quarta-feira, 28 de maio de 2014

AGORA É COM VOCÊS!!


Por Alexandre Figueiredo

Hoje é a última postagem de Mingau de Aço, que encerra sua trajetória cumprindo sua missão. Foram cerca de quatro anos questionando fatos políticos e culturais, entre outros aspectos, correndo por fora do que o poder midiático veicula de mais tendencioso e faccioso.

Mingau de Aço fez o seu diferencial na mídia esquerdista indo até mesmo além do corporativismo das esquerdas e sendo um dos primeiros a preencher o vácuo de uma abordagem da cultura popular realmente esquerdista, que tem uma lacuna até hoje insuperada.

Afinal, o que se vê como "visão de esquerda da cultura popular", oficialmente, são aquelas abordagens de apologia à bregalização do país, que nada têm, na verdade, de esquerdistas. São, na verdade, abordagens herdadas de valores originários da ditadura militar, do coronelismo latifundiário e do neoliberalismo político-midiático.

Não se faz progresso no país com bregalização, porque esta coloca o povo na conformação de sua pobreza, glamourizando a miséria, a ignorância, o subemprego, entre outros aspectos. O apoio de intelectuais a esse "padrão de cultura" mostra que, apesar do discurso de "ruptura de preconceitos", a intelectualidade demonstrou-se terrivelmente preconceituosa.

Publicamos vários textos analisando a cultura, a política e outros fatores. Eles continuarão sendo publicados, para análises e pesquisas futuras. Procuramos dar uma análise mais abrangente possível dos temas, nesse tempo todo entre 10 de outubro de 2010 e hoje.

Eu darei um tempo na blogosfera geral para me concentrar na produção de livros e em outros compromissos pessoais. Mas decidi encerrar o Mingau de Aço por acreditar que ele cumpriu sua missão. Em breve voltarei à blogosfera com algo novo, iniciando uma nova fase.

Portanto, agradeço a vocês pelo apoio. Continuem lendo o Mingau de Aço. Ele continuará no ar, com os textos que foram produzidos. Ele apenas não será mais atualizado. Ele parou por aqui. Muito obrigado por tudo, e a gente se vê por aí.

terça-feira, 27 de maio de 2014

A COPA DE UM PAÍS EM INCERTEZAS


Por Alexandre Figueiredo

O corporativismo petista anuncia: #VaiTerCopa. Assim, em hashtags, como são conhecidas as palavras-chaves nas mídias sociais. Certo, vai ter copa. O Brasil, isto é, a Seleção Brasileira de Futebol, vai ganhar o "hexa" porque existem interesses de anunciantes em jogo, só para sentir este trocadilho.

Como em 2002, a FIFA e a CBF se empenham pela "vitória brasileira", dentro de um futebol que há muito tempo deixou de ser arte. O futebol-arte morreu em 1986 e o que veio depois foi o futebol-negócio, que encaixa no contexto em que, no Brasil, o espetáculo virou mera mercadoria.

Um detalhe a notar é que um dos astros do "penta" de 2002, Ronaldo Nazário, decepcionou as esquerdas médias ao afirmar que seu candidato para a Presidência da República é Aécio Neves, o yuppie boa vida que o PSDB tem como alternativa para enfrentar Dilma Rousseff na corrida das urnas.

A propósito, já que Dilma concorrerá à reeleição, teremos na frente o governo Michel Temer, durante alguns meses. A agenda do PMDB podou demais o governo petista, já que o PMDB, único partido remanescente da ditadura militar (era o antigo MDB levemente repaginado), é um partido sem muita identidade, mas que mistura ideais conservadores com pragmática populista.

Evidentemente, cresce o anti-petismo e uma direita organizada, nem sempre com verniz racional, já que varia entre a retórica "científica" de Rodrigo Constantino às histerias cegamente direitistas nas mídias sociais.

Mas o PT ainda permanece numa espécie de baluartismo, ou seja, acreditando em capacidades e possibilidades maiores que as que possui, ignorando os riscos e as limitações que se encontram no caminho.

O país está sob uma séria crise de valores. Extremamente violento, caótico, ainda conservador e provinciano, em completa disenteria dos valores e procedimentos originários da ditadura militar, alguns repaginados e sutis, outros não.

O que se prevê serão as manifestações de rua, que anunciaram que irão ocorrer. Em boa parte pacífica, mas há os oportunistas que se infiltram para provocar desordens. Alguns deles financiados por George Soros, o especulador financeiro "fora do eixo".

E há o problema das favelas, que só são maravilhosas aos olhos etnocêntricos da intelectualidade "bacana", que acha a pobreza linda de se ver, numa postura até pior do que os esquerdistas românticos de 1964, que, com toda sua crença pela burguesia nacional a financiar o subdesenvolvimento chique que acreditavam, pelo menos tinham algum pé no chão.

A ditadura midiática, os valores retrógrados, o machismo agonizante mas tentando se manter em pé, mesmo que seja pelo simbolismo das "boazudas", a bregalização, o coronelismo e seus conflitos no campo, o crime organizado, esses problemas são tão intensos que tornam difícil acreditar que o Brasil entrará no primeiro mundo com o hexa ou a reeleição de Dilma.

Nada disso. O país vive uma situação delicada, complexa, mal conseguindo resolver suas crises sociais. A opinião pública mal descobriu o reacionarismo juvenil na Internet, a direita já vestia uma nova roupagem faz tempo, sendo necessária a ascensão de Lobão no meio para a sociedade, e sobretudo as esquerdas, se convencerem que a direita não usava black-tie há muito tempo.

Preferimos acreditar num caminho incerto. Nem a reeleição de Dilma está garantida. As turbulências de 2013 e as crises de 2014 podem gerar desfechos inéditos. O otimismo exagerado no Brasil é uma grande fantasia, porque seria melhor que fôssemos realistas e acreditarmos que precisamos arrumar a casa antes de fazermos a festa.

Mas como muitos preferem fazer a festa primeiro, a casa ficará mais desarrumada que antes. E haverá muito mais trabalho para arrumá-la, não bastasse a bagunça que foi feita há 50 anos.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

COMENTÁRIO SOBRE "FUNK" ATESTA SOBRE LOBBY SÓCIO-ACADÊMICO QUE CERCA O RITMO


Por Alexandre Figueiredo

Um incidente manifesto no Facebook mostra o quanto a indústria do "funk carioca" conta com um poderoso lobby que envolve ativistas sociais e elites acadêmicas, de tal forma que já se admite um "patrulhamento" dos adeptos do ritmo brega-popularesco.

Sobre a realização de um "baile funk" em um morro em Ipanema, com o som em alto volume, a professora da Faculdade de Comunicação Social da UERJ, Patrícia Rebello, escreveu os seguintes comentários na sua conta do Facebook: "Baile funk nas alturas no morro aqui atrás e eu só lembro daquela frase que diz que funk é cultura. Exame de urina também".

Em seguida, aparece o hashtag #meuouvidonaoépenico. A postagem foi feita no último dia 18. A mensagem foi curtida por vários internautas, que apoiaram o protesto. Alguns só não compartilharam a postagem por temer o "patrulhamento" das "militâncias culturais" em prol do "funk".

É o que disse o professor José Ferrão, respondendo à postagem: "“Só não compartilho porque depois vou ter que aguentar a militância cultural. Adorei, amiga". Erick Felinto, vice-reitor da mesma faculdade de Patrícia, também apoiou a mensagem e curtiu.

"Também não posso compartilhar, pois os colegas acadêmicos que defendem a diversidade e estudam esse fascinante fenômeno cultural iriam me massacrar. Mas é deprimente", disse Felinto, acrescentando um sutil toque de ironia no comentário.

Mas defensores do "funk" logo se prontificaram em rebater o comentário, fora das mídias sociais. O deputado Marcelo Freixo, do PSOL, um dos principais propagandistas do "funk" no Legislativo, apelou para questões de "gosto" para expressar seu ponto de vista: "Não podemos identificar como cultura apenas aquilo que nos agrada, isso é elementar".

Já o diretor do Observatório das Favelas, Eduardo Alves, adotou um discurso "etnográfico": "O funk faz uma leitura da realidade de milhões de pobres, negros e moradores de comunidades, expõe a vida, a estética desse povo, e por isso é considerado cultura. Toda arte precisa ser respeitada".

RECUO

Pressionada pela "patrulha ideológica" dos defensores do "funk", Patrícia Rebello recuou de seu desabafo e, tentando agradar seus pares - virou um "protocolo" para a classe acadêmica defender o "funk" - , enviou e-mail "reconhecendo" o "funk" como um "bem cultural".

"Foi simplesmente um desabafo de alguém que estava com sono e queria dormir. Eu não estudo nem escuto funk o suficiente pra fazer qualquer comentário sobre o assunto. Claro que funk é cultura, claro que fala de uma enorme variedade de aspectos referentes ao mundo, e às condições sociais de quem o vive. Foi uma reação imediata de um organismo cansado", escreveu a professora.

CABO ANSELMO E JOSÉ SARNEY TERIAM SIDO "TRANSBRASILEIROS"?

CABO ANSELMO E JOSÉ SARNEY OLHANDO PARA A ESQUERDA...

Por Alexandre Figueiredo

Essa conversa de "cultura transbrasileira" e tantas coisas "provocativas" acabaram enfraquecendo a nossa cultura, e infelizmente as esquerdas morderam as iscas que intelectuais alienígenas, porque surgidos no seio do poderio midiático, deixaram com sua campanha pela bregalização do país.

Li o livro Honoráveis Bandidos, de Palmério Dória, e estou lendo 1964: O golpe que derrubou um presidente, pôs fim ao regime democrático e instituiu a ditadura no Brasil (o título é assim mesmo), de Jorge Ferreira e Ângela de Castro Gomes e comparo os temas de suas obras com os efeitos sócio-culturais que acabamos vivendo no Brasil de hoje.

Destes dois, o primeiro se dedica ao poderio acumulado por José Sarney, um pouco expressivo político maranhense da UDN, entre 1959 e 1964, que através do clientelismo político e da corrupção se tornou um dos mais poderosos "coronéis" regionais do país, tendo influído sobretudo no crescimento do coronelismo midiático dos últimos 25 anos.

Já o segundo se dedica a analisar os últimos meses do governo João Goulart, marcado pelo radicalismo de esquerda e de direita e cujo desfecho final foi impulsionado por uma estranha rebelião de sargentos fanfarrões, a pretexto de defenderem reivindicações justas para militares de baixa patente.

Dessa revolta, se ascendeu José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, um sargento (embora autoproclamado "cabo") metido a militante esquerdista que depois se revelou agente da CIA e colaborador da repressão militar. Dizem que já em 1963-1964 o Cabo Anselmo já era assim, mas se travestiu de militar comunista para armar uma cilada para Jango e abrir caminho para a ditadura.

Até o momento em que escrevo este texto, os dois estão vivos e assistem a um Brasil que acabaram preparando, desfazendo todo um caminho de progressos de toda ordem para o país. E de uma forma ou de outra, se envolveram em contextos que trouxeram consequências negativas das quais o Brasil luta para superar até hoje.

José Sarney promoveu uma farra de concessões de rádio e televisão que influíram decisivamente no desenho do cenário da "cultura popular" no Brasil, baseado na idiotização, na mediocrização, na exploração do ridículo, do grotesco e do piegas e, na melhor das hipóteses, no "aprimoramento" artístico ou comportamental de ídolos "populares" de modo tendencioso e calculado pelas elites.

Cabo Anselmo já influiu, décadas depois, num pseudo-esquerdismo, num pretenso ativismo que inspirou de funqueiros ao Coletivo Fora do Eixo. Que, como o militar, tiveram apoio da CIA, através de instituições claramente ligadas ao órgão estadunidense, como Fundação Ford e Soros Open Society.

Anselmo também inspirou toda uma intelectualidade devido aos métodos "provocativos" que ele promoveu ao comandar a aparente rebelião de sargentos e fuzileiros navais que causou uma séria crise que propiciou a reação violenta das Forças Armadas que deu origem à ditadura militar.

Militares de baixa patente que, não satisfeitos em arrancar uma anistia de João Goulart, foram desfilar para fazer pilhéria aos oficiais do Clube Naval, no centro do Rio de Janeiro, de alguma forma deixaram a raiz de "pensadores" que chegam a empurrar funqueiros até em exposições históricas.

Que diferença têm um Cabo Anselmo que deu uma "surra na bunda" na democracia e um bando de intelectuais chamando funqueiras para abrir uma exposição, dando uma "surra na bunda" na cultura de verdade, pejorativamente chamada de "alta", com o mesmo tom jocoso do sargento "marxista" que depois se revelou agente da CIA?

"DITABRANDA DO MAU GOSTO" NÃO ASSUSTA AS ELITES

A intelectualidade "bacana", que adota métodos "provocativos" de Cabo Anselmo e defende uma visão "coronelista" para a cultura popular como José Sarney, tenta manobrar seu discurso para tentar convencer a opinião pública.

Defendem o fim da MPB e a marginalização do patrimônio cultural brasileiro em museus e mansões, e querem que o povo pobre mantenha seus padrões comportamentais de pobreza, glamourizando a ideia do "mau gosto" como se fosse uma "causa nobre".

No seu discurso "atraente", querem evitar a recuperação da cultura popular que a ditadura rompeu. Criticávamos a cultura alienada, o jabaculê e a americanização de muitos ídolos "populares" brasileiros e a intelectualidade ainda gracejava, como gracejou quando se dizia que o "funk" tinha apoio da CIA, mesmo com a Fundação Ford financiando seus intelectuais etc e tal.

Tentam confundir as coisas, definindo as elites realmente questionadoras como se fossem elites aristocráticas. Confundem o saber com a riqueza. Muitas das melhores mentes não são necessariamente de gente muito rica, e no entanto quem questionava, por conhecer a cultura popular, seus descaminhos era mesmo assim classificada como "elitista".

Só que as elites realmente ricas e aristocráticas nunca se assustaram com a supremacia do "mau gosto", a "ditabranda do mau gosto" que fazia a festa da intelectualidade "bacana" às custas do "povão" que consumia os ídolos midiáticos sem reclamar.

Pelo contrário, o que tem de condomínios de luxo em suas festinhas de aniversário ouvindo "forró eletrônico", o que resta da axé-music (agora em processo irreversível de decadência), "sertanejo" e "funk" não está no blogue e mostra que, além dos barões da mídia, a aristocracia está muito feliz com a bregalização do país.

MELHOR UM POVO BREGA DO QUE UM POVO REVOLTADO

A intelectualidade "bacana" criou armadilhas que fizeram as esquerdas caírem na cilada. Como em 1964 quando a burguesia nacional deixou os esquerdistas na mão e estes ainda foram traídos pela milico-militância de Cabo Anselmo.

Criaram um modelo de "cultura popular" em que o povo ficava feliz com sua pobreza, usava o alcoolismo como válvula de escape para seus sofrimentos e os valores culturais não eram mais transmitidos pelo convívio comunitário, mas "de cima para baixo", pelas rádios e TVs "populares".

Durante muito tempo se acreditou que essas eram visões "progressistas", só porque se falava "positivamente" do povo pobre. Só que esse discurso "positivo" era traiçoeiro, porque evitava a luta do povo pobre pela verdadeira qualidade de vida, a não ser pela ajuda ostensiva das elites intelectuais paternalistas.

A ideia da intelectualidade pró-brega era dar a impressão de que defendia a "verdadeira cultura popular", com pseudo-ativismo e falsas alusões à negritude, ao feminismo e outros ativismos, quando a bregalização era só consumismo. No fundo, para a intelligentzia, melhor um povo brega, que é mais conformado, do que um povo realmente revoltado.

As próprias favelas viraram o "campo de concentração" da "nação funqueira e brega". Residências acidentais e incidentais, fruto da exclusão imobiliária, convertidas no mais descarado discurso paternalista em "arquitetura pós-moderna" e "paisagem turística" para o bom esnobismo das aristocracias.

Não se luta pela qualidade de vida, e a intelectualidade pró-brega atribuindo a qualquer bobagem pretensos ativismos. Mesmo as musas vulgares, sobretudo as do "funk", mesmo estando a serviço de uma imagem machista da mulher, se submetem ao pseudo-feminismo às custas de um celibato masoquista e forçado pelas circunstâncias.

A exemplo de Cabo Anselmo, a pregação pró-brega da intelectualidade "bacana" foi feita para confundir e enfraquecer as esquerdas e estimular a reação direitista. À exemplo dos generais e das aristocracias civis com seus rosários diante das esquerdas de 1964, as esquerdas de 2014 são enfraquecidas com seu deslumbramento brega que faz reunir uma direita mais articulada e coesa.

A direita, que sempre promoveu uma política conservadora, fazia a "caça às bruxas" durante a ditadura militar, mandando rebeldes para a prisão, tortura e morte, se rearticula em intelectuais e celebridades que agora adotam um discurso "conscientizado" que a esquerda nem de longe conseguiu fazer.

Ocupada está a esquerda com a fantasia inútil de que o brega traria a revolução social para o país, as esquerdas se enfraquecem, acreditando que basta só a "chuva de dinheiro" da Bolsa Família e da Lei Rouanet e os programas trainée para "melhorar" a conduta de ídolos bregas e sub-celebridades para criar uma "cultura popular" melhor e mais consistente.

Com isso, a direita se fortalece, porque está com um discurso mais substancial. Pode não ser um discurso sincero, mas torna-se melhor argumentado, mesmo quando sua defesa de uma cultura popular mais autêntica e um país mais cidadão sejam apenas um meio de se aproveitar das omissões do PT, do PSOL e outras forças esquerdistas quando aos projetos sócio-culturais para o país.

Mais uma vez a história se repete, embora em aspectos bem diferentes. Não saberemos o desfecho, mas sabe-se que esse papo de bregalização enfraqueceu as esquerdas, que provaram não entenderem de cultura realmente popular, defendendo um padrão que tem muito mais a ver com os interesses de grupos latifundiários e empresas multinacionais.

Portanto, o discurso um tanto tendencioso da direita e o discurso confuso e fantasioso da esquerda sobre o projeto sócio-cultural para o país só dão margem a uma pergunta: teriam sido José Sarney e Cabo Anselmo "transbrasileiros"?

domingo, 25 de maio de 2014

PRÍNCIPE DA "CULTURA TRANSBRASILEIRA", MICHEL TELÓ CANCELA APRESENTAÇÃO POR FALTA DE PÚBLICO


Por Alexandre Figueiredo

A notícia foi dada por Fabíola Reipert, a partir de um jornal em Birigui. Nesta cidade, no interior paulista, iria acontecer, no último dia 17, uma apresentação com o cantor breganejo Michel Teló, mas por problemas de estrutura do local do evento, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros não concederam alvará.

Então a apresentação do cantor foi adiada para a semana seguinte, no caso ontem, dia 24. Foi escolhido um outro local, a princípio, havendo a opção das pessoas pegarem de volta o dinheiro do ingresso. As pessoas pegaram o dinheiro, mas ninguém comprou novos ingressos.

Com a falta de público, a apresentação de Michel Teló foi cancelada. E isso depois que uma elite de intelectuais influentes inventou que Teló virou "cidadão do mundo" por causa de um mal-esclarecido episódio da divulgação da música "Ai Se Eu Te Pego", que não foi o sucesso estrondoso que muitos alardearam aos quatro ventos no Brasil.

Ele foi uma espécie de príncipe de uma "cultura transbrasileira" tão propagada pela intelectualidade "bacana", e um dos últimos baluartes do dirigismo ideológico que empurrava para o reconhecimento da gente culta certos nomes estratégicos da breguice nacional, incluindo também Odair José, Leandro Lehart e Raça Negra.

Se ele não conseguiu atrair público num de seus maiores redutos, o interior de São Paulo, área em que se supõe ser um dos focos de intenso fanatismo breganejo - área que envolve os interiores paulista e paranaense, mais os Estados do Centro-Oeste e o oeste de Minas Gerais - , então há um sério problema nisso.

Afinal, a intelectualidade "mais legal do país" não cansou de dizer que "Ai Se Eu Te Pego" é "pegajosa", "moderna", "desafiadora", que Michel Telo simbolizava a "rebelião indígena" travestida em "cultura transbrazyleyra" que ele havia conquistado o mundo, que veio para ficar etc. Só faltou Pedro Alexandre Sanches definir Michel Teló como o "Julian Assange (?!?!) brasileiro".

Uma elite de cientistas sociais, cineastas e jornalistas que apostam na bregalização do país tentava nos fazer crer que Michel Teló conduziria o futuro da humanidade planetária, sendo um dos líderes da revolução social que transformaria o mundo. Pasmem vocês, mas é o que essa turma que mexe com palestras, reportagens, monografias e documentários costumam pregar!

E no entanto, como é natural na mediocridade cultural, uma música como "Ai Se Eu Te Pego" envelheceu em poucos meses. Se Michel Teló já pegou um mercado com um Luan Santana precocemente envelhecido e antiquado, se tornou quase obsoleto depois de duplas e cantores que também soam mofados e datados.

É essa a sina do brega. Brega é a música antiquada, que se alimenta do hit-parade que perdeu a validade na véspera. Um tipo de música retardatária que só uns intelectuais metidos a engraçadinhos querem que seja a única música brasileira viável. Só que a supremacia do "mau gosto" tem limites: no fim do caminho, até os mais fanáticos defensores acabam se cansando. Muito barulho por nada.

sábado, 24 de maio de 2014

INTELECTUAIS "BACANAS" MONTAM GOLPE CULTURAL CONTRA A MPB

GOLPISMO - Às vésperas de completar 70 anos, Chico Buarque é bombardeado pela fúria de intelectuais "bacaninhas" que querem a bregalização do país.

Por Alexandre Figueiredo

A supremacia de uma intelectualidade cultural que se julga dona de uma visão "ideal" e "realista" sobre cultura popular aparentemente não causa desconfianças. Afinal, os intelectuais que a pregam possuem o privilégio da visibilidade, da formação acadêmica, e do prestígio em contatos até tendenciosos, mas decisivos, com ativistas sociais e forças progressistas.

No entanto, elas refletem, sim, um pensamento elitista que tais ideólogos não querem assumir. São antropólogos, sociólogos, jornalistas, músicos, historiadores que refletem um pensamento elitista e paternalista, embora aparentemente generoso, na qual a melhor solução para a cultura popular é manter o povo pobre dentro de um padrão de domesticação sócio-cultural.

Para isso, muito se escreveu em retóricas sofisticadas, mas confusas e contraditórias, de monografias a documentários, e o discurso até agora não encontrou uma réplica vinda de alguém com a mesma visibilidade compatível.

Até agora, só este blogue conseguiu fazer uma abordagem sistemática questionando a bregalização cultural sem investir em clichês do puro rancor de roqueiros revoltados ou bossanovistas nostálgicos. E chegamos a pegar de surpresa uma intelectualidade que parecia ter a palavra final em termos de cultura popular, mas não a equiparamos no círculo de visibilidade.

Por isso, volta e meia aparece algum factoide que transforma uma gafe em ativismo social. Como no caso da "funqueira pensadora". Como quem cria tempestade em copo d'água, ou melhor, criando Contracultura ou Modernismo em copo d'água, a intelectualidade dominante sempre manobra a bregalização para a imagem tendenciosa de "revolução social".

No fundo, são ídolos e tendências musicais ou comportamentais sem muita importância. E que tratam o povo pobre de maneira idiotizada, caricata e claramente domesticada. Mesmo assim, é assustador o lobby que envolve de cineastas a diretores teatrais, de estilistas de moda a antropólogos, que definem toda essa idiotização como "ativismo sócio-cultural".

COMBATE AO "PRECONCEITO" COMO DESCULPA

Esses intelectuais tentam um discurso articulado, como que numa espécie de similar "tropicalista" do Instituto Millenium, ou do antigo IPES que havia pregado o golpe militar de 1964. Eles usam a desculpa da "ruptura do preconceito" para defender a bregalização e seu avanço em mercados e públicos considerados mais "conceituados".

A desculpa do combate ao "preconceito" é até menos pertinente do que se imagina. Afinal, banalizou-se uma visão equivocada de combater o "preconceito", que na verdade se fundamenta numa aceitação bem mais preconceituosa do que a rejeição que se supõe combater ou romper.

O grande problema é que ninguém, com a visibilidade compatível com esses ideólogos, veio para contestar esse mito de maneira mais consistente e influente, e durante dez anos praticamente prevaleceu a visão de que aceitar tudo de forma pré-concebida é "combater o preconceito".

Então veio esse discurso, que nasceu na margem ideologicamente direita do poder midiático, se propagou nos filões esquerdistas a partir de supostos "dissidentes" que migraram da grande mídia para a mídia progressista, através de contatos por conveniência com acadêmicos e ativistas.

Depois veio uma situação surreal, de intelectuais supostamente esquerdistas defendendo a derrubada de uma MPB de esquerda, para pô-la no lugar um brega naturalmente direitista, de uma linhagem que vai dos primeiros ídolos cafonas, apoiaram a ditadura militar, até o "funk", que faz alianças que vão de bicheiros a George Soros, passando pelos barões da mídia.

CULTURA AMEAÇADA

Enquanto intelectuais lançam um discurso confuso e engenhoso para defender o brega, de natureza meramente radiofônica, como o suposto "novo folclore brasileiro", a ponto de haver casos extremos de um tendencioso Pedro Alexandre Sanches, o "filho da Folha de São Paulo", ver negritude até em "galegos" fazendo "funk", a cultura é ameaçada por um golpe.

Esse golpe promovido pela campanha intelectual intensa, hoje bombardeada por inúmeros anônimos a criar discursos e factoides em prol da bregalização do país - desde o professor Antônio Kubitschek, do caso da "funqueira pensadora", a blogueiros ocasionais e semi-anônimos - , é feito contra o nosso rico patrimônio cultural, embora se use a defesa do mesmo como pretexto.

É um intelectual atrás do outro, e já não é mais a "santíssima trindade" de Pedro Alexandre Sanches, Hermano Vianna e Paulo César Araújo dizendo que o Brasil tem que ser brega. Num dia é um cineasta iniciante que defende o "funk", no outro são curadores de arte que chamam funqueiras para abrir exposição de fotos, noutro é a blogueira com saudades de Waldick Soriano etc.

Junte-se a isso a campanha U-RU-BÓ-LO-GA que Pedro Sanches faz contra Chico Buarque e uma geração de emepebistas dos anos 60. O "esquerdista profissional" querendo derrubar, sob os aplausos de seus aliados, a esquerda emepebista, enquanto obriga as esquerdas a assinarem embaixo no apoio a bregas emergentes que, meses depois, festejarão o sucesso abraçados aos barões midiáticos.

A cultura brasileira, sobretudo a musical, é o que resta para as forças golpistas combaterem e que até 1976 saiu quase ilesa do turbilhão ideológico da ditadura. E Chico Buarque, último elo para as gerações mais recentes conhecerem nomes como Paulo Freire, Vinícius de Moraes, Darcy Ribeiro e outros, é uma "ponte" a ser demolida pela fúria da intelectualidade "bacana".

O caso Procure Saber tornou-se o pretexto para a intelectualidade "bacana" partir com toda a fúria contra a MPB sessentista, a ponto de Pedro Alexandre Sanches e Reinaldo Azevedo defenderem a mesma causa anti-buarqueana. Tudo para derrubar o que resta de cultura de qualidade, de boa poesia, de opiniões fortes, abrindo caminho para a bregalização mais totalitária e imbecilizante.

Para eles, legal é Leandro Lehart bancar o imitador do Monsueto, já que este faleceu há muito tempo, ficou esquecido e com isso o ex-Art Popular quer bancar o "genial". Legal é entregar o que resta da MPB sofisticada dos anos 60 para o controle de Michael Sullivan, a velha raposa do brega a cuidar do galinheiro da MPB de qualidade mas menos combativa.

Para eles, legal é o povo pobre permanecer na sua baixa qualidade de vida, a pretexto de ser a "sua cultura", o "seu ideal de vida". Como se qualidade de vida fosse apenas algumas garantias legais genéricas, alguma gratificação financeira e outros paliativos que pouco contribuem para a verdadeira superação da pobreza vital e existencial das periferias.

Para piorar, essa intelectualidade supostamente progressista, na verdade, está preparando o caminho para Rodrigo Constantino, Rachel Sheherazade, Reinaldo Azevedo e o agora reaça Lobão defenderem uma suposta lucidez cultural que os "progressistas" da moda se recusam a assumir.

É o que parece a finalidade de intelectuais pró-brega que parasitam os cenários esquedistas. Empastelar uma visão progressista de cultura popular para defender a domesticação e idiotização das classes populares e abrir caminho para a volta da direita com suas pregações supostamente "conscientizadas".

sexta-feira, 23 de maio de 2014

DILMA DEFINE EXPLORAÇÃO SEXUAL INFANTIL COMO CRIME HEDIONDO. OS INTELECTUAIS "BACANAS" VÃO CHORAR?


Por Alexandre Figueiredo

A presidenta Dilma Rousseff sancionou  lei aprovada pelo Congresso Nacional que define como crime hediondo a exploração sexual de crianças, adolescentes e pessoas consideradas vulneráveis, como adultos que se equiparam a esta condição típicamente infanto-juvenil, ou seja, sem capacidade de discernimento ou de autodefesa devido a doenças ou limitações psicológicas.

A medida vale para casos de atividade sexual remunerada, a pornografia infantil e a exibição feita em espetáculos sexuais públicos ou privados. Mesmo que não haja o ato sexual propriamente dito, o crime ocorre também quando há outra forma de relação sexual ou atividade erótica que implique em proximidade física entre a vítima e o agressor.

Também está sujeito à sentença criminal aquele que promover ato libidinoso ou praticar sexo com alguém entre 14 e 18 anos no âmbito da prostituição. Na Lei do Crime Hediondo (8.072/90), o estupro de crianças, adolescentes e adultos vulneráveis já está incluído na lista.

Apesar da definição como crime hediondo, a pena é considerada branda, de quatro a dez anos de reclusão, e a mesma deverá começar a ser cumprida em regime fechado. No entanto, para réus primários, pode haver progressão para semi-aberto depois de dois quintos da pena e, se reincidente, de três quintos. Mas a sentença proíbe fianças e benefícios como anistias, graças e indultos natalinos.

E A INTELECTUALIDADE "BACANA"?

A grande questão é como a medida irá refletir na intelectualidade cultural dominante, que adota no caso uma postura bastante ambígua, já que ela se opõe a atos sexuais explícitos e feitos num contexto criminoso, como o estupro, mas aprova insinuações de sensualismo para o público infanto-juvenil em espetáculos de entretenimento.

Já houve intelectuais definindo espetáculos "sensuais" envolvendo adolescentes como "iniciação sexual das jovens pobres". Gêneros como o "pagodão", da Bahia, e o "funk", seja "funk carioca" e "funk ostentação", sugerem, em seus espetáculos e músicas, a insinuação de erotização do público infanto-juvenil, sob o consentimento das famílias e até de acadêmicos.

A pornografia no "funk" em geral já foi definida como "discurso direto", como se fosse algum preconceito criticar a banalização do sexo no ritmo. E os ídolos que abordam a pornografia são naturalmente defendidos por intelectuais como se eles também pudessem ser curtidos pelo público infanto-juvenil, já que não existe alguma advertência contra isso.

A lei sancionada por Dilma ainda não descreve, aparentemente, casos como apologia da erotização infanto-juvenil, que é um dos estímulos para a exploração sexual de crianças e adolescentes, talvez por serem considerados crimes comuns, sem efeito rigorosamente prático.

Além da lei, Dilma também lançou o aplicativo para telefones celulares e tablets, o Proteja Brasil, em parceria com a UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância). Com o aplicativo, pode-se usar essas tecnologias para denunciar atos de exploração sexual previstos na lei.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

"O RÉU E O REI" NO PAÍS DO "BEIJINHO NO OMBRO"


Por Alexandre Figueiredo

O projeto de lei que permite a publicação de biografias não-autorizadas já teve sua aprovação feita na Câmara Federal, mas ainda depende da aprovação do Senado para receber a sanção presidencial. Mas, antes disso acontecer, um livro foi lançado para relatar o caso de um processo que inspirou os debates sobre o assunto.

É o livro O Réu e o Rei, escrito pelo historiador Paulo César de Araújo que descreve o que o autor sofreu durante todo o processo de pesquisa e entrevistas para seu livro Roberto Carlos em Detalhes e o processo que o cantor capixaba moveu para banir a comercialização da obra. O empresário do cantor, Dody Sirena, já estuda meios de impedir também a venda de O Réu e o Rei.

Roberto, através de seus advogados, alegou que Paulo César escreveu uma biografia do cantor e compositor sem autorização do mesmo, daí a ação na Justiça para recolher os exemplares e proibir a comercialização.

O caso gerou uma polêmica que favoreceu Araújo, criando uma animosidade entre a geração intelectual em que ele se inclui - ao lado de Hermano Vianna, Pedro Alexandre Sanches, Eduardo Nunomura, Denise Garcia, entre outros - e a geração dos anos 60 de Roberto Carlos ao lado de tropicalistas como Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gilberto Gil e pós-bossanovistas como Chico Buarque.

Paulo César Araújo é meio vítima, meio marqueteiro. Um tanto injustiçado, é verdade, porque afirmou ter procurado o "Rei" para dar uma entrevista e o cantor nunca esteve à sua disposição. Com base em entrevistas de outros artistas, ele construiu a memória biográfia do cantor capixaba, mas este não gostou da menção de "certos fatos" e decidiu proibir a comercialização do livro.

Por outro lado, porém, Paulo César se autopromove com isso. Sem receber o merecido crédito do seu livro anterior, Eu Não Sou Cachorro Não, por causa de uma tese surreal de que o brega "causava horror" à ditadura militar, só repercutindo bem na intelectualidade "bacana" mas sem conseguir reabilitar os ídolos cafonas, o autor foi capitalizar em cima do processo de Roberto contra ele.

Mas o próprio Paulo César Araújo também pode ter tido seus momentos de Roberto Carlos. Há uma suspeita de que Araújo criou um lobby, junto à atriz Patrícia Pillar, estrela da Globo e diretora e escritora de biografias (cinema e livro) de Waldick Soriano, para vetar a permanência de um vídeo em que o ídolo brega elogiava a ditadura militar e reafirmava seu machismo. É apenas uma suspeita, mas há indícios de que o motivo do sumiço do vídeo seja este.

Isso porque, para combater a "velha e cansada" MPB, a intelectualidade "bacana" defende a publicação de biografias não-autorizadas. Mas, em relação ao brega, a situação é tão problemática - levando em conta a influência que a mídia sensacionalista tem no Brasil - que os ídolos quase sempre adotaram uma postura de abstenção, não declarando contra ou a favor de biografias não-autorizadas.

O que está por trás dessa polêmica - agravada pelo movimento Procure Saber, organizado pela empresária Paula Lavigne junto a medalhões da MPB - é a campanha que os intelectuais de hoje fazem para derrubar a geração 60 da música brasileira, superestimando seus erros.

Querendo extinguir a MPB e transformar a supremacia da breguice cultural numa tendência totalitária, a intelectualidade quer depreciar a MPB mais sofisticada de tal forma que ela só será revalorizada nas mãos de nomes como Michael Sullivan, o ídolo brega que zela pela MPB como uma raposa cuida de um galinheiro.

LEMBRA 1964

É certo que Roberto Carlos é conservador, defendeu a ditadura militar, zela demais pela sua imagem e causou polêmica até em comercial de carne. Mas é bom deixar claro que Roberto, já em aventuras conservadoras e pós-1975, abriu as portas para o brega e nomes como Odair José, José Augusto, Michael Sullivan, Alexandre Pires e Chitãozinho & Xororó nada seriam se não fosse o "Rei".

Muito da supremacia brega que a intelectualidade "bacaninha" defende se deve a Roberto Carlos já como contratado da Globo e a um Caetano Veloso já narcisista e aliado do "Rei", portanto não há como escapar e defender a bregalização cultural como se fosse uma guerrilha revolucionária.

A intelectualidade "bacana", festiva e bobo-alegre, até tentou trocar o nome da sigla VPR, de Vanguarda Popular Revolucionária para Valesca Popozuda Rebolando, animada com a definição da funqueira como "filósofa" e bagunçando com os contextos ativistas e educacionais com atos "provocativos" que inspiraram outro grupo "funk" e ser jogado num evento sobre Josephine Baker.

É o país do "beijinho no ombro", do "lepo-lepo", da idiotização cultural glamourizada por um poderoso lobby intelectual, que se julga "independente" mas está a serviço, informal, dos barões da grande mídia e dos grandes senhores do entretenimento.

Eles querem derrubar a MPB autêntica para colocar o brega no lugar. Se alguém quiser resgatar a fase sofisticada da MPB, que recorra a Michael Sullivan, o "Rei do Jabá", que quis destruir a MPB nos anos 80. Seria constrangedor ver Michael Sullivan sobrando para cantar, junto a seus capangas, canções como "Wave", de Tom Jobim, e "Arrastão", de Edu Lobo.

Isso lembra o golpe de 1964. Assim como os militares e a extrema-direita civil derrubaram o estancieiro João Goulart, solidário com as classes populares, querem derrubar Chico Buarque, o "coronel da Fazenda Modelo", solidário com a cultura do povo pobre.

A "reforma agrária" da antiga UDN, com melhores meios de indenização possíveis para os latifundiários que perdem suas propriedades, tem exata analogia à "reforma agrária na MPB", dando apoio e dinheiro para a bregalização patrocinada pelo coronelismo radiofônico e pelos próprios latifundiários.

O grande problema é que a intelectualidade "bacana" adota uma postura falsamente progressista, e em certos casos chega a influenciar as esquerdas médias a pensar como elas, criando situações constrangedoras. Se bem que nenhum desses intelectuais pró-brega ousou protestar quando blogues como este apontaram vínculos indiretos com o baronato midiático.

E assim os intelectuais "mais legais" fazem a escalada do jabaculê rumo ao monopólio absoluto na música brasileira. Derrubar uma MPB que raciocine, que tenha atitude, que seja sincera e faça música de qualidade, é a meta da intelligentzia. Tudo para colocar no lugar ídolos mais submissos às leis do mercado, por mais que num momento ou em outro, posem de ativistas.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

PT, ESQUERDAS E A DIREITA "ATRAENTE"


Por Alexandre Figueiredo

As esquerdas parecem otimistas. A direita, entusiasmada. Mas a situação do Brasil é bastante imprevisível para acharmos que tudo será às mil maravilhas: Brasil hexacampeão, Dilma reeleita, país no Primeiro Mundo, e, no lado da oposição, uma direita que acha que tem todas as respostas para resolver as crises sociais que ainda persistem.

A realidade está muito mais complexa, e o que se nota no Partido dos Trabalhadores é um otimismo exagerado de seu triunfo, como se o caminho já estivesse previamente traçado pelo destino. A última participação do ex-presidente Lula num encontro de blogueiros mais parecia uma comemoração antecipada da vitória do PT nas urnas.

O PT até realizou progressos sociais, mas peca pelo corporativismo, pelas alianças sem confiabilidade, pelo pragmatismo paliativo - como definir medidas auxiliares, urgentes mas provisórias, como as cotas raciais e o Bolsa Família, como se fossem definitivas e permanentes - e por uma concepção míope de cultura popular.

Em contrapartida, surge nas mídias sociais uma direita articulada, organizada e influenciada por um elenco "atraente" que inclui um roqueiro (Lobão), um pensador com empatia entre os jovens (Rodrigo Constantino), uma bela moralista nervosa (Rachel Sheherazade), filósofo (Luiz Felipe Pondé), antropólogo (Roberto da Matta), cineasta (Arnaldo Jabor) e "imortal" da ABL (Merval Pereira).

O PT se faz de vítima, mas prefere se sentir vitorioso, enquanto não consegue explicar seus erros e equívocos. Que isso é influência sobretudo de contatos "alienígenas" aqui e ali, do PMDB a George Soros, ou que interesse tiveram José Dirceu e José Genoíno por Marcos Valério.

Os petistas se limitam a reclamar da campanha midiática contra eles. Tudo bem. Mas a falta de autocrítica, de um lado, e um orgulho triunfalista, de outro, faz com que o PT esteja muito mais no caminho das incertezas do que das certezas.

Os noticiários, não somente da imprensa reacionária ou semi-reacionária mas também algumas progressistas, mostram o quanto a situação brasileira está bem difícil. Fenômenos como Anonymous, Black Blocs, os protestos de ruas, os vandalismos, a violência, os protestos na Internet, tudo isso desafia a opinião pública em geral e indica mais um país turbulento do que tranquilo.

A derrubada em definitivo do mito de que as mídias sociais causariam, por si só, a revolução social, transformando a humanidade em objeto, e não sujeito, do processo ativista, foi comprovada quando o direitismo passou a crescer de forma mais organizada no Facebook e no Twitter, de forma bem mais explícita que o pseudo-esquerdismo com QI de extrema-direita do Orkut de oito anos atrás.

As esquerdas, e não só o PT, erram porque seu projeto político, econômico, social e cultural apontam muitos erros. Medidas paliativas como o Bolsa Família são válidas, desde que provisórias e emergenciais. O progresso também não se dará com transposição do Rio São Francisco e com hidrelétricas como Belo Monte, que causam danos sócio-ambientais sérios.

Da mesma maneira, a cultura popular não se evoluirá pela bregalização nem pelo "funk", e que todo o discurso esquerdista condescendente com os funqueiros já gerou péssima repercussão, na qual é insuficiente os esquerdistas se passarem por vítimas e fazerem a mesma choradeira pró-funqueira de sempre.

As esquerdas não se evoluíram, e isso não é uma constatação de extrema esquerda. Até porque, com a mediocrização sócio-cultural atingindo níveis elevados - tanto que muitos incautos acham naturais coisas que, na verdade, são aberrantes - , até o esquerdismo mais equilibrado de 50 anos atrás hoje parece "extrema-esquerda".

Sim, somos "norte-coreanos" e "brizolistas" por defender coisas que seriam apenas convencionais nos anos 60. Hoje querer que o samba dos morros seja apreciado pelos jovens dos morros é um misto de elitismo com radicalismo guerrilheiro. Querer que o artista fale de amor como se falava nas boas canções brasileiras tem o status de campanha panfletarista da UNE.

As esquerdas glamourizaram a miséria, a ignorância e até a pornografia. Perdem tempo defendendo a liberação da maconha em vez de lutar pela qualidade de vida. Querem bregalização em vez de uma cultura popular melhor. E acham que regulação da mídia se limita tão somente a domar o noticiário político para que todos passem a falar bem de Lula, Dilma e seus amigos.

O Partido dos Trabalhadores, portanto, está bastante defasado. Se Dilma vencer as eleições, será muito mais por uma questão de "zona de conforto" do que do sucesso de seu programa de governo, muito acanhado em relação às expectativas. Também o corporativismo petista de setores das esquerdas não resolvem a solução, porque todo corporativismo é irreal e restritivo.

O Brasil está complexo, e as esquerdas estão perdendo a chance de adotar posturas autocríticas, rever posições. Se, por exemplo, o "funk" apunhala as esquerdas pelas costas e comemora seu sucesso com os barões da grande mídia, não é para os blogueiros de esquerda defenderem mais o ritmo. MC Guimê virando capa de Veja é suficiente para as esquerdas verem os funqueiros como traíras.

Diante de um PT cada vez mais confuso, e de outros setores de esquerda pouco eficazes, a direita se aproveita para adotar um discurso simplificado e "atraente", ainda que de forma demagógica, já que seu discurso "a favor do povo" só lhes é garantido pelo pretexto da oposição.

Ser oposicionista é uma posição mais confortável, porque, em vez de fazer o que não pode, se cobra do detentor do poder aquilo que ele prometeu fazer e não quis. E as pressões da vida desencorajam tanto neoliberais quanto esquerdistas em geral. O Brasil é muito complexo. Em vez de otimismo, deveríamos ter uma boa dose de realismo. Senão o país será engolido pelo caos.

terça-feira, 20 de maio de 2014

"FUNK" E A ESQUERDA QUE A DIREITA GOSTA


Por Alexandre Figueiredo

As esquerdas teimam em defender o "funk". Como na anedota do corno-manso, que aceita traição da própria mulher que vai para o quarto conversar com seus "primos", as esquerdas aceitam o "funk" mesmo quando os funqueiros apunhalam os esquerdistas pelas costas, se aliando com os barões midiáticos.

O "funk", neste sentido, virou a "burguesia nacional" da hora. Quem sabe de História do Brasil sabe do que se está falando. Um dos maiores erros das esquerdas em 1964, e que se tornou crucial para o sucesso do golpe civil-militar, é acreditar na aliança com a burguesia nacional na construção de um país socialista.

Naquela época, é bom lembrar mais uma vez, a burguesia nacional, percebendo a radicalização dos movimentos sindicais, camponeses e de lideranças políticas como Leonel Brizola, preferiu se aliar à UDN e aos direitistas que militavam no IPES e contribuiu com dinheiro e outros respaldos para a efetivação do golpe e da ditadura que se seguiu por duas décadas.

Isso causou uma desilusão tão grande nas esquerdas que, sem poder controlar o contexto sócio-político - a não ser pela força, de parte de alguns militantes, através da guerrilha armada - , viram seus sonhos e ideais se dissolverem e alguns até migraram para a direita ideológica, como foi o caso do cineasta Arnaldo Jabor e do político José Serra, ambos ex-ativistas da UNE.

Hoje a história se repete como uma farsa, mas no lugar da burguesia nacional, está o "funk". Se as esquerdas de 1963-1964 (descontam-se as mais radicais) acreditavam que o apoio da burguesia brasileira iria trazer o desenvolvimento sócio-econômico, hoje as esquerdas acreditam que o "funk" trará desenvolvimento sócio-cultural. Uma utopia que já está cobrando o seu preço.

"FUNK" NÃO QUER REGULAÇÃO DA MÍDIA NEM REFORMA AGRÁRIA

No discurso, as coisas parecem muito fáceis, mas na prática não. Se alguém perguntar a um dirigente funqueiro, como MC Leonardo, se ele é a favor da regulação da mídia e da reforma agrária, ele irá fingir que é totalmente a favor, até para encaixar sua retórica de suposta defesa da cidadania.

No entanto, na prática, se observa que o "funk" é radicalmente contra as duas causas. Primeiro, porque o "funk" prefere a aliança com os barões da mídia, que lhes garante visibilidade fácil, alta e permanente. Segundo, porque muitos DJs e empresários de "funk" já estão virando latifundiários, a exemplo do que acontece com os ídolos do "sertanejo" e da axé-music.

O que as esquerdas não percebem é que o "funk" não é algo acima das ideologias. Ele é algo "acima das ideologias", conforme a ideologia "acima das ideologias" de Francis Fukuyama, e entendendo o termo "acima das ideologias" como eufemismo para uma ideologia neo-direitista, na qual se enquadra o historiador do "fim da História", o preferido (não-assumido) de Pedro Alexandre Sanches.

Por isso as esquerdas adotam uma postura frouxa, condescendente e praticamente masoquista. Elas não percebem que são traídas pelos funqueiros, que, depois de fazerem suas poses de coitados na mídia esquerdista, vão para a mídia direitista comemorarem o prestígio obtido.

Por isso ninguém deve creditar como "conspiração" ou "ocupação do espaço inimigo" o fato dos funqueiros aparecerem na Rede Globo, na Folha de São Paulo e até na capa da revista Veja. Ninguém conspira para depois sair abraçado às supostas vítimas. Se o "funk" está na grande mídia, é porque seus astros e seus barões estão muito felizes com os funqueiros.

As esquerdas, presas no corporativismo e numa visão distorcida de cultura popular, estão cada vez mais impotentes de reagir ao protesto extremo-direitista, que cresce e se torna mais sofisticado. Pois só a extrema-direita rejeita o "funk", mas a direita em geral aceita e apoia o "funk", entendendo que é melhor um pobre "descendo até o chão" do que lutando por reforma agrária.

O discurso "socializante" do "funk" foi inventado pela Rede Globo e pela Folha de São Paulo. Não há como escapar disso. As esquerdas pensam que o "funk" trará o socialismo para os subúrbios cariocas, e erram covardemente com esse discurso. Acabam alimentando a reação direitista que agora forja uma suposta consciência social que os esquerdistas se recusaram a desenvolverem.

O "funk" é patrocinado tanto pela contravenção e pelo tráfico quanto pela grande mídia e pela CIA. É certo que também recebe recursos do Governo Federal petista, mas no grosso os investimentos são provenientes do capital estrangeiro de instituições como a Soros Open Society e a Fundação Ford, repassados para o Estado e para instituições não-governamentais.

Por isso não há como acreditar que o "funk" é pobrezinho e faz sucesso porque choramingou por um espaço na mídia ou porque o status quo acredita que ele promoverá uma revolução sócio-cultural. Uma visão equivocada, afinal o "funk" glamouriza a pobreza, a pornografia e a ignorância, prende os pobres em estereótipos de miséria e reduz a cultura popular a uma mesmice comercial.

Daí que o "funk" é defendido por esquerdas que deixam a direita feliz e tranquila. É a esquerda que a direita gosta e que faz o direitismo crescer muito nas mídias sociais.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

A GERAÇÃO HIPERMIDIATIZADA PÓS-1978


Por Alexandre Figueiredo

Os mais velhos eram crianças ou mal haviam nascido quando Bill Gates e o falecido Steve Jobs lançaram novidades na Informática. Não puderam acompanhar a primeira geração do punk rock, e não viveram as amarguras sócio-políticas causadas pelo AI-5. Eram muito pequenos para perceber a agonia da ditadura militar e os mecanismos traiçoeiros da "indústria cultural" politiqueira.

Já os mais novos nem haviam nascido em boa parte dessa época. Quando muito, nasceram quando a ditadura militar já havia passado. E também eram pequenos para perceber as artimanhas do governo Collor, os efeitos das concessões clientelistas de rádio e TV do governo Sarney e o problema da mediocrização artística dos tempos atuais.

Depois de 1978, nasceu uma geração que, salvo exceções, não acompanhou os rumos da História e se tornou praticamente dependente do poderio midiático. Os mais velhos não eram estimulados a ter um diálogo com os pais, os mais novos já tinham esse estímulo, mas não conseguiam compreender a vida de maneira amplamente questionadora.

Quando a década de 90 trouxe a reboque todo o processo de mediocrização sócio-cultural que foi da cultura popular ao rock, do cinema à moda, da literatura à televisão, os mais velhos mal entravam na puberdade e os mais jovens ainda estavam para encerrar a infância.

Em ambos os casos, são pessoas que só agora, tardiamente, redescobrem o Brasil e o mundo em que vivem. Os mais velhos tiveram que se tornar pais para ver que, por exemplo, os anos 80 não eram só Menudo, Dr. Silvana, Silvinho Blau-Blau e Xou da Xuxa. Os mais jovens começam a experimentar o ceticismo em relação a referenciais "institucionalizados" dos anos 80 para cá.

Eles são chamados de "geração Y", um termo até um tanto discutível, mas que se refere a pessoas que nasceram ou cresceram sob a influência da informática e do poder midiático, que de tão inserido em seus inconscientes, perdem a noção até mesmo do que é "cultura de massa" ou "cultura midiatizada", porque tudo lhes parece tão natural como a própria Natureza.

NASCIDOS ENTRE 1978 E 1987 SÃO MAIS "FECHADOS"

Nota-se, entre essas duas gerações, que aqueles nascidos entre 1978 e 1987 são em sua maioria bastante fechados nos seus referenciais culturais. O fato de terem nascido num período de crises sociais profundas e desajustes familiares os fizeram criar um "sistema de defesa" praticamente isolado nos referenciais situados no tempo e no espaço.

A alegoria pode ser comparada com o caso do garoto da bolha de plástico, o caso de um menino com problemas imunológicos que inspirou um filme de 1976, O Rapaz da Bolha de Plástico (The Boy in the Plastic Bubble), estrelado por John Travolta no papel-título, o mesmo que a geração de 1978-1987 conheceria em 1994 com o filme Tempo de Violência (Pulp Fiction), de Quentin Tarantino.

Eram pessoas para as quais só prestava aquilo que era produzido a partir de 1975 e que era "moeda corrente" na "indústria cultural" dos anos 80 e 90. Desprezando os anos 60, que pelos lamentos de seus pais foram tidos como uma "década perdida" (a Contracultura não havia conseguido combater os diversos reacionarismos sócio-políticos do mundo), a geração 1978-1987 se fechou no seu tempo.

Eles só apreciavam coisas que lhes eram "palpáveis" e "presentes", como aquilo que viam no rádio e TV desde a infância. A falta de compreensão do que seria anos 80 os levaria a considerar até mesmo desenhos animados dos anos 60 e seriados dos anos 60-70 como "cultura dos anos 80". É porque passava na televisão quando eles eram crianças, na década oitentista.

Por isso são raros os referenciais pré-1975 que apreciavam. Um Pelé, uma Hebe Camargo, um Roberto Carlos passavam, por razões óbvias. Mas o rock clássico virou demodê, o máximo é ouvir poser metal. A MPB ficou ultrapassada, o jeito é bregalizar de vez. Raciocinar e olhar longe viraram práticas negativas e repudiadas até com certa fúria.

Só aceitavam, como contemporâneos, Raul Seixas, Bob Marley e Che Guevara, mesmo assim de forma confusa, como se eles tivessem sido irmãos "doidões". E as tragédias lhes foram poucas, pois, fora Ayrton Senna, Mamonas Assassinas e Cássia Eller, a geração 1978-1987 não viveu grandes perdas, até sofrer o impacto da morte de Michael Jackson em 2009.

NASCIDOS APÓS 1987 SÃO ABERTOS, MAS ACEITAM TUDO SEM VERIFICAR

Já a geração nascida após 1987 encontrou um quadro sócio-político ainda mais "arejado", seja por conta das pressões sociais exercidas contra muitos abusos e irregularidades, seja pela consolidação da democracia, seja pela liberdade de informações e perspectivas sociais um tanto mais otimistas.

Com um diálogo mais aberto com seus pais, em relação à relação imediatamente anterior de pressões profissionais e afetivas que desestruturaram muitas famílias ou as fizeram sobreviver unidas num ambiente de ceticismo e busca pela sobrevivência, os nascidos após 1987 aceitam mais novidades e antiguidades do que seus similares um pouco mais velhos.

Embora criados pelo mesmo pano-de-fundo da ditadura midiática, os mais jovens buscam uma flexibilidade e um nível de compreensão menos atrofiado. Não precisariam trabalhar com patrões mais velhos ou se tornarem pais para verificarem que o mundo ia muito além dos quintais cronológicos dos jovens.

São mais receptivos a referenciais culturais antigos e outros que não fazem parte do escasso elenco de "sucesso" que seus semelhantes um tanto mais velhos apreciavam. Têm maior liberdade de apreciar as coisas, mas carecem ainda de uma visão mais questionadora sobre o que realmente vale a pena ou não em matéria de cultura.

Se a geração de 1978-1987 se apegava a um pragmatismo quase masoquista - "com tanta coisa ruim, até que o que eu gosto e acredito satisfaz minha vida" - , a que veio depois já vai um pouco além dessa baixa auto-estima, saindo das "bolhas de plástico" para ver um mundo que, no entanto, lhes deslumbra demais, como se fosse um admirável mundo de certezas pré-estabelecidas.

"PÓS-MODERNISMO" DE RESULTADOS

Se a geração de 1978-1987, na medida em que chegava aos 30 anos, se limitava a "redescobrir" cafonices como Waldick Soriano, Odair José e Ray Conniff, enquanto superestimava falecidos recentes como Michael Jackson e Wando, a geração mais nova, sem romper com tal perspectiva, pelo menos insere alguma criatividade e jovialidade.

Certo, é um "pós-modernismo" de resultados, pois ninguém espere de jovens nascidos depois de 1987 no Brasil uma geração empenhada em reciclar as lições do Modernismo e da Contracultura, já que, se os mais velhos eram culturalmente "sub-nutridos", os mais jovens apostam numa "gororoba".

É o que se vê nos ídolos em ascensão, que vão além de um fechado pragmatismo brega-comercial dos anos 90. Já não é mais obsessão defender o ruim por ser "melhor que o pior", mas de buscar alguma coisa boa da qual a juventude contemporânea, em sua curiosidade mal orientada, não consegue discernir qual é.

Em outras palavras, se a geração de 1978-1987 era bem mais fechada no que era o hit-parade, o status quo e o que "vier por aí" porque, "com tanta coisa ruim, até que tudo isso é bem legal", a geração pós-1987 já aprecia coisas bem mais diferentes, embora sejam incapazes de separar o joio do trigo.

Daí a comparação, por exemplo, da blogueira nascida depois de 1978 que pensou que "How Soon is Now?", clássico dos Smiths, era uma música da lavra autoral do Love Spit Love, e da geração pós-1987 que se divertia com a jocosa montagem que, de forma surreal, juntava a voz de Morrissey com o som rítmico do É O Tchan.

No primeiro caso, o isolamento no tempo ignorava que certos sucessos eram, na verdade, versões de músicas ainda mais antigas. No segundo caso, é a curiosidade desmedida e a busca aleatória por misturas inusitadas em que se despreza o questionamento de juntar coisas tão antagônicas num resultado que não é tão bom quanto parece, embora "divertido" à primeira vista, como piada pronta.

A geração pós-1987 consegue apreciar um Wilson Simonal, um Doors, ler obras literárias sem fazer cara feia, e parar para ver uma obra de artes plásticas, num salto para a geração anterior, que por sua ânsia de pragmatismos e "atualidades", preferia ver desfiles de moda banais como se eles substituíssem qualquer exposição de pintura ou arquitetura.

EM AMBOS OS CASOS, A INFLUÊNCIA DA GRANDE MÍDIA

O que se pode perceber é que, apesar de tais diferenças, as duas gerações têm em comum a influência forte do poder midiático, tão forte que, como um vírus que entra no organismo e ninguém sente os sintomas, as pessoas não percebem tal influência.

A geração mais velha das duas citadas, por ser a mais "fechada", é a que sofre ainda mais o peso do poderio midiático, embora em muitos casos se esforce, até de forma neurótica, em desmenti-lo. Isso porque seus valores ainda são carregados de influência da ditadura midiática, por mais que esses defensores definam tais valores como "da sociedade" e "acima de toda ideologia e poder".

Já a geração mais jovem tem uma maior liberdade. Ela já nasceu consultando a Internet, enquanto a mais velha construiu seus valores em emissoras como Globo e SBT e em rádios FM controladas por oligarquias, da Som Zoom Sat nordestina à 89 FM paulista. A geração mais nova já começou consultando portais e sítios que destoam do lero-lero midiático dos anos 90.

É certo que, num caso e em outro, há alguém da primeira geração hipermidiatizada que se abre para a "gororoba" cultural, e outro da segunda geração que é bem mais "fechado". Mas, no conjunto, as duas gerações se delimitam nas tendências descritas, até pelo quadro sócio-político que, depois de 1988, tornou-se mais flexível.

Resta saber se, no futuro, haverá uma geração que possa estar aberta ao mundo, não para apreciar tudo de forma não-verificada, mas para ver o que vale ou o que não vale a pena. Depois da geração "bolha de plástico" e da geração "gororoba", espera-se que surja uma geração capaz de separar o joio do trigo e que devolva ao Brasil um nível de compreensão sócio-cultural perdido há 50 anos.

domingo, 18 de maio de 2014

EMPRESÁRIOS DO BREGA AMPLIARAM O JABACULÊ SUBORNANDO SINDICATOS E ENTIDADES ESTUDANTIS

ANÚNCIO DE UM EVENTO "UNIVERSITÁRIO" EM ITABUNA, BAHIA.

Por Alexandre Figueiredo

O jabaculê mudou muito, em vários aspectos. Se no rádio FM o propinoduto tornou-se pior nas chamadas "jornadas esportivas", no comercialismo musical expresso pelo "popular" brega-popularesco, os subornos deixaram de se direcionar tão somente aos programadores e gerentes artísticos de emissoras FM.

Quem aposta na visão do jabaculê de 30 anos atrás, e infelizmente muitos ainda vivem nesse tempo, se enganou completamente. Em 2004, meu sítio Preserve o Rádio AM já alertava sobre o jabaculê esportivo que anos depois foi confirmado por um grave escândalo envolvendo rádios na Bahia, a ponto de Mário Kertèsz, um dos barões da mídia locais, quase ter morrido de infarto.

Já naquela época, ou seja, dez anos atrás, o jabaculê havia mudado e muita gente não percebeu. Blogueiros da época que se julgavam "líderes de opinião", que prometiam uma devassa no poder midiático e só transformavam seus blogues num desfile de fotos de sindicalistas e personalidades políticas, quase um fotolog com informes inócuos, se apagaram com essa visão mofada do "jabá".

Hoje subornar programadores de rádio para tocar música se tornou algo tão ineficiente e pouco lucrativo, numa época em que o filão do rádio AM, inclusive as "jornadas esportivas", invade a Frequência Modulada para atender a interesses de "coronéis" eletrônicos, empresários e jornalistas tecnocráticos e, ultimamente, aos "barões" da telefonia móvel.

Se de um lado um dirigente esportivo oferece jabaculê maior para as FMs, "lavando" o dinheiro sujo e a ser rastreado pelo Imposto de Renda nas "mesas redondas" e transmissões esportivas - com toda a poluição sonora feita em botecos, postos de gasolina, portarias de prédio, táxis e até estabelecimentos comerciais - , por outro os jabazeiros musicais teriam que mexer em outras áreas.

Daí que, nos anos 90, já no calor da popularização dos ídolos neo-bregas (Raça Negra, Só Pra Contrariar, Leandro & Leonardo, Chitãozinho & Xororó, Art Popular, Beto Barbosa, Latino, Mastruz Com Leite e Chiclete Com Banana, entre outros), o primeiro processo de expansão do jabaculê brega-popularesco foi aliciar sindicatos e entidades estudantis.

Dessa forma, as "parcerias" feitas com essas entidades representativas do proletariado e do movimento estudantil, além de uma forma de amestrar potenciais militantes sócio-políticos através do respaldo tendencioso à breguice cultural, seriam também uma forma de ampliar o mercado que antes se limitava aos baixos rincões sociais dos subúrbios e roças do país.

Economizava-se o dinheiro do jabaculê radiofônico, até porque até o dinheiro da indústria fonográfica, a essas alturas, paga o salário de locutores esportivos, quanto mais a grana dos empresários de ídolos bregas e neo-bregas. Antes que o dinheiro dos empresários de brega termine nas mãos das federações regionais de futebol, outros meios de propinoduto foram considerados.

Daí que, diante dos primeiros protestos acadêmicos e jornalísticos contra a breguice reinante, os empresários de brega começaram a articular o apoio de sindicalistas e líderes estudantis pelegos, que se ascenderam por conta dessas "parcerias".

De repente, ídolos neo-bregas passaram a se apresentar em pequenos festivais realizados por diretórios estudantis das faculdades - sobretudo Medicina, a mais elitista - e por eventos patrocinados por sindicatos, sobretudo em eventos comemorativos do Dia do Trabalho.

Esses primeiros focos de suborno aumentaram o alcance da bregalização sócio-cultural, numa estratégia gradual de dominação, já consolidada com as concessões de Sarney e ACM, feitas nos anos 80, que presenteou emissoras de rádio e TV para oligarquias políticas, empresariais e latifundiárias.

Foram essas concessões - das quais a intelectualidade dominante de hoje faz vista grossa - que se desenhou um modelo coronelista de "cultura popular", que hoje prevalece às custas de um discurso forçadamente modernista e pretensamente ativista, que fala numa "ruptura de preconceitos" que, na verdade, é uma aceitação pré-concebida das coisas, algo até muito mais preconceituoso.

E tudo isso começou porque os empresários do brega-popularescos, riquíssimos e aliados dos políticos mais traiçoeiros e dos latifundiários mais vingativos, foram seduzir líderes sindicais e estudantis para um acordo financeiro que estabeleceria lucros em ambas as partes.

Com isso, além de patrocinar eventos de ídolos neo-bregas em evidência ou ascensão naqueles anos 90, líderes sindicais e estudantis promoviam peleguismo compactuando com empresários de entretenimento que são aliados do latifúndio e do patronato em geral.

Era a época das greves que, de tão banalizadas, perdiam o sentido realmente reivindicatório enquanto lideranças sindicais festejavam inexpressivos reajustes salariais. E também a época em que o ativismo estudantil se esvaziou na medida que suas entidades viraram meras "fábricas de carteirinhas". Tanto em um quanto em outro caso, o peleguismo garantia lucros e poder para seus líderes.

Esse caminho antecipou o que se esperaria depois, a intensa blindagem intelectual que iria promover como um quase monopólio a já preocupante supremacia da bregalização cultural que se via no mercado dos anos 90. E que condenou o nosso rico patrimônio cultural a um empastelamento e uma série de deturpações que acostumaram mal não só o povo, mas também as elites.
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