segunda-feira, 22 de novembro de 2010

EDITORA DE LIVRO SOBRE BREGA NÃO ACEITA PREMIAÇÃO A CHICO BUARQUE



Por Alexandre Figueiredo

Na semana passada, o grupo editorial Record anunciou que não participará mais das futuras edições do prêmio Jabuti de Literatura, enviando um comunicado que também foi divulgado pelo blog de Reinaldo Azevedo, um dos astros do Partido da Imprensa Golpista e colonista da infame revista Veja.

O presidente do grupo Record, Sérgio Machado, e a editora Luciana Villas-Boas chegaram a dar uma entrevista desqualificando o escritor e compositor Chico Buarque, premiado pelo seu livro Leite Derramado, acusando-o de "favorecimento" e de "motivos políticos de diversas naturezas". Os dois chegaram a organizar um abaixo-assinado para que Chico Buarque devolvesse o prêmio.

A paranóia direitista, sobretudo através de Reinaldo Azevedo, faz com que eles acreditem que Chico Buarque foi premiado porque apoiou a campanha de Dilma Rousseff para a Presidência da República. Sem qualquer elegância na discordância, partem para todo tipo de baixaria devido à revolta da derrota de seu candidato.

Mas uma coisa que deve ser também levada em conta é que a Editora Record é a mesmíssima editora que foi responsável pelo primeiro livro dedicado à música brega, um dos primeiros produtos da campanha apologista da mídia brega-popularesca, vigente nos últimos dez anos no país.

Pois foi a Record que publicou o livro Eu Não Sou Cachorro, Não, de Paulo César Araújo, publicado em 2001. É uma obra panfletária, cheia de meias-verdades, cujo autor, no estilo "foi sem querer querendo", dizia "admitir" que os ídolos bregas não eram politizados, mas tentava em todo o livro provar o contrário, gastando páginas e páginas só para nos convencer de que Waldick Soriano e cia. eram "cantores de protesto" que "apavoraram a ditadura militar".

O livro criou uma "versão oficial" da história da música brega que nada tem de verdadeira, mas sempre favorável a seus ídolos. Escrito de maneira unilateral, priorizando as entrevistas com os próprios ídolos bregas - a exemplo da Folha, que entrevistou o banqueiro Daniel Dantas perguntando o que ele achava de ser preso como um criminoso - , o livro foi um dos responsáveis pela visão mítica em torno de Waldick Soriano que, morto e santificado, passou a ser visto como um "doce subversivo".

A obra influenciou até a atriz da Rede Globo Patrícia Pillar a fazer um documentário de Waldick. Ela e PC Araújo, juntos, criaram um lobby do brega-popularesco que influenciou até no "funk carioca" (herdeiro da música brega através de nomes como Gretchen e Wando) e que cometeram um atentado à verdade histórica retirando uma entrevista feita em 1983 em que Waldick Soriano, um sujeito claramente conservador, atacava o feminismo e elogiava a ditadura militar.

Paulo César Araújo - visto como um "deus" por várias pessoas, sobretudo blogueiros - , aliás, afirmou também não gostar de Chico Buarque e Araújo, que logo no seu semblante está longe de inspirar qualquer confiabilidade (apesar da busca do Google pelo seu nome mostrar os linques de textos quase que totalmente favoráveis ao autor). Eu mesmo pude ver o autor quando fui a uma palestra no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. Achei ele um grande canastrão.

A Editora Record também publicou, em 2006, História Sexual da MPB, de Rodrigo Faour, que, a pretexto de fazer um histórico "sensual" da Música Popular Brasileira, tenta uma apologia desesperada ao "funk carioca" e protesta sutilmente contra a baixa reputação alcançada pelo grupo de porno-pagode É O Tchan.

A indignação pela premiação a Chico Buarque talvez seja porque a Record queria que seu contratado Edney Silvestre (jornalista das Organizações Globo) recebesse a premiação dada a Chico, e mostra uma surpressa em relação à Companhia das Letras, já que em outros tempos a editora era protegida da Folha de São Paulo. Mas isso o era quando os hoje dissidentes que trabalham em Caros Amigos (como José Arbex Jr. e Marilene Felinto) ainda estavam na Folha, que reservava um espaço para o pensamento de esquerda, o caderno Mais!, hoje extinto.

Além disso, a Companhia das Letras mostrou-se mais imparcial na sua linha editorial, mais criteriosa e instigante em suas publicações. Eu mesmo comprei vários livros da editora, muito bons. A Record teve sua história, mas a editora envelheceu e perdeu a força que tinha, sucumbindo ao comercialismo rasteiro.

Chico Buarque, uma das figuras mais inteligentes da Música Popular Brasileira e compositor que dispensa comentários, tem sua importância provada quando dá entrevistas longas, sempre comentadas e discutidas como um verdadeiro ensaio intelectual. Herdeiro e testemunha de uma geração de artistas que incluiu Tom Jobim e Vinícius de Morais, Chico também se valeu por ser filho do historiador Sérgio Buarque de Hollanda, um dos mais renomados intelectuais da história do Brasil e integrante de uma produtiva geração de pensadores que tentou desenvolver a cultura de nosso país.

Hoje esses intelectuais são esquecidos do grande público. Sérgio Buarque, Caio Prado Jr. (este também foi editor, da brilhante Brasiliense), Heloísa Alberto Torres, Mário de Andrade, Rodrigo de Melo Franco, Oscar Niemeyer (que continua vivo, esbanjando lucidez), Lúcio Costa, Darcy Ribeiro, Clarice Lispector (uma ucraniana de alma brasileira), Milton Santos e tantos outros, só são conhecidos pelos meios acadêmicos ou pela parte intelectualizada de nossa sociedade.

Chico, por sua vez, é apenas conhecido pela mídia golpista como o cantor fanfarrão que toma água de coco no Arpoador e fica azarando moças solteiras. Verdadeiro atestado de desinformação, ou talvez de sonegação proposital de informação. Pois Chico Buarque, em 45 anos de carreira, construiu uma trajetória sólida, consistente, coerente, humanista. Suas contribuições à cultura brasileira são incontáveis, incluindo até mesmo adaptação de peças teatrais infantis.

Mesmo sendo de classe média, Chico Buarque era muito mais solidário ao povo das periferias do que qualquer ídolo de brega-popularesco, já que os ídolos "sertanejos" não passam de meros capatazes musicais dos latifundiários, e os ídolos de "pagode romântico" se esquecem logo da origem favelada para comer do mesmo caviar da burguesia que os acolhe feliz.

A essas alturas, até Paulo César Araújo, descendo do seu Olimpo pessoal, correria rapidinho para chorar nos ombros de Reinaldo Azevedo. Que por sua vez trataria Araújo com todo o carinho de um dedicado irmão.

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