segunda-feira, 1 de novembro de 2010

BUSOLOGIA DE DIREITA



Direita política não significa separar procedimentos neolierais políticos com procedimentos neoliberais que "não tem a ver com política" e "estão acima das ideologias".

Isso porque, se, nos anos de crise de João Goulart, todas as facções da sociedade organizada de direita se reuniram para pedir o golpe militar e a ditadura, em 1964, não faz sentido ver "progressismo" em procedimentos neoliberais que vão além do campo estritamente político.

Pois existem procedimentos neoliberais aplicados à cultura, à busologia, como existem à Educação e Saúde, à religião, e mesmo existem mulheres, estudantes e operários de causa direitista, como provaram as inúmeras instituições que se manifestaram contra Jango em 1964.

Atualmente, há um esconde-esconde político, ideológico e midiático que faz com que antigas crias da direita, ou mesmo do PiG, se infiltrem na causa progressista por conta de posturas "imparciais" que seduzem a sociedade.

Na busologia, pelo menos duas figuras que estão por trás do processo de "curitibanização", a ser oficialmente implantada no transporte coletivo do município do Rio de Janeiro no próximo dia 06, possuem um passado político ligado às forças retrógradas, e, mesmo hoje acampados em partidos da base aliada ao PT, adotam medidas anti-populares como se ainda estivessem ligados à dupla PSDB/DEM.

Um deles é Jaime Lerner, o "pai da curitibanização do transporte coletivo", porque ele lançou esse modelo de cunho tecnocrático quando era prefeito (biônico, ou seja, nomeado pela ditadura militar) de Curitiba. Outro é Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro.

Ambos possuem um background político calcado na direita mais reacionária. Jaime Lerner estudou na UFPR quando a reitoria era comandada pelo ultraconservador Flávio Suplicy de Lacerda, mais tarde ministro do governo Castelo Branco. Foi o ex-reitor da UFPR que promoveu medidas como reduzir o ensino superior a objetivos tecnocráticos, extinguir o movimento estudantil com uma "entidade" ligada ao governo militar e privatização das universidades federais. Foi isso que acendeu a histórica revolta estudantil que atingiu o Brasil.

Lerner, além disso, foi originalmente ligado à ARENA (Aliança Renovadora Nacional), quando implantou o sistema de transporte coletivo em Curitiba, mas hoje vigente também em São Paulo, Belo Horizonte, Fortaleza, Goiânia e, daqui a alguns dias, no Rio de Janeiro. Pouco importa se ele passou pelo PDT ou hoje está no PSB, seu perfil direitista continua intato como se ele ainda fosse do DEM.

Eduardo Paes começou sua carreira através do direitista César Maia - ex-comunista acomodado há muito pelo PFL/DEM - , seu padrinho político. Era do partido-parceiro do DEM, o PSDB. Por divergências político-pessoais, deixou o PSDB para ir ao PMDB, sob a proteção de outro político, o governador reeleito Sérgio Cabral Filho.

Se percebermos também outros casos envolvendo busologia e direita política, veremos que a direita busóloga se apoia nos seguintes procedimentos e medidas, geralmente paliativos, sensacionalistas e pretensamente futuristas, relacionadas ao transporte coletivo. As principais delas:

1) Padronização visual dos ônibus - A identidade visual não é mais da empresa de ônibus, mas da "empresa" ligada à prefeitura ou a um departamento de transportes ligado a regiões metropolitanas. A padronização visual é uma linguagem, camuflando a empresa que opera cada linha, expressando o poder concentrado das Secretarias ou Departamentos muncipais ou metropolitanos de transporte.

2) Redução de frotas dos ônibus - Por incrível que pareça, se muitos passageiros se irritam esperando mais de quinze minutos por um ônibus, isso é proposital. Essa medida é feita e defendida por tecnocratas de ônibus, sob o pretexto de que os ônibus seriam mais rápidos.

3) Sistema de "pool" - Com ou sem padronização visual, a medida é defendida por tecnocrats do transporte, a pretexto de "resolver" o suposto mau serviço de uma linha com a intervenção de uma ou mais empresas junto à titular. É uma das grandes inutilidades do sistema de ônibus, que atendem, no fundo, interesses político-empresariais.

4) Demora na renovação das frotas - As frotas de ônibus, nessa perspectiva, supostamente se renovam de seis em seis anos, mas geralmente as autoridades anunciam a metade do tempo que de fato duram os ônibus. As renovações de frotas são sempre adiadas, porque os ônibus são comprados em grande quantidade de uma só vez, para dar sensacionalismo e fazer propaganda política. E, mesmo assim, dá em malogro, porque não obstante anunciam-se uma compra enorme de carros, prometidas para um ano, mas que são realizadas num prazo de até três anos.

5) Supervalorização de pistas exclusivas e ônibus articulados - A medida, em si, nada tem de errado, mas a supervalorização da mesma dá um tom sensacionalista para o transporte coletivo, além de ameaçar o interesse público, como na desapropriação de casas para construção de vias exclusivas. Os ônibus articulados, por sua vez, podem vir a ser um fiasco, quando usados em excesso, porque podem circular vazios e causar prejuízo às empresas.

6) Concentração de poder das Secretarias e Departamentos de Transporte - Exemplos: SPTrans, BHTrans. Uma medida pseudo-esquerdista, porque aparentemente exprime o poder do Estado, na verdade segue a lógica neoliberal, porque quem paga a conta são os empresários de ônibus. Só revela um uso desnecessário do poder estatal no controle do sistema de ônibus, o que cria um grande equívoco. Afinal, o Estado não pode ser anoréxico, mas também não pode ser um Estado gigantesco. O Estado deve controlar o transporte coletivo apenas na condição de concessionário de serviços e fiscalizador, mas nunca o controlador direto de linhas, sob o sustento e o auxílio técnico dos empresários de ônibus.

Essas medidas, de um modo ou de outro, expressam os interesses neoliberais aplicados ao sistema de ônibus. São medidas defendidas por grupos políticos oriundos da direita conservadora, a partir do caso de Jaime Lerner enquanto político da ARENA.

Portanto, tais medidas não são de modo algum progressistas - no sentido atual do termo, que envolve o interesse público - , mas puramente tecnocráticas.

É bom botar todos os pingos nos "is" da direita, senão certos "is" parecerão "l".

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