terça-feira, 2 de novembro de 2010

DILMA ROUSSEFF E A QUESTÃO DO FEMINISMO



Por Alexandre Figueiredo

A primeira vez que o Brasil tem uma mulher eleita presidente da República, que terá como desafio prosseguir com o progresso dos programas sociais da Era Lula, mostra o quanto a situação da mulher brasileira terá que entrar num novo contexto.

Não que ser mulher seja coisa de esquerdista ou direitista, até porque o Rio Grande do Sul foi governado por uma mulher que se demonstrou reacionária e prepotente. O Instituto Millenium é presidido por uma mulher. Portanto, essas discussões ideológicas sobre o papel da mulher estão, neste sentido, superadas.

O que se discute é que a cada dia a mulher não pode desempenhar mais o papel subalterno ou ingênuo. No entretenimento, as mulheres que se restringem ao reles papel de objetos sexuais, popularmente conhecidas como "boazudas" ou "popozudas", não só cada vez mais demonstram não passaram de sub-produtos do velho e decadente machismo, como cada vez mais perdem espaço como referenciais de apreciação masculina ou feminina.

As mulheres bem-sucedidas de hoje falam de política, conversam sobre diversos assuntos, e, mesmo com alguma inclinação para a sensualidade, em nenhum momento apelam para o grotesco, para a exibição gratuita e obsessiva de corpos, procuram respeitar seus corpos ostentando apenas conforme o contexto e de maneira mais discreta.

A mulher alcançou conquistas que fazem diferença, e muito, em relação ao que era há cem anos atrás. Não foi uma atuação fácil nem pacífica. No Brasil, sobretudo, onde o machismo, nos últimos 35 anos, estabelece as últimas resistências, as mulheres brasileiras ainda encontram muitos desafios pela frente.

Nas classes populares, a grande mídia- através de um sistema de valores transmitidos pela "inocente cultura" brega-popularesca - tenta minimizar as conquistas femininas para os aspectos formais. As mulheres têm direito a emprego, são estimuladas a viverem sozinhas, a se virarem sem dependerem de homem algum.

No entanto, a ideologica popularesca faz o possível para promover a domesticação das classes populares, transformando a multidão das classes C, D e E numa massa de ingênuos resignados, "felizes" com sua situação econômica, "realizados" na sua mediocridade cultural, "autosuficientes" nas suas baixas condições de vida.

Nesse contexto, as mulheres mais jovens, sobretudo, são sempre persuadidas, pelo poder da grande mídia, a se comportarem como se fossem coitadas infantilizadas. Ou seja, apesar dessas moças serem estimuladas a tocar a vida praticamente sem a dependência masculina, não possuem a necessária compreensão crítica do mundo, tendo uma personalidade a um só tempo piegas, inocente, por vezes temerosa, por outras crédula, conformista e submissa.

Portanto, o papel da mulher comum tem que superar os valores ainda remanescentes do machismo, já que a cada vez mais a realidade cobra da mulher uma atuação crítica, inteligente, atuante. Não bastam mais corpos sarados nem sentimentos românticos. A mulher que não superar a mesmice que é estimulada pela grande mídia perderá vez na sociedade, ainda que consiga ter um emprego e uma vida própria.

A mulher tem que vencer as barreiras do machismo. Seja contra as injustiças impostas pela opressão masculina, seja contra a silenciosa e narcotizante opressão ideológica, que pode não reprimir as mulheres na busca pela qualidade de vida, mas as impede de exercer uma consciência crítica e atuante e que ainda as faz, em personalidade e mentalidade, ainda vinculadas aos valores machistas de inferiorização feminina.

Desta vez, a mulher brasileira terá que se livrar também da sutil supremacia de uma minoria de homens que comandam editoras de revistas, emissoras de TV aberta e de rádio FM. Vivemos em outros tempos.

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