sexta-feira, 5 de novembro de 2010

CONSELHOS DE COMUNICAÇÃO OU COMO DOMAR AS "FERAS" (NO PIOR SENTIDO) DA VELHA GRANDE MÍDIA



Por Alexandre Figueiredo

Em 2004, eu me posicionei contra a criação do Conselho Federal de Jornalismo. Achava, na época, que o conselho poderia sucumbir a interesses politiqueiros, que o contexto não era apropriado e coisa e tal.

Talvez eu tenha errado, até porque ainda não via com clareza as questões da mídia golpista. Ela mesma era mais sutil do que hoje, porque ela se inquietava mais do que outrora diante dos progressos da sociedade, mas se inquietava menos em relação à furiosa campanha que desempenhou hoje, que no entanto resultou numa grande surra que ela levou nas urnas, com a derrota do seu candidato, defendido sem muita sutilidade, o demotucano José Serra.

Mas creio que hoje somos politicamente amadurecidos para defendermos o Conselho Federal de Jornalismo, assim como os conselhos regionais. Pelo menos a não criação do CFJ, há seis anos, permitiu que o projeto fosse debatido, e a própria realidade mostrou desafios que os movimentos sociais estão mais preparados para enfrentar e combater, sem que o extremo reacionarismo da direita intimide ou nos desnorteie.

Em 2004, os blogueiros progressistas ainda eram poucos, e eram vozes pouco ouvidas em relação a hoje. Os blogs eram um fenômeno recente, e a grande mídia gozava de uma reputação que fazia com que a facção menos reacionária da imprensa conservadora parecesse, para incautos ou mesmo para pessoas de boa-fé, "mídia de centro-esquerda". As desilusões acerca dessa mídia "boazinha" vieram, um dos casos mais recentes foi o ataque de Bóris Casoy aos garis, na TV Bandeirantes, que ainda agiu em defesa dos chamados "ruralistas".

Por isso, o ideal do it yourself difundido pelo punk rock, mas tão conhecido pelos movimentos progressistas de esquerda, passou a ser adotado na Internet por pessoas cansadas de esperar que a "mídia boazinha" pense integralmente como elas, o tempo todo.

A atuação de jornalistas profissionais com experiência na mídia conservadora, mas naturalmente convertidos para as causas progressistas, como Paulo Henrique Amorim, Luís Nassif, Luiz Carlos Azenha e Rodrigo Vianna acabaram por nortear a mobilização blogueira, não pela imposição ideológica, mas pela orientação de um caminho no combate ideológico contra a imprensa reacionária. Afinal, eles estavam no "olho do furacão" e sabem como o mecanismo funciona.

A criação do Conselho Nacional de Comunicação - evolução do projeto do Conselho Federal de Jornalismo - em nenhum momento representará censura à veiculação da informação. Pelo contrário, o projeto é encampado pela Fenaj - Federação Nacional dos Jornalistas - , do qual integra o Sinjorba (Sindicato dos Jornalistas da Bahia) do qual tenho registro como jornalista.

O que significa que a Fenaj é órgão representativo dos trabalhadores de jornalismo, dos repórteres, dos jornalistas independentes e - por que não? - dos blogueiros progressistas. Por outro lado, a ANJ (Associação Nacional dos Jornais) é órgão representativo do "patronato", dos barões da grande mídia, dos empresários das maiores empresas de Comunicação do Brasil.

Pelo menos o Brasil está mais amadurecido hoje do que há seis anos atrás. Estamos prontos para que seja criado um órgão de regulação do jornalismo, atividade feita não para fazer censura nem intimidar a veiculação de informação. Pelo contrário, o Conselho Nacional de Comunicação tende a proteger o trabalhador de jornalismo, além de defender o interesse público e punir, isso sim, a imprensa que não atuar em prol do interesse público.

A reação furiosa e anti-profissional da chamada grande imprensa, sobretudo na última campanha eleitoral, deu o tom da irresponsabilidade dos chamados "grandes jornalistas", a cada vez mais apegados a interesses privados - é quase um folclore a frase de Mino Carta de que "o Brasil é o único país onde jornalista chama patrão de 'colega'" - e cada vez mais confusos no trato do interesse público.

O Conselho Nacional e os conselhos regionais poderão também punir abusos de ordem profissional feitas pelos patrões da grande mídia, como a demissão do jornalista do cearense Diário do Nordeste, Dalwton Moura, apenas porque ele, no mais responsável dever de memória histórica e informativa, fez uma reportagem sobre os fatos históricos de inspiração marxista.

Que venha então o novo Conselho Nacional e os conselhos regionais, e que ele consiga domar as "feras" (no pior sentido) da velha grande imprensa e caminhar em favor da verdadeira cidadania, da mais autêntica democracia e do mais genuíno interesse público.

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