sexta-feira, 15 de outubro de 2010

DEFENDER A MÚSICA BREGA-POPULARESCA É DEFENDER O NEOLIBERALISMO


FUNK CARIOCA E TECNOBREGA - Apologia da intelectualidade esquerdista só serve para realimentar o sucesso na mídia golpista.

Algo está muito estranho. Há muito tempo, a música de excelente qualidade produzida pela gente dos morros, favelas e sertões, com sua sabedoria, sua produção de conhecimento e sua transmissão de valores sociais relevantes, próprios de seu povo, cedeu lugar a uma série de sub-estilos estereotipados, caricatos, apátridas, de cunho meramente comercial e que, não obstante, é tutelado pelo empresariado regional ligado ao entretenimento, ao latifúndio e ao comércio varejista e atacadista regionais.

Esta é a música brega-popularesca, que começou da canção piegas e datada de Waldick Soriano e similares, seguido de Odair José e outros e que, simulando uma brasilidade caricata no auge da ditadura militar, deu origem a uma série de tendências contemporâneas que apostam na domesticação do povo pobre.

As tendências são bem conhecidas: a dita "música sertaneja" (breganejo), o dito "pagode romântico" (ou sambrega, ou "pagode mauricinho"), o "funk carioca", o forró-brega, a axé-music, a lambada, e, mais recentemente, tendências derivadas como o arrocha, o tecnobrega, a tchê-music, entre outros.

Infelizmente nem todos compreendem o caráter superficial e alienante dessas tendências. Pelo contrário, uma elite de intelectuais que domina as burocracias acadêmicas e estabelece tráfico de influência na imprensa em geral, propaga uma tese, tanto discutível quanto tendenciosa, de que a música brega-popularesca é a "verdadeira música popular".

Com argumentações confusas, delirantes e preconceituosas - apesar de ser até lugar-comum eles acusarem os outros, que não compartilham com suas teses, de "preconceituosos" - , que variam em justificar a validade da música brega-popularesca pela popularização fácil, pela suposta associação ao povo das periferias e criando até bodes expiatórios (que variam desde o antigo ritmo paraense carimbó à música de Lupicínio Rodrigues, erroneamente acusados de fonte da cafonice contemporânea), essa intelectualidade determina a visão oficial relacionada à cultura popular, que no entanto é bastante duvidosa.

Essa visão mostra muitas falhas. A primeira delas é o julgamento etnocêntrico, que observamos em abordagens como a de Pedro Alexandre Sanches e Hermano Vianna. Formados numa geração de críticos (Hermano também é antropólogo) especializados na música estrangeira, como o rock britânico e o reggae, a intervenção deles na análise da cultura brasileira, embora pareça bem intencionada à primeira vista, é cheia de preconceitos etnocêntricos.

Eles julgam a cultura popularesca atribuindo ao povo pobre uma sabedoria que ele não tem. Criam uma visão "bacana" da pobreza, se tornando propagandistas de um "orgulho de ser pobre", de um ufanismo das periferias que nada resolve quanto aos problemas que o povo pobre vive.

Pelo contrário, eles maquiam a ignorância consequente de problemas como a exclusão sócio-econômica e o déficit educacional histórico (sobretudo o analfabetismo) atribuindo referenciais que não existem na suposta expressão musical do povo pobre.

Seria por demais longo dizer todos os preconceitos e julgamentos etnocêntricos, mas esse preconceito etnocêntrico se apresenta em dois exemplos principais, sobretudo no "funk carioca" e no tecnobrega, estilos que se tornaram as maiores cobaias dessa discurseria intelectualóide:

1) ASSOCIAÇÃO DA PERIFERIA A REFERENCIAIS QUE SÓ A INTELECTUALIDADE CONHECE - Os intelectuais julgam a "expressão musical das periferias" a partir de referenciais que o povo pobre desconhece, mas é a ele atribuído. No caso do "funk carioca", o julgamento se deu numa retórica sofisticada que dissimulou, durante anos, a mediocridade do estilo, desprovido de melodias e de qualquer qualidade musical. Vieram comparações tendenciosas e surreais (ou irreais), que tentaram vincular o ritmo a movimentos tão dispersos como o Tropicalismo, o punk rock e a revolta de Canudos. Recentemente, o tecnobrega foi erroneamente atribuído à teoria antropofágica de Oswald de Andrade, escritor modernista que 99,99% dos envolvidos com tecnobrega não têm a menor ideia de quem seja.

2) ATRIBUIÇÃO DO CONSUMO DO ENTRETENIMENTO COMO SE FOSSE UM SUPOSTO ATIVISMO SÓCIO-CULTURAL - Os intelectuais tentam creditar a passiva atitude dos jovens irem aos clubes noturnos da periferia, ou o mero hábito de camelôs ligarem o rádio, a um suposto "ativisimo sócio-cultural" relacionado aos ritmos popularescos "regionais". A tendenciosa atribuição ainda se estende à falsa ideia de "expressão natural das periferias", quando sabemos que muitos dos ídolos brega-popularescos são tutelados pelos empresários e, musicalmente, são moldados de forma tendenciosa conforme o jogo de interesses.

Sua música já é medíocre, não representando criatividade alguma. Os intérpretes demonstram não possuir uma postura crítica e analítica em relação ao mundo em que vivemos, se limitando a fazer declarações "positivas" e expressar uma suposta alegria. Há muita exploração por trás do entretenimento brega-popularesco, e mesmo o rico empresariado por trás as equipes de som do "funk", das "aparelhagens" do tecnobrega, dos proprietários do forró-brega ou do "pagodão baiano" (o de Parangolé e Psirico), não são reconhecidos como tais, como elites dominantes do mercado do entretenimento.

Esses estilos musicais não possuem uma brasilidade verdadeira, e isso nada tem de antropofágico. É só comparar o mangue bit de Recife com o tecnobrega.

O mangue bit, brilhantemente expresso pela Nação Zumbi, é repleto de elementos estrangeiros que vão do hip hop ao heavy metal, mas no seu som predominam os ritmos regionais.

No tecnobrega, pelo contrário, o que se vê são referenciais estrangeiros em supremacia, apenas pateticamente traduzidos num ritmo "regional" que nada tem de regional, porque sua herança vem do forró-brega (cuja ponte de ligação é a Banda Calypso), um engodo que mescla, de forma diluída, country music, ritmos caribenhos e disco music, sob o pretenso rótulo de "forró", cuja falta de regionalidade é tal que tanto faz ser do Pará como de Sergipe que é rigorosamente a mesma coisa.

MÍDIA GOLPISTA DEFENDE BREGA-POPULARESCO

É um grande erro que a mídia de esquerda adote uma postura de defesa das tendências brega-popularescas, a pretexto de apoiar a cultura da periferia, porque este discurso, além de expressar um violento contraste com a análise dos fatos políticos - vá comparar o tecnobrega com, por exemplo, o movimento dos índios mapuches, no Chile, e verá a gritante diferença - entra em perfeita concordância com o discurso que a mídia golpista já trabalha da forma mais explícita possível.

Isso porque a música brega-popularesca, no que diz à manipulação social do povo pobre, promovendo uma visão domesticada, caricata e apátrida, e no que diz às relações de trabalho entre seus cantores e grupos e o empresariado, é na verdade uma expressão das elites e oligarquias diversas que estão por trás do entretenimento musical que aparece nas rádios FM, elas mesmas controladas por grupos oligárquicos diversos, e na TV aberta, sobretudo a Rede Globo, a maior expressão da mídia golpista existente no Brasil.

Por isso, a música brega-popularesca, em nenhum momento, deve ser considerada "genuína expressão das periferias", porque, na verdade, se trata de um meio lúdico-musical promovido por oligarquias regionais e pelos empresários do espetáculo, apenas recrutando pessoas oriundas das classes pobres para fazer o papel que o empresariado determina.

Por isso, fica estranho que uma abordagem supostamente esquerdista venha a defender a música brega-popularesca, esnobando até mesmo a ideia evidente de alienação, porque esse discurso de defesa em nada contribui para o reconhecimento da verdadeira cultura popular. Antes, e tão somente, esse discurso acaba, na verdade, apenas reciclando o mercado dos chamados "sucessos do povão", que, por debaixo dos panos, alimenta o poder da grande mídia, do latifúndio e das oligarquias e elites associadas.

Por isso essa visão, ora ingênua, ora tendenciosa, dessa intelectualidade, de cientistas sociais, jornalistas e blogueiros ditos progressistas em defender a música brega-popularesca, além de expressar seus preconceitos etnocêntricos que não enxergam as contradições sociais vivenciadas pelo povo pobre e nem os mecanismos de controle social pelo entretenimento da grande mídia, acabam produzindo um discurso que apenas reforça o poder da mídia golpista, da qual a música brega-popularesca é sua mais típica expressão de âmbito lúdico-musical.

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