quinta-feira, 11 de novembro de 2010

DIREITA DEFENDE VALORES RETRÓGRADOS ATÉ NO ENTRETENIMENTO


SOLANGE GOMES E JOÃO BOSCO & VINÍCIUS - Expressões de valores conservadores defendidos pela direita brasileira.

Por Alexandre Figueiredo

Recentemente, pude sentir o reacionarismo através de mensagens revoltadas contra meu outro blog, O Kylocyclo, uma em defesa da celebridade Solange Gomes e outra em defesa da dupla de "música sertaneja" João Bosco & Vinícius.

Incapazes de tolerar críticas, os missivistas - que, respectivamente, assinavam com os pseudônimos de "marcia" e "Gabriel" - , são adeptos do pensamento único, porque eles têm todos os seus espaços próprios para elogiar seus ídolos, mas se irritam quando blogs e sítios virtuais que não concordam com eles façam comentários sobre seus ídolos.

A internauta "marcia", num tom bem grotesco e com ameaças, saiu em defesa de Solange Gomes, como se ela nunca houvesse feito de errado na vida. Em outras palavras, a celebridade cometeu gafes e "marcia", no entanto, quer que a respeitemos por isso. Entre as gafes cometidas por Solange, está a desrespeitosa paródia "sensual" de enfermeira e freira e a declaração de que ela odeia ler livros. Um detalhe: a dita cuja tem 36 anos de idade.

Já "Gabriel" exigia "respeito" à dupla João Bosco & Vinícius, alegando que o nome artístico da dupla é "verdadeiro", a despeito do hábito dessas duplas adotarem pseudônimos (Zezé Di Camargo & Luciano, por exemplo, se chamam na verdade Mirosmar e Welson). Como todo defensor da dupla de "sertanejo universitário" - um rótulo pra lá de duvidoso - , "Gabriel" se irrita em relação ao sentido provocativo do nome da dupla, que alude a dois nomes da MPB autêntica.

Faz sentido haver surtos reacionários desse nível, uma vez que as transformações ocorridas no Brasil põem em xeque valores conservadores cuja decadência ainda não é aceita pelos defensores desses valores. O Brasil mudou muito e há anos não mais corresponde ao padrão sócio-cultural lançado pela ditadura militar e que viveu seu auge entre a Era Collor e a Era FHC.

No entanto, as forças políticas, institucionais ou mesmo o empresariado em geral, incluindo aquele ligado ao entretenimento, tiveram grande privilégio de poder político e econômico durante a ditadura e durante momentos políticos conservadores, como os governos Collor e FHC.

Com o desgaste desses valores e a ameaça aos privilégios, várias manobras foram feitas para fazer prevalecer esses valores retrógrados, seja pelo reacionarismo explícito, seja pela cooptação entre as facções progressistas mais frágeis. Daí, por exemplo, haver intelectuais tendenciosos que chamam de "feminismo" a vulgaridade feminina das popozudas, só porque aparentemente elas não têm homem (daí o estranho celibato dessas "musas").

A dita "música sertaneja", nem se fala. Diluição da música caipira original - aquela que é defendida por Inezita Barroso, José Hamilton Ribeiro e Rolando Boldrin - , a suposta "música sertaneja", conhecida de forma crítica como breganejo, além de ser dotada de elementos estrangeiros, usados não para enriquecer a linguagem musical, mas para enfraquecê-la, é patrocinada pelos grandes proprietários de terra, os latifundiários ou os novos barões do agronegócio.

Está mais do que claro que o espetáculo das popozudas, de um lado, e das "duplas sertanejas', de outro, nada têm de progressista. As popozudas não são "feministas" e os "sertanejos" em nada lembram uma "vanguarda pop". Pelo contrário, ambos os fenômenos são associados a valores conservadores.

As popozudas são o outro lado da moeda moralista, já que , se existem as religiões de cunho medievalista, de outro tem a pornografia barata das mulheres-objeto. Mas nenhum dos dois representa oposição ideológica um do outro, porque as popozudas ou boazudas servem a valores machistas que agradam a mesma sociedade conservadora que apoia as religiões mais retrógradas. O moralismo religioso e a pornografia são o Yin e o Yang do conservadorismo direitista.

A dita "música sertaneja" também está associada a valores ideológicos conservadores, que afirmam o poder dos grandes proprietários de terra até no mercado do entretenimento. Afinal, os ídolos "sertanejos" são claramente patrocinados pelo coronelismo dominante no interior do país, mas cujo tráfico de influência no mercado do entretenimento pode atingir até mesmo antigos focos de resistência, como o Rio de Janeiro, que conta até com ídolos de "sertanejo universitário" locais, só para sentir a falta de regionalismo do estilo.

Monta-se "duplas sertanejas" até nos mais ricos condomínios da Zona Sul de São Paulo, e o "sertanejo universitário" já vem com banho de loja, tecnologia, vestuário, todo o padrão visual, estético e administrativo que rompe com qualquer tipo de regionalismo. O som estereotipado também é uma linha de montagem para esse estilo.

As popozudas não podem ser consideradas "feministas" porque servem ao machismo. Elas, pelo contrário, chegam a avacalhar a luta das mulheres, posando de "enfermeiras sexy" ou "freiras sensuais". Só a aparente ausência de cônjuges não sugere emancipação alguma, até porque por trás dessas popozudas, existem empresários e jornalistas que através delas fazem perpetuar os valores retrógrados do machismo, empurrando sexo selvagem para distrair os homens das classes pobres, num processo narcotizante de desviar a revolta popular masculina pelo estímulo aos instintos sexuais.

Portanto, como fenômenos associados a interesses conservadores, as popozudas e os "sertanejos" não podem ser expressão do Brasil progressista. Mas como tem muita gente se enriquecendo por trás desses ídolos e seus referenciais, há indignação quando esses ídolos são duramente criticados.

O mesmo reacionarismo que viu seu candidato José Serra perder nas urnas é o mesmo que também aposta no entretenimento para a transmissão mais sutil de seus valores retrógrados.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...