interrompido a tiros de metralhadora
Enquanto os ricos moram numa casa grande e bela
O pobre é humilhado,esculachado na favela
Já não agüento mais essa onda de violência
Só peço, autoridade, um pouco mais de competência

Eu só quero é ser feliz
Andar tranqüilamente na favela onde eu nasci, é
E poder me orgulhar
E ter a consciência Que o pobre tem o seu lugar

Diversão hoje em dia não podemos nem pensar
Pois até lá no baile eles vêm nos humilhar
Ficar lá na praça, que era tudo tão normal
Agora virou moda a violência no local
Pessoas inocentes, que não têm nada a ver
Estão perdendo hoje o seu direito de viver
Nunca vi cartão postal que se destaque uma favela
Só vejo paisagem muito linda e muito bela
Quem vai pro exterior da favela sente saudade
O gringo vem aqui e não conhece a realidade
Vai pra Zona Sul pra conhecer água de coco
E pobre na favela,vive passando sufoco
Trocaram a presidência, uma nova esperança
Sofri na tempestade, agora eu quero a bonança
O povo tem a força, só precisa descobrir
Se eles lá não fazem nada, faremos tudo daqui.

Eu só quero é ser feliz
Andar tranqüilamente na favela onde eu nasci, é
E poder me orgulhar
E ter a consciência Que o pobre tem o seu lugar

Diversão hoje em dia... nem pensar
Pois até lá no baile eles vêm nos humilhar
Ficar lá na praça, que era tudo tão normal
Agora virou moda a violência no local
Pessoas inocentes, que não têm nada a ver
Estão perdendo hoje o seu direito de viver
Nunca vi cartão postal em que se destaque uma favela
Só vejo paisagem muito linda e muito bela
Quem vai pro exterior da favela sente saudade
O gringo vem aqui e não conhece a realidade
Vai pra Zona Sul pra conhecer água de coco
E pobre na favela, passando sufoco
Trocaram a presidência, uma nova esperança
Sofri na tempestade, agora eu quero a bonança
O povo tem a força, só precisa descobrir
Se eles lá não fazem nada, faremos tudo daqui.

Favela
Parangolé
Composição: (Léo Santana)

Favela Ê Favela
Favela eu sou Favela
Favela Ê Favela
Respeite o povo que vem dela

Favela Ê Favela
Favela eu sou Favela
Favela Ê Favela

Ô já ta quase na hora do meu bonde passar
Levando a galera que faz as loucuras
Pega no batente dessa vida dura
Que acorda bem cedo para ir trabalhar
Ô mas que nunca perde sua fé
Que samba na ponta do pé
O alimento da alma é sonhar ÊÊ

Favela Ê Favela
Favela eu sou Favela
Favela Ê Favela
Respeite o povo que vem dela

Favela Ê Favela
Favela eu sou Favela
Favela Ê Favela

Não tem aleotria idéia de preto
Que sobe as escadas e passa por becos
Conhece a noite ele mora do Gueto

Não tem aleotria idéia de preto
Que sobe as escadas e passa nos becos
Conhece a rua ele mora do Gueto

Favela Ê Favela
Favela eu sou Favela
Favela Ê Favela
Respeite o povo que vem dela

Favela Ê Favela
Favela eu sou Favela
Favela Ê Favela

Firme E Forte
Psirico

Na encosta da favela "tá" difícil de viver,
e além de ter o drama de não ter o que comer.
Com a força da natureza a gente não pode brigar
o que resta pra esse povo é somente ajoelhar,
e na volta do trabalho a gente pode assistir.
Em minutos fracionados a nossa casa sumir, tantos anos
de batalha
junto com o barro descendo e ali quase morrer é
continuar vivendo.

Êee chuá chuá, ê chuá chuá,
Temporal que leva tudo, mas minha fé não vai levar.
Êee chuá chuá, ê chuá chuá,
O meu Deus dai-me força pra outra casa levantar.

Eu "tô" firme, forte
nessa batalha.
Eu "tô" firme, forte
Não fujo da raia.

Eu "tô" firme, forte
nessa batalha.
Eu "tô" firme, forte
Não fujo da raia.

Êee chuá chuá, ê chuá chuá,
Temporal que leva tudo, mas minha fé não vai levar.
Êee chuá chuá, ê chuá chuá,
Temporal que leva tudo (Vumbora meu povo!)

Na encosta da favela "tá" difícil de viver,
e além de ter o drama de não ter o que comer.
Com a força da natureza a gente não pode brigar
e o que resta pra esse povo é somente ajoelhar,
e na volta do trabalho a gente pode assistir.
Em segundos fracionados a nossa casa sumir, tantos
anos de batalha
junto com o barro descendo e ali quase morrer é
continuar vivendo.

Êee chuá chuá, ê chuá chuá,
Temporal que leva tudo, mas minha fé não vai levar.
Êee chuá chuá, ê chuá chuá,
O meu Deus dai-me força pra outra casa levantar.

Eu "tô" firme, forte
nessa batalha.
Eu "tô" firme, forte
Não fujo da raia.

Eu "tô" firme, forte
nessa batalha.
Eu "tô" firme, forte
Não fujo da raia.

E na volta do trabalho a gente pode assistir.
Em minutos fracionados a nossa casa cair, tantos anos
de batalha
ver seu barraco descendo imagino...

Êee chuá chuá, ê chuá chuá,
Temporal que leva tudo, mas minha fé não vai levar.
Êee chuá chuá, ê chuá chuá,
O meu Deus dai-me força pra outra casa levantar.

Eu "tô" firme, forte
nessa batalha.
Eu "tô" firme, forte
Não fujo da raia.

Êeeehhh chuáaa...ooohhh!

2 comentários:

  1. Não é preciso pensar muito para perceber que as três "canções" tem letras que sugerem grande acomodação socio-econômica.

    Nota-se um discreto respeito ao "sistema" e a subliminar mensagem que carrega a ideia burra de que "qualidade de vida" é ser incluido na sociedade de consumo.

    Sinceramente, morar em favela não é dignidade para ninguém.

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  2. Como diria Paulo Freire, é preciso que em processo de parto doloroso se extrai o opressor de dentro do oprimido.
    O que essas letras de "música" nos mostram é um elogio à opressão.

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