sábado, 6 de novembro de 2010

"CULTURA DE CABRESTO" E O "POPULACHO"



Por Alexandre Figueiredo

Uma das piores falhas da intelectualidade brasileira é evocar a chamada "cultura" brega-popularesca como se fosse "a verdadeira cultura popular".

Num estranho processo em que textos diversos, cuja caraterística comum é a campanha apologética, com alegações nervosamente escritas, cientistas sociais e críticos musicais parecem compartilhar de um pensamento único, creditando a "cultura de massa" brasileira como se fosse um novo folclore.

É uma elite tomada de uma crença populista-popularesca, cuja noção de cultura popular só conheceram através da televisão. A partir dessa perspectiva, viam o povo de forma estereotipada, sempre como uma multidão de desdentados um tanto bobos, que supostamente parecem felizes nas suas péssimas condições de vida.

São artigos acadêmicos, colunas da imprensa, documentários, livros, biografias, que se dedicam ora para o veterano cantor de música brega já falecido, ora para as intérpretes do "funk carioca" dos últimos cinco anos, ora para o tecnobrega, ora para a dita "música sertaneja", para a axé-music, para o "forró eletrônico".

O "povão", o "populacho", a "ralé", ou seja, os pobres em geral, são vistos com aparente solidariedade por essa intelectualidade, mas nem por isso é uma visão realmente bondosa e transformadora. Pelo contrário, trata-se de uma visão elitista, embora gentil e simpática, que não deixa de enxergar o povo pobre de forma idealizada, paternalista, dócil.

Mas a produção dessa intelectualidade é de todo modo festejada, por uma classe média que predomina na Internet, por uma opinião pública influente, dotada de muita visibilidade, mas que deixa claro seu deslumbramento fácil, que não passa de um disfarce ao temor elitista que essa intelligentzia e seus adeptos sentem pelo "populacho".

ELOGIAR O BREGA-POPULARESCO, PARA AGRADAR O PORTEIRO E A EMPREGADA

Afinal, é uma intelectualidade de classe média alta cujo contato direto com o povo se dá praticamente apenas com o porteiro do prédio, com os faxineiros, com os garis e a empregada doméstica, ou, às vezes, com os feirantes.

Sem ter uma compreensão justa acerca das contradições e dilemas vividos pelas classes pobres, e iludidos com sua ingênua visão da alegria que o "populacho" que vive perto deles vive no cotidiano (que, no entanto, não deixa de expressar seu descontentamento social em vários momentos), esses intelectuais tentam agradar a "ralé" com seus artigos elogiando os "sucessos do povão" e todo o sistema de "valores sociais" associados.

Só que essa produção intelectual de livros, artigos, documentários, ensaios etc, que em tese são escritos para "combater o preconceito" em relação aos supostos fenômenos populares que aparecem na TV aberta, na imprensa marrom e nas rádios FM "mais populares", acabam por expressar um preconceito bem maior do que essa intelectualidade diz combater.

O POVO "É BOM" NAQUILO QUE TEM DE PIOR

Essa visão preconceituosa apresenta muitos equívocos na abordagem da "cultura popular" que aparece na TV aberta, na imprensa marrom e nas rádios FM. Equívocos relacionados à visão de que o povo "é bom" naquilo que tem de pior, de pitoresco, de caricato.

As qualidades degradantes do povo servem de espetáculo para a contemplação feliz da intelectualidade etnocêntrica, que acham que o povo tem que ser assim, ignorando que o povo pobre tem uma história e um patrimônio cultural muito superiores ao que se atribui às classes populares hoje em dia.

Entre esses equívocos está o de ignorar a diferença entre "cultura de massa" e cultura popular, o que faz a tão festejada abordagem que nomes diversos como Pedro Alexandre Sanches, Hermano Vianna, Denise Garcia, Ronaldo Lemos, Oona Castro, Patrícia Pillar, Milton Moura e Paulo César Araújo, entre tantos outros, esteja equivocada ante a tendência de abordagem crítica necessária a essa intelectualidade.

Afinal, a "cultura popular" que eles, de forma tão suspeita, louvam e exaltam, num claro paternalismo etnocêntrico, apresenta sérios problemas que a impedem que seja reconhecida, de fato e de direito, como a verdadeira cultura do povo brasileiro:

1. A música é de qualidade bastante duvidosa e desprovida de qualquer identidade regional ou nacional;

2. A maioria esmagadora dos seus intérpretes é tutelada ou mesmo controlada pelos empresários do entretenimento, principalmente os chamados "conjuntos com donos";

3. Essa "cultura" não produz conhecimento nem valores sociais relevantes;

4. Os "valores sociais" que difunde são ao mesmo tempo confusos e retrógrados;

5. Os "valores culturais" estão associados ao grotesco e em nenhum momento contribuem para a evolução social do povo pobre;

6. Valores como o machismo e a degradação imobiliária são defendidos sob o pretexto de "valores próprios" da população pobre, daí o culto às chamadas "popozudas" e a valorização das moradias precárias das favelas;

7. Existe claros interesses comerciais, porque a "cultura" brega-popularesca defendida pela intelectualidade etnocêntrica movimenta um mercado milionário, que envolve desde grandes empresas de varejo e atacado até os barões da grande mídia, o que contradiz seriamente o caráter de "expressão genuína do povo da periferia", tão difundida por esses intelectuais.

MÚSICA DE CABRESTO BRASILEIRA

A "cultura de cabresto", tão comum na República Velha, ganhou sua forma tardia no que se refere à cultura popular.

Afinal, trata-se da "cultura" brega-popularesca, baseada no processo de domesticação das classes populares, de controle social das mesmas e de expressão "artístico-cultural" estereotipada, caricata, medíocre e apátrida, onde a identidade sócio-cultural, a produção de conhecimento e a transmissão social de valores de um povo são inexistentes. Por mais que os defensores afirmem o contrário, mesmo usando a "relativização social" como pretexto.

Por trás dessa "cultura", há todo um mecanismo de manipulação em torno da mídia, que produz de forma tendenciosa todo um espetáculo popularesco, nas mais diversas tendências, já que é intenção dessa indústria milionária oferecer vários tipos de mercadoria popularesca, sejam os "sofisticados" cantores de "pagode romântico" e "música sertaneja", sejam os grosseiros intérpretes de "funk carioca", seja a pieguice extrema das visitas às casas populares na TV aberta, seja o circo das "popozudas" na imprensa sensacionalista.

Veículos da grande mídia, como redes de TV aberta, controladas por oligarquias nacionais, e emissoras locais de rádio FM, controladas por oligarquias regionais, além de grandes empresas de atacado e varejo, incluindo redes de supermercados e eletrodomésticos, de grandes casas noturnas localizadas sobretudo em subúrbios, de empresas ligadas ao entretenimento (agências de talentos, equipes de som, promotores de eventos), além do apoio, mais do que explícito, de latifundiários e políticos locais, fazem mover esse mercado brega-popularesco que, na verdade, nada tem a ver com o sentido de "cultura popular" a ele atribuído.

Essa verdadeira "cultura de cabresto", no plano musical, pode ser definido como música brega-popularesca, também denominado de "Música de Cabresto Brasileira", em contraposição ao termo Música Popular Brasileira.

A Música de Cabresto Brasileira não é realmente popular, apesar de tanto alarde nesse sentido. Ela não é popular, é popularizada. O povo consome essa categoria musical porque está acostumado, há mais de 40 anos, devido à maciça divulgação nas rádios e na TV aberta.

Mas sua finalidade social é totalmente nula, quando muito apenas uma parte das pessoas oriundas das classes populares são recrutadas pelos empresários do entretenimento para produzir sucessos nas rádios, aparecer no Domingão do Faustão e similares.

Mas sua qualidade artística duvidosa não pode ser relativizada nem tolerada, afinal o que está em jogo, por trás dessa indústria dos "sucessos do povão", é que essa "cultura popular" nunca é feita visando a posteridade nem a evolução social do povo, mas pura e simplesmente para o consumo resignado das classes pobres.

A Música de Cabresto Brasileira tem esse nome porque se relaciona ao processo de "cultura de cabresto" que é o do controle social das classes pobres exercido pelas elites. Tanto que nenhuma de suas tendências expressa consciência crítica, mas conformação social. E seus intérpretes se aproximam mais do perfil ingênuo do pobretão tolo e "simpático", através deles as classes pobres viram estereótipo de si próprias, daí a domesticação social inerente a esse processo.

Sua hegemonia, que ameaça até mesmo a Música Popular Brasileira como um todo, na medida que os ídolos popularescos tentam invadir os espaços antes reservados à MPB ou ao folclore brasileiro, tem como marco principal a política de concessões de rádio FM promovida, nos anos 80, pelo presidente José Sarney e seu ministro das Comunicações Antônio Carlos Magalhães. A partir dessa manobra clientelista, cresceram e se firmaram as oligarquias midiáticas que, desde os anos 90, difundem decisivamente essa suposta "cultura popular".

As tendências da Música de Cabresto Brasileira (MCB) são as seguintes:

- BREGA DE RAIZ - Dilui a antiga canção das serestas, mas enfatizando elementos estrangeiros, como música romântica italiana, country music, boleros e mariachis. Seu caráter datado e mofado indica que a música brega original segue o mesmo raciocínio do desenvolvimento subordinado econômico promovido pela ditadura militar, pois até a matéria-prima obsoleta (boleros então fora de moda) o brega assimilou dos princípios defendidos pelo ministro neoliberal Roberto Campos.

- BREGA SETENTISTA - Dilui elementos da Jovem Guarda ou então a disco music, tentando um apelo juvenil.

- BREGANEJO - A suposta "música sertaneja" pouco tem a ver com a música caipira genuína - a não ser pela usurpação do seu cancioneiro e seus clichês através de covers gravados pelos ídolos breganejos - , e está mais próxima do "brega de raiz" tão citado por Paulo César Araújo.

- SAMBREGA - Diluição do samba herdada do "sambão-jóia" (imitação do samba-rock com forte apelo piegas), que nos anos 90 consistiu na assimilação caricata da soul music dos EUA tocada com instrumentos de samba. Mas, depois de algum tempo de carreira, seus ídolos chegam até mesmo a fazer uma versão falsificada do samba propriamente dito, imitando apenas os elementos mais manjados da música de Zeca Pagodinho e Jorge Aragão.

- LAMBADA, FORRÓ-BREGA - Diluição da música do Norte-Nordeste feita sobretudo com a assimilação de clichês dos ritmos caribenhos. Vigente desde os anos 70, influenciada pelas políticas regionais de turismo da ditadura militar (que exigiu da música brega uma pretensa "brasilidade" ou "regionalidade"), essa deturpação se transformou na lambada dos anos 80-90, que se converteu no forró-brega (ou "forró eletrônico") de meados dos anos 90 para cá.

- AXÉ-MUSIC - Concorrente baiana da lambada nortista-nordestina, a axé-music descende do poder populista de Antônio Carlos Magalhães sobre o turismo e a mídia baiana. Consiste na diluição de ritmos caribenhos e africanos, mas enfatizando o pop comercial dançante dos EUA.

- "FUNK CARIOCA" - O nome aparece com aspas porque o termo "funk" é duvidoso para denominar esse estilo. A influência do miami bass feito na Florida, EUA, é tão escancarada, que nos últimos anos seus empresários-DJs tiveram que lançar mão de uma "nova batida" para vender o estilo aos turistas e cientistas sociais. É o "tamborzão", na verdade um som de bateria eletrônica que imita batuques de candomblé. Mas, dentro do "funk carioca", está também o "funk melody", fusão do "funk carioca" com o brega de Odair José e similares.

- RITMOS DERIVADOS - A indústria brega-popularesca já começa a inventar estilos derivados de cada uma das tendências acima: arrocha, tecnobrega, tchê-music, os ritmos "universitários" ("sertanejo", brega, "funk" ou até mesmo arrocha). Tudo para reciclar as mercadorias cafonas, num simulacro de "modernidade".

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