quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O MEDO DA EXPLOSÃO DE UMA REVOLTA POPULAR



Por que a defesa tão convicta de intelectuais às tendências caricatas, apátridas e domesticadas da "cultura" brega-popularesca?

Por que essa verdadeira cosmética da fome, que envolve até mesmo a suposta "militância" do "funk carioca" e do tecnobrega, não é contestada totalmente pela nossa intelligentzia?

É porque até eles estão com medo.

Medo de uma revolta popular sem precedentes acontecer no país.

Medo de várias revoltas, como as do tempo do Império, eclodirem nas várias partes do Brasil.

Por isso revolta boa, para essa intelectualidade, é só aquela ocorrida à distância, seja nos Andes ou em Israel, seja na Indonésia ou em Davos.

Embora a revolta popular, no Brasil, possa ser canalizada pela lei e pela representatividade parlamentar, o povo tem que ficar quieto no seu "rebolation", "pancadão" e "tecnomelody".

O povo pobre que vá se divertir na micareta, nas vaquejadas, no "baile funk", nas "aparelhagens", ou até mesmo na "plateia global" do Domingão do Faustão.

O povo não se manifeste. Espere os outros fazerem por eles.

O povo vá ler imprensa populista, ver telejornais policialescos, cultuar popozudas, se ocupar no futebol.

E, quando fizer música, que não faça mais sambas autênticos nem baiões de verdade, nem qualquer outro ritmo de raiz nacional.

A antiga música popular está trancafiada nos museus, por conta da burocracia intelectualóide.

Pode deixar que o antropólogo de plantão, o sociólogo de temporada, o crítico musical da hora, vão dizer, das quatro paredes de seus condomínios, o que deve ser a cultura do povo pobre.

Veem a periferia nos documentários da TV paga, associam com os movimentos étnicos que viram em suas viagens em Londres e Nova York, e traçam sua visão de "cultura popular" a partir disso.

O povo é proibido de se manifestar.

Só pode se manifestar remexendo o traseirinho, rindo feito idiota.

O povo é proibido de fazer música de qualidade.

Só pode fazer música ruim, e, só depois de se enriquecer com tantas porcarias gravadas, é que ele terá algum lugarzinho no quarto de empregada dos medalhões da MPB.

A intelectualidade etnocêntrica acha que o povo é meio criança, meio animal selvagem.

Acham que o povo não está maduro para se expressar por si só.

Ou que o povo é selvagem demais para se expressar dentro das normas de civilidade.

A intelectualidade medrosa faz jogo de cena.

A intelectualidade medrosa tenta esconder seus preconceitos.

E prefere acusar os outros de preconceituosos.

Mas é essa intelectualidade que, preconceituosa, quer calar o povo.

E quer que que as manifestações sócio-políticas se restrinjam à política partidária no Legislativo.

A representatividade política, em si, não é errada. O errado é limitar o processo de lutas populares à atuação dos parlamentares.

Mas a intelectualidade, medrosa, quer que se limite a isso.

Tem medo de que exploda uma nova insurreição popular que tire o sono dos condôminos dos Jardins, do Morumbi, do Leblon e da Barra da Tijuca.

A intelectualidade etnocêntrica teme o povo culturalmente forte, não com seu pancadãozinho nem com seu tecnobreguinha aceito por cientistas sociais, mas com tambores, violas, sanfonas e outros instrumentos, com melodias e ritmos de verdade.

Teme que o povo, desse modo, também possa reivindicar mais coisas, mobilizar-se com mais força.

Aí a intelectualidade medrosa solta o alarme: deixa o povo com seu tecnobrega, seu "pancadão", seu "rebolation". "A maioria gosta", "É melhor assim", dizem, apavorados.

Afinal, isso movimenta um mercado já estabilizado. E a intelectualidade têm que fazer média com porteiros, faxineiros e empregadas.

Qualquer crítica e a plebe invade universidades, condomínios, bares e fecha avenidas, ruas, coloca barricadas, paralisa rodovias.

Mas, assim, a "maravilhosa" intelectualidade etnocêntrica, com seus totens vivos perambulando as cátedras acadêmicas ou bancadas de seminários, mostra seus preconceitos elitistas.

Sim, logo eles que se julgam "sem preconceitos", são os que mais têm preconceitos.

Mas Millôr Fernandes não é ouvido. Ele escreve para Veja. E é irmão de Hélio Fernandes, que herdou a Tribuna da Imprensa das mãos do temível Carlos Lacerda.

O ceticismo de Millôr com essa ideia de "preconceitos" e "sem preconceitos" o pôs à margem.

Legal é creditar o "rebolation" e o "tchan" como se fossem caleidoscópios concretisto-tropicalista-performático-bolivarianos.

Legal é fechar nossos olhos quando os tecnobregas aparecem felizes no Domingão do Faustão.

Legal é achar que os domesticados ídolos popularescos, expressão do mito da "periferia feliz", são audazes revoltosos das classes populares.

Afinal, lembremos, manifestações populares mesmo só "são boas" lá longe, na Cordilheira dos Andes, no Haiti, no Oriente Médio, África e outras plagas.

No Brasil, deixemos que o povo pobre só se manifeste rebolando, fazendo música ruim e rindo que nem pangaré em surtos histéricos.

Para o bem da manutenção das elites etnocêntricas.

Para o bem da burocracia político-partidária.

Para o bem do mercado e do circo midiático.

O povo continua sofrendo, mas prevalece a "paz sem voz" que a ninguém assusta. Mas que continua incomodando muita gente. Exceto as elites e a intelectualidade dona da visibilidade.

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