quarta-feira, 24 de novembro de 2010

AS CAMISAS-DE-FORÇA DA INTELECTUALIDADE PRÓ-BREGA



Por Alexandre Figueiredo

Ver a intelectualidade dita "progressista" e, em tese, alinhada aos movimentos sociais, defender, no âmbito cultural, referências de entretenimento e música que estão associadas à mídia golpista e a mídia-jagunça (a imprensa populista, o jornalismo sensacionalista), é algo completamente estranho.

Críticos musicais, blogueiros e cientistas sociais que deveriam zelar pela verdadeira cultura em detrimento do comercialismo deturpador e apátrida, responsável pela domesticação do povo pobre, fazem o contrário, a pretexto de "apoiarem" a "genuína expressão das periferias".

Mesmo se passando por progressistas e escrevendo até para a imprensa esquerdista - que, sem qualquer desconfiança, aceita os artigos contaminados de visão neoliberal por demais carregada até mesmo para critérios editoriais flexíveis - , essa intelectualidade, em vez de problematizar a crise de valores culturais no Brasil, manifesta por referenciais de entretenimento e música que, no passado, foram patrocinados por elites que respaldavam a direita política então no poder, a confirma, deixando felizes os executivos da mídia golpista, que continuarão movendo o mercado popularesco sustentado desde a ditadura e cujo auge se deu nos anos de FHC.

Por que essa intelectualidade se comporta assim? Por que antropólogos e sociólogos, quando analisam a cultura brasileira, se recusam a contestar a cafonice dominante, preferindo arrumar desculpas para legitimá-la? Por que pessoas tão identificadas, no plano político e econômico, com os movimentos sociais, decepcionam tanto quando falam de cultura, como se o folclore brasileiro estivesse nos "sucessos" que aparecem no Domingão do Faustão?

Por outro lado, o que fazem defensores da "cultura" brega-popularesca na sua obsessão forçada em repudiar, no discurso, a grande mídia? Na Internet, um professor como o mineiro Eugênio Arantes Raggi mais parece uma resposta vejista - da revista Veja - ao José Ramos Tinhorão, com seu reacionarismo que causou problemas com vários internautas (inclusive este que lhes escreve), no entanto adota posturas forçadas e de muita falsidade contra a mídia golpista e a favor da política progressista, num discurso que mais parece um Cabo Anselmo metido a crítico cultural.

TROPICALISMO TUCANO - Outro caso a pensar: o que faz Pedro Alexandre Sanches nas páginas das revistas Fórum e Caros Amigos, se os textos que ele, cria da Folha de São Paulo, escreve, mais parecem dignos de um tropicalista tucano?

Afinal, não fosse Caetano Veloso (convertido para o demotucanato), a partir de um dueto com Odair José em 1973, experimentasse sua tese de vender o brega-popularesco como uma suposta "vanguarda", não teríamos Pedro Alexandre Sanches fazendo pregações como se tivesse a vã esperança de ver os protegidos da Rede Globo Alexandre Pires, Fábio Jr., Calcinha Preta e Parangolé sob o rótulo de "vanguardistas".

Caetano levou junto o concretista Ferreira Gullar, a engajada Soninha, os comediantes do Casseta & Planeta, o jornalista Fernando Gabeira, para o respaldo intelectual a José Serra, que foi ministro de FHC quando o brega-popularesco que hoje vende a falsa imagem de "verdadeiro folclore brasileiro" estava no auge. Caetano deixou na mão toda uma geração de intelectuais que nele se inspiraram para defender o brega-popularesco, mesmo dentro de um verniz "de esquerda".

AS CAMISAS-DE-FORÇA: JABACULÊ, CLIENTELISMO, BUROCRACIA

O que faz essa intelectualidade defender os chamados "sucessos do povão", em vez de zelar pela mais autêntica cultura popular, só pode ser justificado pelo tendenciosismo e pelas manobras de bastidor que existem por trás, seja envolvendo o jabaculê, a chamada corrupção por trás da mídia, seja o clientelismo com as elites que sustentam esses "sucessos", seja a burocracia intelectual que atrofia o senso crítico.

Lendo o livro O Que É Método Paulo Freire, de Carlos Rodrigues Brandão (Brasiliense, 1981), numa dada passagem o autor explica que Paulo Freire, através de seu método, estabelecia a diferença entre popular e popularizado.

O que etá aí nas rádios FM, na TV aberta, na imprensa populista, assim como nas micaretas, vaquejadas, galpões e "bailes funk", não é, de fato, cultura popular. É tão somente uma "cultura de massa" que lota plateias, que faz a mídia emplacar. Mercadologicamente, é uma beleza, move fortunas e lota plateias com a maior velocidade.

Mas, como cultura, no seu sentido genuíno de produção e transmissão de conhecimentos e valores sociais, são um grande desastre. Até porque seus ídolos, ao atingir 20 anos de carreira, ainda se comportam como se estivessem aprendendo música pela primeira vez, gravando tendenciosamente covers de MPB autêntica (os mais inofensivos, aliás; qual ídolo de sambrega irá gravar canções como a contundente "Apesar de Você", de Chico Buarque?).

A defesa dos ídolos brega-popularescos, em textos muito confusos, apelativos, sentimentalóides, cheios de desculpas esfarrapadas, alusões surreais (como dizer que o tecnobrega se inspirou na antropofagia modernista; se deixarmos, vão dizer até que o cantor Wando lutou na Revolução Cubana), que destoam completamente da sobriedade e da coerência intelectual de suas profissões.

Certamente Guy Debord, se vivo estivesse, ele que foi um dos críticos ferozes da indústria do espetáculo, estaria envergonhado com nossos intelectuais. Analistas norte-americanos como Robert Merton, David Riesman e outros, além dos professores alemães da Escola de Frankfurt, como Theodore Adorno e Max Horkheimer, também estariam vermelhos de vergonha por causa da acrítica intelectualidade brasileira.

O que faz a intelectualidade se comportar assim?

O jornalista Régis Tadeu, que tão corajosamente criticou a funqueira Tati Quebra-Barraco, já denunciou o esquema de "panelinha" existente na crítica musical.

Se essa "panelinha" se deu até na melhor fase da revista Bizz, por causa da influência dos jornalistas-músicos, imagine então no mercado hoje, seja com Álvaro Pereira Jr., Pedro Alexandre Sanches, etc?

"Panelinha" é um termo que define um grupo de pessoas de uma mesma causa ou profissão que luta apenas por seus interesses. Fazem uma estratégia de mobilização uniforme, visando salvaguardar seus privilégios. São capazes de criar pseudônimos para "multiplicar", pela Internet, as vozes em defesa de seus benefícios "extraordinários", fazendo com que uma mesma pessoa apareça com dez diferentes nicks (nick quer dizer "codinome", na linguagem da Internet) num mesmo fórum virtual.

Através dessas manobras, a "panelinha" intelectual brasileira põe a vida intelectual nas camisas-de-força do tendenciosismo do jabaculê, do clientelismo, da burocracia e do corporativismo.

ETNOGRAFIA DE BOTEQUIM - Pois a "panelinha" de cientistas sociais, críticos musicais e blogueiros que, mesmo com um discurso ao mesmo tempo "militante" e "intelectual", fazem apenas reafirmar o mercadão milionário do brega-popularesco, com sua música ao mesmo tempo estereotipada e apátrida, com seus valores "sociais" duvidosos, com seus ídolos caricatos e com o público das classes pobres exposto a uma campanha midiática de domesticação.

O que faz a intelectualidade querer reafirmar esses "sucessos do povão" e todos os referenciais associados - imprensa populista, boazudas, jornalismo policialesco - , sob o pretexto de que "a maioria do povo gosta", é tão somente um esquema que envolve sobretudo corrupção e corporativismo.

Sim, isso mesmo. Pedro Alexandre Sanches, Rodrigo Faour, Ronaldo Lemos e outros se envolvem num processo que envolve coleguismo, propina, entre outros interesses escusos. Tudo para manter a elite intelectualóide, de jornalistas e cientistas sociais, no poder da manipulação da opinião pública, numa manobra traiçoeira que os permite, sem que qualquer um desconfie, defender os mesmos valores culturais da Folha de São Paulo nas páginas de Caros Amigos e Revista Fórum.

Algumas manobras podem ser identificadas:

1) EMPRESÁRIOS DO ENTRETENIMENTO POPULARESCO FINANCIAM INTELECTUALIDADE - O jabaculê do rádio FM, cada vez tocando menos música (é a Aemização a serviço de políticos, empreiteiros e dirigentes esportivos), cada vez mais dá lugar ao jabaculê intelectual. Hoje, em vez de dar aparelhos de fax para programadores de rádio, se dá passaporte de viagem para cientistas sociais e críticos musicais.

"Bota o nome de Alexandre Pires junto a Chico Science e Lenine na lista de inovadores culturais que eu lhe financio uma viagem para o Nordeste, com todas as despesas pagas". "Fala que o É O Tchan é um caleidoscópio multimídia tropico-modernista que eu lhe dou um apartamento no Jardim Europa e ainda lhe pago água, luz e Internet". São coisas assim que fazem com que o intelectual deixe de lado seu senso crítico e passe a defender o brega-popularesco com os mesmos clichês de "combater o preconceito", "exaltar as periferias" e outras expressões bonitas, mas com sentido deturpado.

2) ELOGIA O LIVRO DE FULANO QUE ELE ELOGIA VOCÊ NO SEU BLOG - Pedro Alexandre Sanches elogia o livro de Ronaldo Lemos. Que elogia o documentário de Denise Garcia. Que elogia o livro de Hermano Vianna. Que gostou do livro de Paulo César Araújo. Que aprovou o documentário de Patrícia Pillar.

Enfim, a "panelinha" está no fogo e batatas quentes estão assando. Mas como esse pessoal é badalado pela sociedade acadêmica, todos se sentem protegidos uns dos outros. Essa intelectualidade festiva não precisa de Caras, porque deve ter seus próprios redutos de narcisismo pessoal ou grupal. Trocas de favores mil. Fulano elogiando sicrano. Porque fulano quer entrar de graça no Teatro Municipal e fazer palestra na Unicamp. Porque sicrano quer concorrer ao prêmio tal de cinema por indicação de fulano e beltrano. Porque beltrano quer seduzir, se não a desconfiada intelectualidade européia, pelo menos DJs, críticos musicais e documentaristas menores e turistas estrangeiros.

3) SENSO CRÍTICO NÃO ENCHE BARRIGA - O que faz a intelectualidade brasileira ter um senso crítico limitado, em relação à da Europa e dos EUA, é um certo atrelamento ao rigor academicista e à política de verbas e relações com autoridades.

Num mercado acadêmico instável, e tomado por vaidades políticas e pelo corporativismo, ter senso crítico é perigoso, transforma o intelectual num ser anti-social e desprezível. Por isso, prefere-se a produção de textos que apenas reproduzam a estrutura discursiva das monografias, ou, quando muito, se macaqueia os discursos dos intelectuais polêmicos - como Jean Baudrillard e Merleau-Ponty, por exemplo - num discurso cheio de clichês semiológicos, como se empurrasse o senso crítico para o final do texto, ou talvez para fora dele.

Daí que um ensaio cheio de bobagens como "Esses Pagodes Impertinentes...", do sociólogo baiano Milton Moura (pura propaganda delirante do "pagodão" pós-Tchan) pode ser publicado numa revista acadêmica como a Textos em Comunicação da UFBA.

Juntando o corporativismo coleguista (Moura é professor universitário), o jabaculê (Moura defende sucessos musicais da grande mídia e sua visibilidade o faz aparecer até no jornal local A Tarde) e a "paz" acadêmica (seu artigo não causa incômodo no status quo acadêmico), o texto de Moura é publicado e festejado pelos seus amiguinhos.

Dessa maneira, a intelectualidade vive a camisa-de-força de seus próprios interesses. Seus artigos apelativos, em diversas nuances discursivas, da ironia às alusões surreais (até agora eu não vi qualquer alusão à Semana de 1922 no "funk carioca", por exemplo), em nada contribuem para a defesa da verdadeira cultura popular.

É tudo propaganda, travestida de "manifestos intelectuais". Só serve para prolongar modismos. E não impedirá que os terríveis CDs de música brega-popularesca sejam condenados a morrerem nos saldos de lojas de sebos em falência nas grandes capitais.

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