quinta-feira, 25 de novembro de 2010

COMO IDENTIFICAR UM "NEOCON"


QUEM IMAGINAVA QUE ESSE PITÉU APOIARIA JOSÉ SERRA?

Por Alexandre Figueiredo

O que é um "neocon"? É abreviatura de neoconservador. Um direitista de primeira viagem, um ex-esquerdista desiludido ou um direitista enrustido que deixou cair sua máscara na oportunidade mais decisiva.

No final do governo Lula, veio toda uma multidão de neocons que não imaginaríamos voar em asas tucanas há oito anos atrás. Como há 30 anos atrás, a esquerda brasileira se serviu de um contingente grande demais para todo mundo abraçar a causa socialista a vida toda.

Nos últimos meses, vemos o Partido Verde, considerado partido-irmão do PT, romper com o petismo e sinalizar uma simpatia discreta, mas convicta, ao conservadorismo "moderno" do PSDB. Vemos figuras como Marcelo Madureira, Caetano Veloso, Soninha Francine, Fernando Gabeira e Ferreira Gullar aderirem à causa direitista, sem que nós desconfiássemos plenamente anos atrás.

Eu mesmo, a princípio, estranhava quando alguém dizia que Fernando Gabeira passou para a direita. Mas logo vi que era verdade. E a Sônia Francine, a bela e deliciosa Soninha da MTV que parecia docemente inteligente e sensata, não só passou a apoiar o PSDB como colaborou na campanha presidencial de José Serra.

Certamente, faz mais sentido haver trânsito de esquerdistas para a direita do que direitistas para a esquerda. Pode parecer cruel, mas é bem mais realista. Porque, baseado no ditado popular "quando a esmola é demais, o santo desconfia", são muito, muito raros os direitistas que se convertem naturalmente para a causa esquerdista. É muito mais fácil um elefante entrar no buraco de uma agulha. Afinal, quem vai largar seus privilégios em prol da causa socialista?

A história relativamente recente do Brasil nos alerta do cuidado que temos que ter nos neocons de amanhã, hoje "solidários" com a causa esquerdista. Quem serão os neocons de amanhã? Todo mundo vai apoiar Dilma Rousseff até o fim?

Em 1964, o próprio José Serra não despertava a menor desconfiança no seu esquerdismo. Ele era presidente da UNE, ligado ao socialismo católico da Ação Popular. E olha que a UNE já passou por uma fase udenista nas mãos de Paulo Egydio Martins (depois governador paulista e hoje filiado ao DEM), na década de 1950.

Ninguém imaginava que o jovem estudante de 22 anos que estava ao lado de João Goulart, Leonel Brizola e Miguel Arraes no comício da Central do Brasil, na Guanabara, tão tardiamente se identificaria com gosto com as forças reacionárias da sociedade que, dias depois, se reuniria no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, para suplicar o golpe militar e a ditadura que durou 21 anos.

Também em 64, outro jovem de 22 anos parecia tão apaixonadamente esquerdista, chamado José Anselmo dos Santos, o "Cabo Anselmo". Líder de uma revolta de sargentos, que irritou as altas patentes das Forças Armadas, sobretudo depois da anistia que, num erro estratégico, foi dada por Jango aos revoltosos presos (a anistia foi o pretexto para o Exército mineiro iniciar o golpe militar), Anselmo parecia um socialista convicto, tinha um discurso envolvente, empolgante, convincente.

Mal se podia imaginar que Cabo Anselmo seria um direitista dos mais perigosos. Depois foi revelado que, já nessa época, Anselmo era agente da CIA, serviço de informação do governo dos EUA, interessado em derrubar Jango e instaurar a ditadura militar. Isso foi a ponto de haver até mesmo um plano de guerra contra o Brasil, chamado "Operação Brother Sam", em que as forças estadunidenses e as tropas brasileiras alinhadas à direita se prepararam para uma possível resistência das forças janguistas e brizolistas. Mas a resistência não houve e a guerra não aconteceu. E Jango renunciou pacificamente.

Para piorar, o desmascarado Cabo Anselmo havia entregado colegas de farda, amigos e uma ex-namorada - a belíssima e meiga Soledad Viedma - para a tragédia nos porões da tortura.

QUEM SERÃO OS FUTUROS NEOCONS?

Evidentemente, direitistas fantasiados de esquerdistas e esquerdistas "arrependidos" existem aos montes no Brasil. A ditadura militar influenciou toda uma sociedade ao mesmo tempo conservadora e hipócrita, que são muitos os "filhos" e "netos" do Cabo Anselmo andando pelas ruas, fumando baseado, falando gírias, sem despertar suspeita.

Eles estão no Orkut, no Facebook, no Twitter, no lazer da vida noturna, vestem roupas joviais, se dizem "esquerdistas", falam que "apoiam a Dilma", mas escondem ideias e ideais dignos dos reacionários militantes do Comando de Caça aos Comunistas. Vestem camisetas com a foto de Che Guevara, mas seu ídolo mesmo é o Cabo Anselmo.

Há também os equivalentes a José Serra, no qual as surpresas estão em pessoas como Fernando Gabeira e Soninha. Tão especializados em analisar criticamente nossa sociedade, eles dificilmente deixariam latente qualquer inclinação direitista. Caetano Veloso ainda vai, afinal era ideologicamente ambíguo, "elogiando" Carlos Marighela mesmo sendo inofensivo ao regime militar (que não entendeu a mensagem puramente lúdica dos tropicalistas, que por mais ousados não incomodaram a ditadura, como afirma José Ramos Tinhorão).

Muitos neocons já foram poetas performáticos, artistas pós-modernos, faziam poesia marginal, militaram no Partido Comunista, discutiam marxismo nos botequins, falavam em reforma agrária, mas quando as reformas sociais se tornaram concretas, eles vieram que foram longe demais e passaram a defender um neoliberalismo apenas "um pouco mais social e humano".

Prováveis neocons já mostram suas caras no âmbito da visibilidade midiática. Pessoas que, até o momento, adotam uma postura, tão aparente quanto forçada, de "esquerdismo" ou de "envolvimento com as causas progressistas" que no entanto mostram aspectos totalmente estranhos, seja de conduta, seja do próprio background midiático de onde vieram.

O mais cotado para ser o neocom da Era Dilma é o professor mineiro Eugênio Arantes Raggi. Figura polêmica em sítios e fóruns da Internet, ele já foi entrevistado pelo jornal Estado de Minas e teve carta divulgada no programa Vrum, produzido pela TV Alterosa (afiliada do SBT).

Raggi é célebre pelo seu discurso altamente reacionário, anti-socialista, que causou vários problemas com muitos internautas. Alguns, jocosamente, quando preveem alguma reação do "professor" Raggi, anunciam "Xi, lá vem o 'professor'...". Mas, nos últimos meses, havia amaciado seu discurso, forçadamente favorável a Dilma Rousseff e ao governo Lula, tendo se "irritado" quando alguém chamou os ministros de Lula de "vigaristas".

Fazendo jogo duplo na Internet, Eugênio Arantes Raggi tem perfil no GMail, Facebook e Twitter. No Twitter, estranhamente seu perfil é uma página em branco, para alguém que escreve textos nervosamente longos e reacionários, como se fosse um Diogo Mainardi pensando ser Mário de Andrade.

Raggi está inscrito no portal de Luís Nassif, apesar da defesa arrogante do brega-popularesco pelo professor mineiro destoe do gosto musical do jornalista, inclinado à mais genuína MPB. Também envia comentários no blog Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim, que, como Nassif e os petistas em geral, é alvo da mais pura bajulação de Raggi.

Em contrapartida, Raggi também é inscrito num fórum do portal Globo Esporte e já havia feito elogios rasgados à CBN. Usa os portais da Globo, aparentemente, para falar de futebol. No Twitter, porém, deixou um recado suspeito quando alguém falou mal da mídia golpista. Em suma, o que ele quis dizer foi: "Não fale mal da mídia, ela é desprezível". Na verdade, a exemplo do Cabo Anselmo de outrora, ele estava defendendo a mídia golpista que tanto diz odiar no discurso.

Um reacionário como esse, de textos irritadiços e uma visão burguesa do que entende por "cultura popular", ávido para desqualificar o socialismo, os movimentos sociais, não poderia ser mesmo progressista.

Eugênio Raggi é mais cotado para ser o neocon de amanhã devido ao seu esquerdismo forçado, talvez movido porque possui protegidos trabalhando nas afiliadas do SBT e Record em Belo Horizonte ou porque seus amigos são ligados ao petismo. Mas nada impede que, dentro de cinco anos, ele esteja no Instituto Millenium abraçado feito irmão a José Serra, Marcelo Madureira e Diogo Mainardi, hoje seus "inimigos".

PAÇOCA DA IMPRENSA GOLPISTA

Outro que pode ser o neocon de amanhã é o jornalista Pedro Alexandre Sanches. Cria da Folha de São Paulo, ele reflete o perfil do crítico musical da mídia golpista. Escreveu para Ilustrada, mas também colaborou para as revistas Época, das Organizações Globo, e Bravo, da Editora Abril, fechando toda a sua formação no PiG. Mas foi só ele escrever livros sobre Tropicalismo e Roberto Carlos que virou o queridinho dos internautas.

Seu envolvimento aparente na mídia esquerdista se deu, muito provavelmente, porque ele é amigo ou protegido de algum dissidente da Folha de São Paulo que rompeu com o jornal paulista. No entanto, Pedro Sanches não parece inclinado com a causa esquerdista, como diz a metáfora, ele apenas "viaja de garoupa". Tem coluna fixa na Caros Amigos, intitulada "Paçoca", colabora na revista Fórum, colabora na Carta Capital, tem livro editado pela Boitempo. Mas nada consegue esconder o background direitista que Pedro Sanches possui e cujo aparente rompimento nunca foi provado nem provável.

Um dos textos escritos por Pedro Sanches dá uma amostra de que seu suposto esquerdismo é de fachada. Quando escreveu o texto Música que as Crianças Ouvem, para Caros Amigos, em certa passagem Pedro Sanches fala dos militantes da MPB de esquerda como se não fosse a causa dele, num distanciamento muito estranho para quem ainda quer continuar escrevendo (até quando?) para a mídia esquerdista.

A própria defesa do brega-popularesco, numa clara identificação com os "sucessos do povão" que aparecem na mídia golpista - Domingão do Faustão, Caldeirão do Huck, Mais Você e Fantástico (Rede Globo), revistas Contigo, Tititi e Caras (Editora Abril) e na própria Ilustrada (Folha de São Paulo) - , faz Pedro Alexandre Sanches fazer o jogo com a camisa adversária, dando gols contra que animam uma plateia desinformada com o lado da trave, sem saber o quanto Otávio Frias Filho está feliz com as atividades do seu ex-contratado mas sempre seu discípulo.

Sem falar que Pedro Alexandre Sanches adota um discurso pró-brega que lembra muito o que Caetano Veloso fez, pioneiramente, em outros tempos. Veja no que deu: Caetano foi para o lado dos tucanos, deixando a "esquerda festiva" (espécie de pré-vestibular dos neocons) órfã.

É SÓ AVANÇAR O PROGRESSO SOCIAL QUE OS NEOCONS APARECEM

Na Internet, eu havia previsto o direitismo latente de vários pretensos esquerdistas, em mais de um ano do blog O Kylocyclo. Até agora ninguém reagiu contestando a aqcusação de direitismo. Pelo contrário, tudo deixa subentendido que, se um dia a direita se mostrar uma opção ideológica mais atraente, eles aderem numa boa.

O estranho esquerdismo dos futuros neocons se dá porque eles se envolvem com colegas de trabalho, parentes etc que de fato se identificam com a causa esquerdistas. O pseudo-esquerdista vai junto, mas sem a mesma convicção. Mas faz seu teatrinho, num meio-termo entre o esquerdismo-depois-abandonado de José Serra e o falso esquerdismo de Cabo Anselmo.

O pseudo-esquerdista acha bonito vestir de vermelho, idolatrar Che Guevara, defender a "justiça social". Em certos casos, ele é "esquerdista" só porque acha isso bonito, mas não tem conhecimento de causa. Em outros casos, é um oportunista mesmo, se seu amigo de infância e colega de trabalho vai (este com convicção e conhecimento de causa), o pseudo-esquerdista vai por puro parasitismo. Obtidas as vantagens, ele dá o bote e volta para a direita, que o recebe como um filho pródigo do neoliberalismo.

No começo da Era Lula, era fácil posar de esquerdista. Virou moda, até a mídia golpista armou trégua. Muito jovem burguesinho neoliberal, achando que parecer surfista era o mesmo que parecer um militante socialista, bancou o esquerdista de foice oca.

A mídia grande anunciava que o governo Lula - num esforço de transição - manteria algumas medidas do antecessor governo FHC e todo mundo ficou feliz, vestindo a camiseta com foto de Che Guevara, mas lendo livros de Roberto Campos escondidos por detrás de um exemplar de Carta Capital.

Mas, na medida em que o progresso do governo Lula começou a fazer diferença, com medidas reformistas que valorizaram a economia nacional e começaram a reduzir as desigualdades sociais, a festa pseudo-esquerdista começou a se esvaziar, com a conversão dos socialistas de araque em neocons de carteirinha.

A tendência poderá aumentar, já que Dilma Rousseff não encontrará um cenário como o de FHC, mas uma economia consolidada por Lula. A expectativa é de que o governo Dilma se torne ainda mais audacioso, até pelo perfil enérgico da presidente, que pode fazer diferença até mesmo ao cordial Lula.

Tornando-se mais ousado, o governo Dilma poderá dissolver cada vez mais as hordas pseudo-esquerdistas, que, desiludidas ou malogradas, migrarão para as fileiras direitistas a princípio de forma discreta, mas depois convertidos de forma explícita para o neoliberalismo que, no fundo, sempre defenderam, mas que momentaneamente fingiram desprezar, em nome das vantagens pessoais.

Isso porque os futuros progressos sociais poderão se confrontar com os privilégios pessoais dos esquerdistas de fachada, que, ameaçados, passarão para a direita imediatamente.

É esperar para ver. A gente vai ver os futuros neocons na Internet, dando palestras para o Instituto Millenium, daqui a cinco anos.

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