sábado, 23 de outubro de 2010

CULTURA POPULAR E ABOLICIONISMO: O MESMO MEDO DA INTELECTUALIDADE



A intelectualidade etnocêntrica está com medo. Muito, muito medo.

Está com medo de que a volta dos áureos tempos da música de qualidade produzida pelas favelas, sertões e roças do nosso país tome conta da mídia e do gosto popular da maioria.

Está com medo de que, caso isso aconteça, o povo deixe de se comportar feito um consumidor passivo de referenciais da mídia e tenha uma visão ainda mais crítica da vida.

E, com isso, há o medo de que novas revoltas surjam.

Por isso, a intelectualidade se apressou em defender a "cultura" brega-popularesca como se ela fosse a "legítima cultura popular".

Criam um discurso confuso, mas persuasivo, que convence mais pela emoção do que pela (nenhuma) razão.

Deixe o povo sob controle, amestrado pela mesma grande mídia que essa intelectualidade tanto afirma odiar.

Movimentos sociais, para essa intelectualidade paternalista enrustida, só são bons longe do Brasil. Na Palestina, na Cordilheira dos Andes, no Haiti.

No Brasil, deixa o povo pensar que dançar o "rebolation" e o "créu" é "fazer movimentos sociais". E inventa que rejeitar essa ideia é ter "preconceito" contra o povo.

Mas esse temor não é de hoje.

No século XIX, não eram poucos que, no Primeiro Império, afirmavam defender os valores humanistas lançados pela Revolução Francesa, mas se recusavam a romper com a escravidão.

A desculpa era de que romper com o sistema escravagista era romper com a geração de riquezas para o nosso país.

Tratava-se um povo como o de ascendência ou procedência africanas como se fosse animal de carga e justificava-se isso tudo com os mais cínicos porém covardes preconceitos e pretextos da época.

Hoje a intelectualidade não quer romper com a escravidão cultural da mediocridade, da breguice que transforma o povo pobre numa multidão domesticada, caricatura de si mesma.

Embora justifiquem com as mais delirantes alegações "modernistas" ou coisa parecida, o temor segue, no fundo, a mesma paranóia dos defensores da escravatura.

A paranóia de romper com uma atividade geradora de riquezas, que é o mercado do entretenimento brega-popularesco.

Ou seja, quem está por trás daquilo que se pensa ser a "cultura popular atual", os empresários do entretenimento brega-popularesco, são os senhores de engenho modernos.

Aliás, os senhores de engenhos eram latifundiários, como são os fazendeiros que hoje patrocinam a dita "música sertaneja", o forró-calcinha, o tecnobrega e outros.

Portanto, é o medo de que determinadas elites poderosas percam dinheiro de repente que move a reação ao mesmo tempo medrosa e conivente da intelectualidade.

Só poucos correm contra a maré.

Porque esses poucos se comprometem com valores de cidadania que ainda não são devidamente compreendidos. Mas que prevalecerão por sua pertinência. E que defendem riquezas sociais muito maiores do que a fortuna dos "senhores" de escravos de outrora e dos donos da cafonice de hoje.

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