sexta-feira, 15 de outubro de 2010

MÚSICA BREGA NADA TEM DE BRASILIDADE


PARÓDIA ILUSTRATIVA - A música brega dos anos 60-70 se baseou nas ideias do economista Roberto Campos adaptadas à música brasileira.

A música brega nunca expressou uma verdadeira brasilidade. A intelectualidade etnocêntrica é que enrola, procurando cabelo em ovo, dizendo que há uma brasilidade "oculta" através da suposta recriação pelo povo pobre de diversos referenciais externos assimilados dos meios de comunicação.

A ideologia brega nunca esboçou qualquer identidade nacional. Seja pelo cenário ideológico social - o subemprego, a prostituição, o alcoolismo, a miséria irresolúvel - , seja pela caraterística de sua música, a ideologia brega, a princípio denominada tão somente cafona, apenas expressava a aliança do coronelismo com o neoliberalismo, na medida em que se consistia em uma releitura subordinada de referenciais estrangeiros, difundidos pela mídia controlada por oligarquias dominantes.

Musicalmente, os primeiros ídolos cafonas, como Waldick Soriano, Nelson Ned e outros, tão somente juntavam referenciais da música romântica italiana, dos boleros orquestrados e da música orquestrada "ligeira" (tipo Mantovani), além dos sucessos românticos dos EUA, e faziam uma música com vocal esganiçado ou afetado.

Nenhuma identidade regional. Mesmo as antigas serestas, suposta fonte de inspiração dos primeiros cantores cafonas, só aparecem por imitação. Além disso, os primórdios da música brega não são mais do que caricatura dos antigos seresteiros, e é desprovida de conhecimentos musicais que os cantores de seresta do passado (como Nelson Gonçalves, Lupicínio Rodrigues e mesmo o controverso Vicente Celestino) possuíam.

Os antigos seresteiros entendiam de ópera, ou então de chorinho, moda de viola, tinham um grande conhecimento musical e um valor artístico reconhecido, embora várias de suas canções hoje pareçam um tanto datadas.

Já os cantores bregas só têm "conhecimentos" a partir do consumo de músicas no rádio. Mas não é uma vivência artístico-cultural, é apenas um consumo, mesmo. Da mesma forma que alguém que, só por ver muito os telejornais, nem por isso se torna um cientista político.

Por isso não há chorinhos, nem modinhas, nem cateretês, nem qualquer outra referência puramente brasileira. Nem mesmo os cenários, pois tudo é, tão negativamente padronizado, nos botecos, no comércio clandestino, nos prostíbulos, sempre numa arquitetura decadente, indicam alguma regionalidade.

Pelo contrário, não se pode confundir a ideia de "matuto" ou "antigo" como se fosse regionalidade. E a ideologia brega é, evidentemente, a visão de "cultura popular" determinada pelas oligarquias, e tal constatação, apesar de explícita, ainda não é compreendida pela maior parte das pessoas.

A ideologia brega tem exata correspondência para a cultura brasileira assim como o projeto de Roberto Campos, quando ministro do general Castelo Branco, para a economia brasileira.

Roberto Campos queria que o Brasil se desenvolvesse de forma subordinada aos países mais ricos, e seu plano econômico previa um austero arrocho salarial, além da industrialização incrementada com tecnologia obsoleta. Ou seja, indústria desenvolvida com os restos do que as empresas estrangeiras não usam mais em suas matrizes.

A música brega segue justamente essa lógica. Ao arrocho salarial, corresponde-se a mediocridade artística, os vocais sofríveis ou afetados, a música piegas e malfeita. A realidade econômica excludente liga as duas abordagens. E a assimilação de tendências musicais estrangeiras consideradas ultrapassadas ou piegas é a exata tradução musical da tecnologia obsoleta adotada pela industrialização do plano econômico da ditadura militar.

Por isso mesmo não faz sentido dizer que a música brega foi contra a ditadura militar porque ela segue exatamente seus princípios. E, além disso, NENHUM ídolo da música brega apareceu, nos anos 80, para defender a redemocratização do Brasil.

Um comentário:

  1. Ah, ah, faltou o 'Fuscão Preto à alcool'...Bob Fields. O brega é arrogante, pois tem a pretensão de ser um reflexo da 'não-elite' mas é manipulada por ela (e também por serem seus representantes subservientes às elites). Bem feita esta análise, os protobregas sempre evocaram Silvio Caldas, Francisco Alves,etc, mas sempre como cópias mediocres. Há tempos atrás a Carta Capital fez uma reportagem com Odair José, grande ícone brega. Mas ali houve a revelação de um lado não tão conhecido de todos - fez show com Caetano e foi experimental e até censurado algumas vezes. É um caso interessante, pois está sendo festejado por Zeca Baleiro e alguns outros da MPB, talvez destoe deste grupo 'seleto' de Nelsons Neds, Waldicks, Rossis.

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