segunda-feira, 15 de novembro de 2010

CUIDADO COM A JUVENTUDE DE PSEUDO-ESQUERDA


COMANDO DE CAÇA AOS COMUNISTAS - Acreditem, o CCC ainda existe, para abrigar até mesmo os pseudo-esquerdistas na hora do aperto.

Por Alexandre Figueiredo

A opinião pública evolui e cada vez mais as pessoas perdem as ilusões em relação a pessoas que tão falsamente defendem causas progressistas, para depois, por via de alguma circunstância, migrarem para o lado reacionário que boa parte dessas pessoas, no fundo, sempre defenderam.

Não temos a ingenuidade de procurar esquerdismo nos playboys do Arpoador nem na menos reacionária da grande mídia, na vã esperança de encontrarmos alguma solidariedade aos movimentos sociais que soa tão falsa e tendenciosa. Mas é bom alertar para quem ainda acredita assim, já que a ingenuidade pública decresce, mas ainda permanece nas mentes de várias pessoas.

Como, por exemplo, o clamor da esquerda baiana em comemorar o fim do carlismo. Sabemos que o carlismo foi um movimento político de caráter conservador, cuja figura central foi o político Antônio Carlos Magalhães, discreto udenista que se ascendeu durante a ditadura militar e viveu seu auge como senador e dublê de "conselheiro" dos dois governos de Fernando Henrique Cardoso.

Só que, como diz o ditado, rei morto, rei posto. E, quando ACM faleceu, em 2007, a esquerda baiana fez festa sem saber que o legado carlista ainda continua forte e levará um bom tempo a se dissolver. Os esquerdistas baianos foram comemorar a "morte" do carlismo nos estúdios da Rádio Metrópole e se deram mal.

O dono da Metrópole, Mário Kertèsz, cria política de ACM, udenista e arenista durante a juventude, político lançado durante a ditadura militar, foi usurpador das esquerdas quando de seus efêmeros rompimentos políticos com seu "painho" político (que havia chamado o dublê de radiojornalista de "judeu fedorento", certa vez), o que fez os esquerdistas superestimarem o caráter pseudo-esquerdista do já "coroa", mas galanteador de jovens moças na sua rádio.

Daí que o "namoro" do PT baiano com Kertèsz foi um dos mais típicos episódios da ingenuidade humana em torno do tendenciosismo político de certos espertalhões. Os prestigiados jornalistas Emiliano José e Oldack Miranda foram fazer elogiados comentários ao empresário-radialista, também astro-rei da rádio Metrópole, acreditando no tendencioso (e hipócrita) apoio dele ao petismo (onde chegou a ser "narrador" da primeira campanha de Lula).

Mas foram Oldack e Emiliano, autores de um livro sobre o guerrilheiro Carlos Lamarca, fazerem críticas construtivas à publicação impressa Metrópole, então uma revista (que depois virou jornal para baratear os custos), para Kertész, já não precisando mais se autopromover com os petistas baianos, foi espinafrá-los na rádio, citando os nomes de ambos. Um surto direitista havia tomado conta da rádio e do jornal Metrópole, onde não sobrava farpas para o PT, PC do B, PSTU, PCO e o que cheirar algum perfume de marxismo.

Mas ninguém leu Memórias do Escrivão Isaías Caminha de Lima Barreto, lançado há cerca de cem anos, e a mídia golpista não havia sido totalmente desmascarada. E, nem mesmo a "mídia fofa", a menos reacionária da grande mídia, havia mostrado um Bóris Casoy espinafrando os garis num comentário de bastidor acidentalmente transmitido em rede nacional.

Por isso a ingenuidade tinha que ser golpeada em desilusões sérias, e, felizmente, temos uma mídia de centro-esquerda que se torna alternativa de expressão dos movimentos sociais e da intelectualidade engajada. Dessa forma, deixamos de procurar mídia de esquerda na menos ruim da grande mídia e procuramos fazer nossa mídia alternativa.

Não fazia sentido procurar mídia de esquerda na menos ruim da grande mídia. Acreditávamos que, só por serem concorrentes em menos vantagem, a "mídia boazinha" necessariamente se posicionaria do lado do pensamento de esquerda. Grande engano. A polaridade Rede Globo X Rede Bandeirantes, TV Bahia X Rádio Metrópole, entre tantas outras polaridades, não fazia a concorrente menos poderosa estar sempre do nosso lado.

A Folha de São Paulo também se promoveu com essa polaridade com o ultraconservador O Estado de São Paulo, até se mostrar, nos últimos anos, um veículo mais reacionário do que o rival, de uma forma tão grotesca que faz o Estadão - que já teve o crápula Pimenta Neves como diretor de redação - parecer "elegante".

A "GALERA" DE PSEUDO-ESQUERDA OU OS NETOS DO CABO ANSELMO

Lições de pseudo-esquerdismo existem, e alertas recentes são feitos não somente por blogs como este e O Kylocyclo, mas também por gente como Rafael Garcia (Blog do Tsavkko) e por Luís Nassif, que resgatou um antigo discurso do sargento José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, exemplo clássico do que um jovem falsamente esquerdista é capaz.

Pode parecer um constraste grande entre o Cabo Anselmo, tão "solidário" à esquerda, e os integrantes fascistas do Comando de Caça aos Comunistas (entidade que, pasmem, ainda existe e havia recebido José Serra no final da corrida eleitoral do segundo turno).

Mas Anselmo, no entanto, depois se revelou agente da CIA, e denunciou seus próprios colegas com uma convicção tão cinicamente defendida que aqueles que eram amigos e aliados do sargento, incluindo uma ex-namorada, foram presos, torturados e mortos pelo DOI-CODI. A crueldade de Anselmo o equiparou aos jovens arruaceiros do CCC, capazes de incendiar rádios, sequestrar padres, brigar até a morte com universitários de esquerda, tudo para combater o comunismo, o socialismo e outras causas esquerdistas.

No contexto atual em que o antigo esquerdista católico hoje se alinhou aos que virtualmente seriam seus inimigos em 1964, o próprio José Serra, e um antigo militante do CCC, Bóris Casoy, é jornalista contratado da TV Bandeirantes e da Band News FM (símbolos máximos da "mídia boazinha"), a juventude pseudo-esquerdista pode estar até mesmo onde menos se imaginaria que estivessem: o âmbito do entretenimento.

São jovens que, por vezes, parecem universitários comuns, ou então surfistas sarados, clubbers alucinados, patricinhas desbocadas, junkies sarcásticos. Os "netos" do Cabo Anselmo são arrojados no visual, falam muitas gírias, mas seu reacionarismo latente é perigoso. Todos eles desafiando a ilusão sentida pela opinião pública mais influente, de que toda juventude é "esquerdista", uma impressão que veio sobretudo das passeatas estudantis de 1992.

Claro que quem é lúcido não vê sentido nisso. O jovem, em si, não é esquerdista nem direitista, sua postura está no ambiente social em que vive. Ninguém é tão somente esquerdista na juventude para depois, ao sair da Faculdade, optar se continua sendo de esquerda ou se quer mudar de lado.

RÁDIO CIDADE E 89 FM - O CCC ENCONTRA O XOU DA XUXA E OS HELL'S ANGELS

O entretenimento, dotado de visões estereotipadas dos vários estilos "culturais" - como na diluição da cultura rock e da cultura popular - , envolve um processo de controle social que só se conhece nos bastidores. Por isso formas caricatas de "cultura rock" foram promovidas, através de duas emissoras de rádio, uma carioca e outra paulista, respectivamente Rádio Cidade e 89 FM.

A Rádio Cidade foi uma rádio de pop convencional, surgida em 1977, que revolucionou a linguagem do rádio brasileiro. Construiu seu prestígio nessa fase, que durou até 1984. Sua decadência, de fato, ocorreu em 1995, quando, de rádio pop sem muita pretensão se converteu numa caricatura burra de rádio de rock, num Estado, como o Rio de Janeiro, que conheceu a vibração alternativa da Fluminense FM.

O embate da Fluminense FM, extinta mas com muitos adeptos, e da fase "roqueira" da Rádio Cidade (que durou de 1995 a 2006), criou uma polaridade que, no âmbito do radialismo rock, equivaleu exatamente a João Goulart e o golpe de 1964. Como Jango em 1964, a Fluminense FM estava em crise e, embora prometesse reforçar seu idealismo original com mais ousadia, cometeu vários erros. Enquanto isso, a Rádio Cidade, tal como o golpismo militar, tinha uma visão menos ousada e atrelada a valores radiofônicos conservadores, que tratam o ouvinte como se fosse um retardado.

Mas a conduta da Rádio Cidade na verdade havia sido experimentada pela 89 FM desde o final dos anos 80. O vínculo da 89 FM de São Paulo (cujo logotipo "A Rádio Rock", mesmo em grafia impactuante, pouco dizia de sua conduta real) com a ditadura militar, por incrível que pareça, não é delírio de detrator, não. Seu dono, José Camargo, foi político da ARENA e do PDS.

Já a Fluminense FM teve raiz ligada à política reformista, pois seu antigo dono, Alberto Francisco Torres (jornalista cujo nome é relembrado como avenida na Praia de Icaraí, em Niterói), descendente do Visconde de Itaboraí, fundador do jornal O Fluminense, era ligado a setores humanistas do PSD, do qual eram exemplos Ulisses Guimarães e o próprio Juscelino Kubitschek. E as pessoas que trabalhavam ou davam aval para a "Maldita", como Álvaro Luiz Fernandes, Jorge Roberto Silveira e Samuel Wainer Filho, eram descendentes de políticos ou personalidades ligadas direta ou indiretamente ao PTB nos anos 50 e 60.

Só depois de 1990 o Grupo Fluminense de Comunicação tornou-se conservador, nas mãos do neto de Alberto Francisco, Alexandre Torres Amora. Hoje o jornal O Fluminense está alinhado no apoio ao PMDB fluminense, que, apesar de integrar uma chapa progressista, é também considerado conservador.

A Rádio Cidade é ligada ao Sistema Jornal do Brasil, veículo conservador moderado do Rio de Janeiro. O Sistema JB apoiou o golpe militar e a ditadura, e esteve do lado da Globo até no caso Time-Life, quando foi feita, em 1966, uma CPI para investigar o episódio ocorrido em 1962. O Sistema JB, além disso, integrou a chamada Rede da Democracia, que foi uma grande aliança da mídia golpista.

No final da ditadura militar, o JB moderou no seu conservadorismo. Até adotou posturas quase progressistas, defendeu a redemocratização. Mas em 1995 a postura governista (o tucano Fernando Henrique Cardoso era o presidente) fez a Rádio Cidade ser escolhida para trabalhar um perfil ultraconservador do jovem "rebelde", para que assim se dissolvam de vez os ventos alternativos e progressistas da fase áurea da Fluminense FM.

Juntamente com a 89 FM, a Rádio Cidade trabalhou a cultura rock de forma diluída. Não é demais lembrar que o rock foi a trilha sonora da Contracultura, um dos mais audaciosos movimentos da juventude progressista mundial dos anos 80, visão da qual se baseou o perfil original da Flu FM.

Por isso, a Rádio Cidade e a 89 FM trabalharam o perfil roqueiro de forma diluída. Além da rigidez da programação hit-parade - contrariando uma das caraterísticas das rádios alternativas como a Flu FM, que era a liberdade quantitativa da seleção musical - , a Rádio Cidade tratava o perfil do jovem roqueiro como se viesse da imaginação de um delegado do DOI-CODI, com as devidas adaptações de contexto nos anos 90.

Dessa vez, através das duas rádios, o Comando de Caça aos Comunistas encontrava o Xou da Xuxa e os Hell's Angels. Cabo Anselmo encontrava Beavis & Butthead e o Pânico da Pan. Essa comparação é muito ilustrativa para definir o perfil reacionário do jovem "roqueiro" que eu mesmo conheci na Internet.

Os jovens desse perfil odiavam ler livros, só viam filmes de terror e aventura, e, politicamente, adotavam uma posição golpista de desejar o fechamento do Congresso Nacional, a pretexto de eliminar a corrupção. E o "rock" deles estava mais próximo de coisas caricatas como Guns N'Roses do que de figuras respeitáveis como Jimi Hendrix.

Em 2007, quando fui divulgar uma comunidade alheia no Orkut, na comunidade "Eu Odeio Acordar Cedo", minha página de recados foi invadida por reacionários que transformaram o espaço num simulacro de chat. A coisa foi piorando e logo vi que alguns caras me identificaram como o que questionava a Rádio Cidade e a 89 FM em sites que eu tinha sobre radialismo rock. Alguns adeptos das duas rádios participavam desta comunidade.

Com uma conduta típica do Comando de Caça aos Comunistas, os "rebeldes" - entre eles um pitboy chamado Gustavo Ferreira que mentirosamente definia seu perfil como "esquerda-liberal" ("centro-esquerda", no critério do Orkut) - eles ameaçaram invadir meu perfil e já haviam criado um site me ridicularizando, mas enviei mensagem para o provedor que o extinguiu gentilmente. Criaram até perfil falso meu no Orkut, extinto depois que comuniquei ao próprio portal social.

Além do tal Gustavo, havia pseudônimos como "Mestre Lineu", "Noquia", "Cláudia" e outros, que se irritaram quando eu escrevi que "balada" (uma expressão do colóquio da mídia golpista) não era gíria de gente inteligente. Por isso invadiram minha página de recados e me obrigaram a extinguir o meu perfil, com tanta pressão reacionária que fizeram.

Não por acaso, esse surto reacionário que aparecia no Orkut não envolveu só a diluição da cultura rock. A mídia golpista e os adeptos do brega-popularesco também tiveram seu método CCC de reagir a críticas.

Uma comunidade dedicada à revista Caros Amigos foi alterada para a revista Veja depois que um membro pervertido invadiu a conta do moderador e mudou o perfil da comunidade.

Por outro lado, houve o caso de fãs de Zezé Di Camargo & Luciano que rastreavam comunidades que contestavam a breguice da dupla e, invadindo as páginas de recados dos opositores, faziam comentários grotescos e humilhantes, além de defender a dupla com o mais reacionário fanatismo.

O próprio brega-popularesco, a suposta "cultura popular" que está vinculada à mídia golpista e às elites reacionárias, é famosa pelos defensores reacionários. Mesmo o "funk carioca", tido como "progressista". Afinal, fui eu criticar a presença de MC Leonardo (ele escreve para Caros Amigos, claramente destoando do perfil da revista) na Rede Globo para eu receber um comentário de um anônimo (mas usando a linguagem articulada de membros da APAFUNK, entidade na qual o MC é presidente), chamando a esquerda de "burra" e preferindo se aliar à direita "inteligente".

A juventude reacionária se traveste de moderna. Acha que falar palavrão e dizer grosserias vai disfarçar seu reacionarismo. Não vai, e, pelo contrário, acaba reforçando. Prefere defender gírias sem pé nem cabeça como "balada" porque a obsessão pelo discurso coloquialóide disfarça suas ideias retrógradas. Dizem-se "esquerdistas" e bajulam personalidades como Che Guevara porque, como jovens, usam o mimetismo do falso esquerdismo, para impressionar os demais jovens tal qual Cabo Anselmo tentou impressionar seus colegas de farda.

A herança de Cabo Anselmo, do Comando de Caça aos Comunistas e outros exemplos reacionários faz essa juventude pseudo-esquerdista traçar seu oportunismo. Se dizem "esquerdistas" mas espancam empregadas domésticas, hostilizam nordestinos, riem das caras dos lixeiros, querem fechar o Congresso Nacional, incendeiam mendigos, destroem salas de aula, invadem perfis do Orkut e mandam e-mails "amistosos" com vírus para quem não concorda com eles.

De esquerdista, mesmo, eles só gostam das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), por causa da "merenda" que seus guerrilheiros comerciam, de muito agrado dessa "galera" reaça.

Mas o direitismo dessa "galera irada", dos "miguchos" do Bóris Casoy e "netos" do Cabo Anselmo, será de uma forma ou de outra desmascarado, passada a obsessão juvenil de passar uma imagem pseudo-arrojada. É como escreveu sabiamente Renato Russo, na música "A Dança":

Você é tão moderno
Se acha tão moderno
Mas é igual a seus pais
É só questão de idade
Passando dessa fase
Tanto fez e tanto faz.

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