quarta-feira, 27 de outubro de 2010

"CÃES DE GUARDA" É UM LIVRO CORAJOSO CONTRA A MÍDIA GOLPISTA



Por Alexandre Figueiredo

Com a republicação de alguns tópicos antigos do blog Viomundo, Luiz Carlos Azenha nos brindou da relembrança desse livro que eu tenho no meu acervo, Cães de Guarda, de Beatriz Kushnir.

O livro fala de vários episódios envolvendo imprensa e ditadura, desde o caso de Henning Boilesen, empresário que colaborou com os torturadores, até comunistas arrependidos que apareciam na TV expressando seu remorso. A obra fala do lado oculto da imprensa nos anos de chumbo, com ênfase na virada dos anos 60 para os 70.

Desde que seus blogs foram atacados por um arquivo suspeito, Azenha e Rodrigo Vianna estão republicando seus artigos do ano passado, e Vianna veio com um texto de abril de 2009 sobre a parceria da Folha de São Paulo com a ditadura, com os torturadores e com o Grupo Ultra, que financiou as ações de tortura.

Cães de Guarda fala da imprensa golpista, por isso foi um livro difícil de encontrar. Lançado em 2002, tomei conhecimento do livro por volta de 2004, vi em livrarias de Salvador (Bahia), onde morava, mas depois o livro sumiu. Tive que comprá-lo pela Internet.

Naquela época o tabu em relação à grande imprensa era enorme. Muita gente acreditava que a grande imprensa era como a segunda consciência do homem, ou, não obstante, a própria substituta da consciência humana. Muita gente não tinha liberdade de pensamento autêntica porque em suas vidas seguia a linha editorial dos veículos da grande imprensa.

Era tentador: o "grande jornalista" era detentor de segredos da humanidade, era quase uma divindade, a pessoa, na obsessão em ser bem informada, abria a mão de pensar por conta própria, porque o "grande jornalista" pensava por ela.

Os "grandes jornalistas" - na verdade os âncoras, articulistas, colunistas e editores da chamada grande imprensa - eram quase divindades, e essa visão se deu por uma interpretação equivocada do papel da grande imprensa pela redemocratização.

Afinal, existem jornalistas e "jornalistas". Os jornalistas que lutaram contra a ditadura e pela redemocratização, já nos anos de chumbo, não eram superheróis. Eram seres humanos, que podiam falhar, mas se esforçavam em acertar na maioria das vezes. Hoje eles equivalem aos jornalistas que, na Internet, emprestam sua experiência como blogueiros progressistas.

Já os "jornalistas" são aqueles que agiam em prol do mercado. Mas, vez que outra, se apropriavam dos louros dos jornalistas que realmente lutavam pela democracia (não confundir com a "democracia" do PiG) e pela cidadania. Ou seja, o joão-de-barro constrói sua casinha na árvore, o urubu se apropria dela e atribui a si a autoria.

Só nos últimos cinco anos tornou-se mais clara a problemática da grande imprensa. A opinião pública teve que amadurecer, e criar uma mídia independente de verdade, em vez de procurá-la em veículos mais brandos da mídia conservadora.

A TV Bandeirantes acolhe vozes progressistas de vez em quando. Mas, até quando? De repente, o mais assustador dos comentários anti-sociais não vem de Veja, nem da Folha, nem da Rede Globo, mas da "inocente" TV Bandeirantes, através do temível Bóris Casoy, tão parecido com o Tião Gavião de Hanna-Barbera quanto José Serra se parece com o Mr. Burns de Matt Groening.

A esquerda baiana foi apoiar a Rádio Metrópole, cujo empresário-locutor Mário Kertèsz foi uma espécie de "Paulo Maluf com dendê", e foi espinafrada no ar pelo astro-rei da Rádio Metrópole, que havia sido prefeito de Salvador e criou um dos piores esquemas de corrupção da história da Bahia.

Aliás, traições acontecem e Cães de Guarda cita uma, a do jornalista Pimenta Neves, mais conhecido pelo seu crime passional contra a colega Sandra Gomide. Pimenta, aparentemente, era um discreto "seguidor" de Cláudio Abramo, uma das figuras eminentes da imprensa progressista do Brasil.

Abramo trabalhou o projeto progressista na Folha da Tarde, numa brecha mercadológica deixada pela Folha de São Paulo, então propriedade do "Otavião", Otávio Frias de Oliveira, já falecido, pai do atual barão da Folha, Otávio Frias Filho, o "Otavinho".

Pimenta Neves, um jornalista que não deixou marca profissional alguma, apenas seguia seu dever de aula com Abramo, até que o AI-5 vetou o projeto progressista e Folha da Tarde virou um jornal pró-ditadura.

Pimenta então "adaptou" o estilo de Cláudio Abramo para um tom mais conservador e chapa-branca, e, depois, comandou a conservadoríssima revista Visão, virou consultor do Banco Mundial e definitivamente passou a ser protegido pela imprensa golpista paulista, que tratou o crime como se fosse um "errinho cometido por força maior".

Mas, ironicamente, o sucessor de Pimenta Neves em O Estado de São Paulo - quando seu ciúme doentio por Sandra Gomide fez degradar o jornalismo do seu algoz mortal, que, convertido em mau jornalista, havia feito molecagens editoriais para desqualificar a ex-namorada - se chama Sandro Vaia, xará da vítima e cujo sobrenome se relaciona à reação da sociedade desse verdadeiro PiG do machismo brasileiro.

Cerca de um ano antes de cometer seu ridículo crime, Pimenta Neves deu seu depoimento a Beatriz Kushnir, que, com muita razão, o definiu como um jornalista que, nos seus últimos tempos de Estadão, atuou de forma arrogante e prepotente.

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