sexta-feira, 12 de novembro de 2010

ETNOCENTRISMO TAMBÉM É PRECONCEITO CONTRA OS POBRES


A música do Calcinha Preta NADA diz para o povo dessa região.

Por Alexandre Figueiredo

A pauta mais recente hoje é a manifestação de gente fascista contra o povo nordestino, revoltada porque o Nordeste foi uma das regiões brasileiras onde Dilma Rousseff atingiu mais votos do que José Serra, candidato das elites concentradas nas áreas mais abastadas da região Sul e de São Paulo.

Uma internauta chamada Mayara Petruso, universitária, despejou ódio contra os nordestinos, e depois, no típico estilo "morde e assopra", pediu desculpas, depois que seu comentário segregatório repercutiu negativamente. Mas o estrago, feito, só aqueceu as discussões acerca do apartheid brasileiro que habita o imaginário das elites.

Mas a questão do preconceito vai muito além da segregação explícita. Costuma-se ter preconceito até mesmo com a ideia de preconceito, e isso torna-se uma coisa ainda mais complicada, porque simplesmente "romper o preconceito" não significa necessariamente dar qualidade de vida para o povo socialmente excluído.

Afinal, não seria a doce propaganda do "orgulho de ser pobre", por mais que aparente ser uma campanha "carinhosa" e "solidária" ao povo pobre, um processo realmente favorável à compreensão e ao respeito à população pobre, principalmente a nordestina, a nortista ou mesmo as populações pobres que habitam as grandes cidades.

Até mesmo o escritor irlandês Oscar Wilde criticou essa atitude hipócrita da intelectualidade que hoje faz o discurso predominante sobre a "cultura popular". Mas poucos no Brasil leram o célebre conto "O amigo dedicado", que faz uma crítica à hipocrisia das elites em lidar com o patrimônio do povo pobre. O rico moleiro personifica as elites que, admirando o jardim florido que o pobre Johnny, que vive numa casa miserável, cria, pega as flores para si, e, em troca, lhe oferece um carrinho de mão defeituoso, velho e imprestável. Johnny não tem assistência e, num dia, morre afogado no caminho de volta para casa.

O povo nordestino não pode fazer mais seu baião, seus ritmos regionais. Seu rico acervo musical, de séculos, foi apropriado pela intelectualidade paulista "solidária" e seus similares, simbolizada por Pedro Alexandre Sanches, Ronaldo Lemos, Hermano Vianna, Eugênio Arantes Raggi etc. Agora, só a classe média alta pode ter seus baiões, seus xaxados, seus maxixes, seus maracatus ou mesmo seus sambas-reggae.

O povo pobre do Nordeste, não. Seu rico patrimônio, tal como as lindas flores do Johnny do conto de Wilde, agora só servem para os "moleiros" da USP, UFRJ e outras. E o que eles devolvem? O pop norte-americano de baixa qualidade, seja Akon, seja Beyoncé, músicas que têm mais recursos eletrônicos do que melodias.

O povo se afoga em tecnobregas, forró-bregas, porno-pagodes, arrochas, e defender isso também é pregar o preconceito contra o povo nordestino. Afinal, dentro dessa abordagem, o povo nordestino só "é bom" quando desempenha o papel subordinado do pobretão dócil, que entra timidamente pelas casas das elites, sorrindo de forma ao mesmo tempo patética e tola, resignado com sua inferioridade.

Quer dizer, a mesma intelectualidade que diz exaltar os movimentos sociais, quando feitos no exterior, prefere ver o povo pobre, seja que região for, mas sobretudo no Norte e Nordeste, sorrindo tolamente, expressando sua mediocridade cultural e fazendo seus gestos patéticos, seu rebolado tosco, seus risos patéticos.

Elogiar tudo isso como se fosse "o movimento sócio-cultural das periferias" em nada resolveu na melhoria das condições de vida do povo pobre.

Pelo contrário, essa "mobilização" só contribui para manter e reforçar as contradições de classe, com um agravante: acaba restringindo a função de transformação sócio-política do povo pobre apenas à atuação institucional de certos políticos, intelectuais e ativistas de classe média. A atuação dessas pessoas é válida, mas não se deve limitar as lutas sociais a elas.

É digno de comportamento elitista, segregatório, discriminatório, acreditar que o sentido do povo pobre no Brasil está apenas em sorrir bonitinho e rebolar feito um idiota, porque trata o povo pobre como se fosse macaquinho de realejo.

O grupo baiano Parangolé, do sucesso "Rebolation" (um título que, em si, exprime a imbecilização social do brega-popularesco, num país que transformou a palavra inglesa football no "futebol" carregado de brasileirismo), sofreu o peso do racismo por parte de uma dona de um hotel onde o grupo baiano foi hospedado, no interior de Minas Gerais.

Com todo o equívoco que deve se considerar em relação ao racismo, e com a reprovação que damos ao procedimento da dona do hotel, no entanto não devemos deixar de considerar que boa parte do racismo vem da própria postura do Parangolé, do Psirico e outros grupos similares do porno-pagode pós-Tchan, que já tratam o povo negro de uma forma caricata e estereotipada, para não dizer idiotizada.

Isso é que é o problema. O povo pobre é levado a se tornar a própria visão preconceituosa que as elites dirigem a ele. O povo pobre torna-se, pelas mãos da mídia dominante, caricatura de si mesmo, num processo perverso de domesticação que a intelectualidade em maioria ainda não compreende. Guy Debord, falecido intelectual francês, teria compreendido muito mais a domesticação social pelo brega-popularesco, com todas as suas contradições e sutilezas, do que muito antropólogo brasileiro influente.

Afinal, os mais de 350 anos de lutas sociais, de rico patrimônio sócio-cultural do povo pobre, que era capaz de derrubar governos com sua força e inteligência vivencial, não podem hoje ser rebaixados ao espetáculo da mediocridade dominante nas rádios FM e na TV aberta.

Também não vamos fingir que tudo está bem. A intelectualidade que defende a ideologia brega-popularesca tenta ignorar que os ídolos musicais ancorados na cafonice explícita ou implicitamente expressas surgiram e cresceram dentro de um processo de indústria cultural que envolve politicagem, jabaculê, e tendenciosismo até na produção artística.

Por exemplo, o pseudo-sambista que começa a carreira como uma imitação barata de Lionel Richie com Odair José, só quando comemora dez anos de carreira grava algum samba autêntico, mas mesmo assim um cover, talvez como um prêmio para seus dez anos de sucesso comercial, dispensado de fazer um disco todo com suas horrorosas canções autorais. Isso é o tal tendenciosismo artístico que em nenhum momento enobrece o artista.

A questão de romper o preconceito não se resolve botando Calcinha Preta, É O Tchan e Gaiola das Popozudas para serem tocados nas rádios especializadas em MPB. O apartheid cultural em nada é abalado com isso, até porque já existem espaços de MPB que tentam incluir todo esse lixo, e só provocam reações contrárias de rejeição, que não podem ser consideradas como expressões baratas de "preconceito".

Não pode essa rejeição a ídolos popularescos - o mesmo pode se dar, também, quando Alexandre Pires e Daniel são usados pela MPB FM ou pela TV Cultura como "chamariz" para eventos comemorativos, já que eles foram gravar covers, deixando seus repertórios medíocres para o Domingão do Faustão e similares - ser considerada de forma alguma um "preconceito". Até porque quem rejeita a música brega-popularesca como um todo, do vovô Waldick à netinha Gaby Amarantos, do breganejo ao "rebolation", é obrigado a conhecer esse tipo de música a contragosto.

Até porque a música brega-popularesca rola no som dos supermercados e nas redes de atacado e varejo, nos eletrodomésticos em amostra nas lojas de eletro-eletrônicos, na zapeada da televisão aberta e do rádio FM, nas andanças pelas ruas. Quem não gosta de brega-popularesco ouve até mais dessa música do que aqueles que gostam. Ou mesmo da intelectualidade que defende os ídolos brega-popularescos, que certamente defendem para os outros. A intelectualidade se tranca no quarto e vai ouvir MPB paulistana apoiando-se na sua estante de livros.

Por isso mesmo, a ideologia brega-popularesca, que historicamente esteve sempre vinculada a um contexto político, econômico e midiático dos mais retrógrados, não pode ser visto hoje como a "verdadeira cultura popular". Isso é condenar o povo pobre do Brasil à mesma escravidão sócio-cultural que a ditadura militar lhes reservou de forma decidida.

Esse é o verdadeiro preconceito: tentar legitimar a domesticação sócio-cultural das classes pobres com base na visão paternalista e bondosa que se tem da população pobre. Porque se trata de uma falsa solidariedade, da qual se esconde a apropriação elitista da classe média alta sobre o rico acervo musical brasileiro, enquanto os pobres viram escravos das rádios, da TV aberta.

Defender o brega-popularesco nunca resultou na melhoria das condições de vida do povo pobre. Não lhes significou abertura de consciência, de crítica ou mesmo de autocrítica. A única coisa que essa defesa, pela intelectualidade, fez de concreto, foi apenas de manter o milionário mercado da suposta "cultura popular" que enriquece empresários, políticos e latifundiários.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...