terça-feira, 21 de maio de 2013
INTELECTUALIDADE ETNOCÊNTRICA E SEU CONCEITO DE "VANGUARDA"
Por Alexandre Figueiredo
A intelectualidade etnocêntrica, que exerce grande influência nos "novos" paradigmas culturais do Brasil, bateu o pé. Ela quer manipular não somente o gosto médio do "povão", como também os referenciais das classes mais "esclarecidas", defendendo a "cultura de massa" por debaixo dos panos.
Foi o que vemos na intelectualidade que deu suas dicas de "atrações recomendáveis" da Virada Cultural de São Paulo, edição deste ano. A ênfase nas "recomendações" inclui nomes consagrados pelo brega, sobretudo o dos anos 90, mas que estavam "de molho" no mainstream musical dos últimos anos.
Os "recomendados" são queridinhos da intelectualidade da moda: o veterano Odair José, o axézeiro Luís Caldas, os pioneiros do sambrega Raça Negra e Leandro Lehart (ex-Art Popular), e a turma paulista que faz o cenário local de "funk carioca", ou o chamado "funk ostentação" de nomes como MC Guimé.
Aparentemente, poderiam ser dicas despretensiosas de especialistas, mas vendo o status de "superioridade" que a intelectualidade cultural dominante têm no Brasil, não muito diferente dos "urubólogos" da imprensa política e dos ministros-estrelas do Judiciário, o que se vê é claramente um processo de "dirigismo cultural", de pura manipulação do gosto não só popular, como até mesmo do gosto mais alternativo.
Pois os tais "especialistas" - a partir do exemplo "clássico" de Paulo César Araújo - exercem uma aura de "sabedoria" e oficialmente são figuras "irretocáveis", que você, caro leitor, é desencorajado a questionar. A partir desse status, que lembra os tempos em que os "urubólogos" eram mais prestigiados, tais intelectuais tentam exercer o poder de formação de opinião do chamado público médio.
DIRIGISMO CULTURAL
Com base no ditado popular "olha só quem fala", esses intelectuais esculhambam os pensadores do CPC da UNE, do ISEB, ou pessoas como José Ramos Tinhorão, acusando todos eles de "dirigismo cultural". Chegam mesmo a "urubologicamente" compará-los ao Partido Comunista norte-coreano e a acusá-los de mero patrulhamento ideológico contra a "liberdade cultural".
A tese que a intelligentzia atual, de orientação pós-tropicalista com matizes bregas, usa para justificar tais acusações é que a "cultura de massa" atual representa um "maior processo de liberdade" aliado ao pretexto da facilidade de acesso às informações atual, que faz qualquer MC Leozinho da vida virar "gênio".
Só que, por trás desse discurso "libertário", intelectuais como PC Araújo e seguidores inserem abordagens dignas do pensamento neoliberal aplicados à chamada "indústria cultural", onde a "diversidade cultural" torna-se um pretexto de sentido análogo ao de "liberdade de imprensa" e de "democracia" dados pelo jornalismo político.
Afinal, a "liberdade de expressão" da mediocridade artística do brega-popularesco ignora que arte e cultura sejam relacionadas à produção de conhecimento. A cultura popular, da forma que é vista pela grande mídia, deixou de ser a expressão do saber para ser a "expressão do não-saber", atribuindo "positivamente" às classes populares as piores qualidades, porque "é que o povo gosta e sabe fazer".
O "dirigismo cultural" travestido de "sabedoria" desses intelectuais determina que a opinião pública aceite a breguice cultural e todos os baixos valores sócio-culturais vinculados. A intelectualidade apela para a choradeira discursiva lamentando a denominação de "baixa cultura", enquanto defende de forma paternalista a breguice cultural e se anuncia como protetora e salvadora pronta a ensinar "alta cultura" aos bregas.
É um jogo paternalista e manipulação da opinião pública, e agora que a intelectualidade dominante conseguiu impor seu conceito de "verdadeira cultura popular" - baseada em visões estereotipadas do "popular" associadas ao pitoresco, ao piegas ou ao grotesco - , ela quer agora impor sua concepção do que deve ser considerado "vanguarda" no Brasil.
A "VAIA" COMO JULGAMENTO DE VALOR ÀS AVESSAS
Sempre invertendo o discurso, a intelectualidade etnocêntrica que influi na opinião pública hoje, tenta creditar genialidade em ídolos marcados por ensurdecedoras vaias do público e por comentários agressivos de uma parte da crítica musical (por sinal superestimados, porque as críticas não são tão frequentes assim).
Assim como na pseudo-MPB falsamente sofisticada de nomes como Chitãozinho & Xororó, Alexandre Pires, Belo e Zezé di Camargo & Luciano, há uma combinação ideológica do "apelo popular" midiático com a estética pomposa de imagem e de som (incluindo vestuários, arranjos musicais, publicidade, técnica, tecnologia etc), há também uma combinação ideológica envolvendo bregas "mais difíceis".
Essa combinação ideológica envolve um quase ostracismo que, combinado com o antigo "apelo popular" do auge do sucesso com as vaias do público e da crítica musical, dão aos bregas "injustiçados" uma falsa aura de "alternativos" ou "vanguardistas". Basta ser vaiado, estar há um bom tempo sem fazer sucesso estrondoso, ter um suposto apelo popular e, pronto, virou "cult", "alternativo" ou "vanguarda".
O "funk carioca" se beneficiou muito dessas lorotas discursivas. Mas também são elas que tiram nomes como Amado Batista, Luís Caldas, Leandro Lehart e Raça Negra do ostracismo, arrumando a desculpa de que eles seriam "alternativos" como uma tentativa fácil de reinseri-los no mercado, tentando atrair um público mais "cabeça" para suas plateias.
Somos tratados feito palhaços pela intelectualidade cultural dominante, que diz "não estar atrelada" à grande mídia mas comunga fielmente com seus interesses. Condenando o que entendem como "julgamentos de valor", como os questionamentos acerca da breguice dominante, esses intelectuais "divinizados" pelo meio acadêmico acabam fazendo um julgamento de valor pior do que o que atribuem aos outros.
Desse modo, as "recomendações" de atrações da Virada Cultural mostram o tom de manipulação e julgamento de valor da intelectualidade cultural dominante, o que indica a forte influência da tirania do mau gosto que o mercado e a grande mídia quer prevalecer sobre a cultura popular brasileira.
Assim, cria-se um hit-parade brasileiro camuflado de vanguardista. Usa-se o rótulo de "alternativo" e "vanguarda" para empurrar a breguice para uma plateia mais selecionada. Tudo em vão. Mas a mentira cola direitinho.
Mas daqui a pouco Luís Caldas, Raça Negra e outros aparecerão abraçados a Marcelo Madureira e Marcelo Tas tocando nas FMs "populares" controladas por "coronéis" e politiqueiros exercendo todo o poderio mercadológico em detrimento dos verdadeiros valores sócio-culturais, perdidos pela espetacularização da breguice que reduz a sociedade em fantoche da grande mídia.
segunda-feira, 20 de maio de 2013
COMO A VIRADA CULTURAL VIROU VIRADA CRIMINAL
COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: É verdade que as grandes capitais são cidades muito complexas, e que a tarefa de trazer segurança para um evento eclético e espalhado em vários lugares como a Virada Cultural de São Paulo, não é fácil. Mas isso não é desculpa para que se ocorram violências como assaltos, furtos, brigas etc. Seria preciso um melhor planejamento na segurança pública que possa estar à altura de um evento como esse, até para garantir a oportunidade do público de assistir aos eventos de graça.
Como a Virada Cultural virou Virada Criminal
Por Kiko Nogueira - Diário do Centro do Mundo
O problema de levar 4 milhões de pessoas num dia a uma região desprezada o resto do ano inteiro.
A Virada Cultural de São Paulo tinha tudo para ser algo de que os paulistanos se orgulhassem. Existe desde 2005 e é inspirada nas Nuits Blanches de Paris. Uma de suas motivações oficiais é o “renascimento do centro, que habitualmente se esvazia à noite”. Bem, não adianta enchê-lo num dia do ano e esquecê-lo pelos outros 364. A Virada tornou-se uma vitrine do horror em que se transformou a segurança pública e do abandono do centro da maior metrópole do Brasil.
O apelido “Virada Criminal” pegou. Segundo a Folha, no 3º DP, na Rua Aurora, mais de 40 pessoas esperavam atendimento numa tarde, sendo que tinha gente que estava lá desde a véspera. Eram vítimas de assaltos, brigas, furtos etc, tentando fazer um boletim de ocorrência.
Houve vários arrastões. Ao menos 25 suspeitos foram detidos.
O garoto Elias Martins Morais Neto, 19 anos, morreu com um tiro na cabeça depois de tentar recuperar o celular. O primo dele foi agredido. O assassinato ocorreu na Avenida Rio Branco, perto do 3º DP.
Um rapaz foi esfaqueado no Viaduto do Chá. Outros foram espancados. O senador Eduardo Suplicy subiu ao palco de Daniela Mercury para pedir que lhe retornassem seu celular e a carteira. “Podem ficar com o dinheiro, mas devolvam os documentos”, pediu. A carteira reapareceu. E vida que segue.
Houve a suspeita de que a PM pudesse estar fazendo corpo mole para prejudicar a prefeitura, organizadora do evento. Segundo o sargento Rodrigo Campelo, com quem falei, o arranjo não é bem esse: “Há um acerto da prefeitura com a PM para que a polícia não pegue pesado com os frequentadores. São muitos jovens e a repressão não interessa a ninguém”.
“Vi muita covardia nas ruas. O que eu vi ontem no centro está longe de ser uma evolução”, afirmou Mano Brown durante a apresentação dos Racionais MCs. Não adianta que 4 milhões ocupem o centrão durante uma noite, numa espécie de safári. Vá à Praça da República no próximo domingo de manhã. Eu estive lá com meus filhos recentemente. Não há nostalgia que sobreviva a anos de desprezo oficial.
A Virada Cultural é como uma festa numa casa abandonada, cujo dono ninguém gosta. Passadas 24 horas de shows e piadas, tudo volta ao que era antes. Até o ano que vem, quando por mais uma noite alguém se lembra do lugar – mas não para lamentar que ele esteja atirado às traças, sujo, caótico e detonado, mas para destruí-lo um pouco mais, até não sobrar nada.
VIRADA CULTURAL, DIRIGISMO INTELECTUAL E O BREGA DOS ANOS 90
Por Alexandre Figueiredo
Festivais musicais ecléticos costumam ser um balaio de gatos que vai de nomes comerciais explícitos e medíocres até outros, também comerciais, porém mais decentes, e outros mais alternativos e não-comerciais, uns excelentes, outros maçantes. Isso é compreensível, porque a natureza dos eventos é oferecer diversas opções para vários tipos de públicos.
O problema é quando o julgamento de intelectuais e celebridades "bacanas" passam a "recomendar" a mediocridade musical, a pretexto de ser "popular", como "as mais recomendáveis" para um evento do porte da Virada Cultural de São Paulo.
A edição deste ano inclui, entre várias atrações, as cantoras Gal Costa, que retoma a fase clássica de 1967-1971 divulgando o mais recente disco com músicas de Caetano Veloso, e Fafá de Belém, além de nomes como A Banca (grupo formado por remanescentes do Charlie Brown Jr.), e atrações popularescas como Odair José, Raça Negra e MC's do "funk" paulistano ("funk carioca" paulista?). Há também Wanderleia, Walter Franco, Funkadelic e outras atrações mais cultuadas.
Vendo o portal Terra e a Carta Capital, nota-se a ênfase que o jornalista do texto do primeiro, sem crédito de assinatura, e boa parte dos consultados pela revista, têm em relação a atrações brega-popularescas, já que as elites entendem essa "cultura de massa" que tanto agrada os barões da grande mídia e do mercado como foco de "rebeldia" e "superação do preconceito".
O Terra "recomenda" praticamente o brega dos anos 90, além de Odair José, o "Pat Boone brasileiro" (denominação exclusivamente deste blogue) e do "performático" do tecnobrega, Felipe Cordeiro, do Kitsch Pop Cult.
A ênfase no brega dos anos 90 está no Kaoma (grupo criado por um empresário francês mas hoje empresariado por um brasileiro detentor do nome), em Luís Caldas e no Raça Negra, nomes que representavam a mediocridade musical brasileira mas que hoje são tidos como "geniais" por conta de um saudosismo ao mesmo tempo demagógico e cabecista.
Já entre os entrevistados de Carta Capital, a ênfase está no "funk carioca" paulista (vá entender...), nota-se a presença de nomes como Eduardo Nunomura (portal Farofafá) e Alê Youssef (jornalista, político, líder do Coletivo Fora do Eixo e que desviou a bela Leandra Leal para o caminho duvidoso do gororobismo cultural), gente que faz parte daquele grupo de intelectuais, artistas e ativistas brasileiros que recebem mesada do magnata George Soros.
Youssef se lembrou de outro ídolo do sambrega, Leandro Lehart, ex-Art Popular, cantor que, ao lado do Raça Negra, virou queridinho da intelectualidade etnocêntrica. O namorado de Leandra Leal ainda recomendou Kaoma e os palcos de tecnobrega e "funk", este último também defendido por Nunomura, que veio com um discurso cabecista-militante para defender os funqueiros:
"Minha maior curiosidade será, então, acompanhar a reação do público na pista Alfredo Issa. Os principais nomes do funk paulista passarão por esse espaço, que não foi considerado "palco" pela organização do evento. MCs Dedê, Backdi, Bio G3, Nego Blue, Boy do Charme e Menor do Chapa, entre outros funkeiros, são responsáveis pelas maiores audiências do YouTube. Estão também nas danceterias ricas da cidade, onde não há repressão, e nas esquinas das periferias, onde um forte movimento de repressão policial procura criminalizá-los. No espaço midiático, em geral, é essa a versão que prevalece - o funk é baixa cultura, não vale nada. É uma relação de amor e ódio na sociedade, que desta vez ganha a força e a legitimação da Prefeitura", disse.
Até que ponto essa pregação intelectual é "válida" para estabelecer o que deve ser o "gosto vanguardista" da juventude atual é algo que rende um debate que não cabe neste texto, e deixo para as rodas universitárias. Mas, ver que a turma dos "bacanas" do Brasil está se rendendo à breguice mais escancarada é assustador. Ver que "vanguarda", no Brasil, é Raça Negra, Leandro Lehart e "funk carioca" é o cúmulo do ridículo pretensiosista.
Enquanto isso, lá fora, uma atriz do canal Disney, Debby Ryan - cuja aparência é uma síntese de Raquel Welch com Brigitte Bardot das fases começo dos anos 1960 - , sorri feliz da vida pesquisando discos de The Doors e Velvet Underground.
Fico imaginando se essas "recomendações" são o verdadeiro dirigismo intelectual que a intelectualidade etnocêntrica tentou atribuir a nós, que reprovamos a mediocrização cultural. Fazendo tais "recomendações", a pretexto de indicarem o que é "vanguarda" na música brasileira, esses "bacanas" não fazem outra coisa senão dirigismo. E vários deles bem remunerados por instituições "filantrópicas" a serviço do capitalismo internacional que patrocina a breguice brasileira junto aos barões da mídia.
domingo, 19 de maio de 2013
A "CULTURA POPULAR" DA REDE GLOBO
Por Alexandre Figueiredo
É compreensível que a intelectualidade cultural dominante do nosso país, tão "idônea" quanto os astros-juristas do STF, exalte tanto a bregalização cultural de nosso país, de uma forma doentia que acaba agravando sua aversão à MPB autêntica, em prol de um pseudo-folclore estereotipado, pasteurizado e caricato.
A geração de intelectuais que domina a opinião pública de nosso país, geralmente, é composta de gente que hoje tem entre 40 e 55 anos, descontando alguns mais jovens e outros mais velhos. No grosso, é uma geração que assistiu à televisão no período da ditadura militar.
Além disso, eles só conheceram o Centro Popular de Cultura na abordagem pejorativa determinada pelas cátedras universitárias nos anos 70 e 80, sob influência de Fernando Henrique Cardoso, o "príncipe" da intelligentzia brasileira de então. E sua noção de folclore brasileiro foi mais livresca e televisiva, e mesmo o contato presencial já era feito depois de tanta formação paternalista.
Hoje nomes como Hermano Vianna e Paulo César Araújo viraram "sagrados" mesmo com sua compreensão um tanto paternalista e etnocêntrica a respeito da cultura popular. Mas isso mostra o quanto as classes médias, detentoras de um patamar mediano e dominante de opinião e visão de mundo, ainda desconhece o que realmente é cultura popular.
O Brasil não conhece o Brasil. Os brasileiros só conhecem o Brasil pela televisão, pelo rádio e pelo jornal. A grande mídia, a cada dia, mostra uma visão bastante distorcida da realidade. E esse processo não exclui, evidentemente, a cultura, embora muitos ignorem esse detalhe.
A Rede Globo é a que mais influencia na propagação distorcida do que é, oficialmente, conhecido como "cultura popular". As Organizações Globo pegaram "emprestado" a breguice trabalhada por outros veículos midiáticos - como SBT, Record, Bandeirantes e revistas tipo Contigo e Amiga - e glamourizaram a cafonice, tirando o caráter cômico original.
Criou-se então uma visão de "cultura popular" um tanto hipócrita. O povo pobre, aos olhos das elites "esclarecidas" de nossa intelectualidade, passou a ser visto como "melhor" naquilo que ele tem de pior. A degradação de valores sociais, artísticos, culturais e econômicos foi glamourizada por um discurso paternalista que seduz pelo seu conteúdo positivista.
A apologia à miséria é feita como se o "popular" se revestisse sempre de lixo, grosseria, vulgaridade, pieguice, pitoresco, chulo, cafona, careta. Através da associação, direta ou não, da intelectualidade com a Globo, essa apologia é feita como se fosse um "processo social natural" atribuído às classes populares, uma miséria cuja "riqueza" (sic) nós "não" estamos preparados para compreender.
Essa pregação toma o inconsciente de muitas pessoas que elas acabam acreditando que esse "lixo" faz parte de uma "felicidade popular" (sic) que as pessoas "esclarecidas" são "incapazes" (?!) de compreender, o que coloca a sujeira debaixo do tapete, na medida em que as classes abastadas, inclusive a intelectualidade associada, "deposita" seus preconceitos na sua visão de cultura popular.
Assim, o "outro" vira um depósito de lixo da intelectualidade dominante, pois as classes populares - o tal "outro" - são um simbólico repertório de tudo de negativo existente na sociedade, "justificado" por essa omissão que a aceitação da breguice, ou seja, a glamourização da miséria e da degradação cultural, esconde.
A coisa é pior que se imagina. A aceitação do brega e seus símbolos e valores derivados, além de representar um preconceito social que a intelectualidade "não" consegue compreender de si, esconde a influência da ditadura midiática que o rótulo "popular" dissimula como "natural", quando na verdade é uma manipulação midiática como qualquer outra.
É o que se vê, por exemplo, na "etnografia" de fachada do Esquenta!, na espetacularização da breguice no Domingão do Faustão e no Caldeirão do Huck, entre outros espaços dentro e fora das Organizações Globo, mas sempre vinculados à ditadura midiática. Afinal, a Globo glamouriza a breguice, que se recicla na "imparcial" adesão das concorrentes.
Isso é muito ruim. Pois o que muitos entendem como "cultura popular" não passa de uma visão preconceituosa, mesmo tida como "sem preconceitos", difundida pelo poderio midiático e apoiada pelo capital estrangeiro. E muitos, boboalegremente, acham que isso nada tem a ver com a ditadura midiática. Devem ter sido abduzidos pela mesma.
AÉCIO NEVES ENCERRA CICLO PAULISTA DO PSDB
Por Alexandre Figueiredo
Com 521 dos 535 votos (índice de 97,7%) dos membros da Convenção Nacional do PSDB, foi eleito o novo presidente do partido o senador mineiro Aécio Neves, dando fim ao ciclo paulista que havia caraterizado o partido.
Aécio contou com o apoio do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e de outros líderes do partido e sucede o deputado federal Sérgio Guerra no comando do partido. Apesar de pernambucano, Sérgio Guerra ainda mantinha o caráter do partido como eminentemente paulista, já que a influência maior estava no grupo do ex-prefeito de São Paulo, José Serra, e do governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin.
Como de praxe, Aécio pediu aos colegas, num recado que ele talvez deseja dos demais partidos parceiros do PSDB, a união oposicionista contra o Governo Federal. A nova posição indica a ascensão política do ex-governador de Minas Gerais, abrindo caminho para sua candidatura para 2014.
Numa crise que fez o PSDB, DEM e PPS, os três partidos do chamado "demotucanato", perderem vários integrantes e filiados, e que fez este último se fundir com um outro partido menor, PMN, se transformando no PMD, a vitória de Aécio mostra uma mudança de posição no PSDB.
Até então, a prioridade estava quase sempre em reservar o comando do partido a Geraldo Alckmin ou José Serra, tendo Fernando Henrique Cardoso liderando nos bastidores, quando muito se comportando como o "cérebro" do partido.
Agora, com Aécio na presidência, o PSDB parece mudar sua estratégia política depois que José Serra perdeu as eleições presidenciais e Geraldo Alckmin foi desmoralizado depois da violência policial que ele promoveu para expulsar os moradores do extinto bairro de Pinheirinho, em São José dos Campos.
A grande mídia tenta dar a impressão de que todos os líderes do PSDB estão unidos e solidários. Mas, nos bastidores, nota-se um clima de desconforto entre o senador mineiro e Serra e Alckmin. Há também um desconforto entre estes dois com o fato de Fernando Henrique Cardoso, o carioca radicado em São Paulo, ter preferido apostar em Aécio e não em José Serra.
O PSDB, portanto, entra em nova fase sem reparar tais arestas incômodas. O tucanato terá à sua frente a habilidade de ao menos esconder tais divergências e entrar no jogo oposicionista tentando dar algum recado ao eleitorado, se é que tem algum, já que o PSDB, que se autoproclamava de "centro-esquerda", hoje integra a direita urbana e reacionária do país.
O problema é que Aécio tem fama de fanfarrão e há quem jure que o vídeo que aparece na Internet com um homem bêbado entrando num bar é o próprio tucano. Alguns até chegam a perguntar se Aécio será uma versão galântica de Jânio Quadros, em que pese o mineiro ser neto de outro político da época do antigo presidente de curto mandato.
A grande mídia terá que fazer seu jogo de cintura para tentar criar uma imagem "moderna" e "eficiente" do ex-governador mineiro.
sábado, 18 de maio de 2013
MINISTÉRIO PÚBLICO INVESTIGA BONDE DAS MARAVILHAS
Por Alexandre Figueiredo
Uma das "sensações" do "funk carioca", o grupo feminino Bonde das Maravilhas - do sucesso "Treinamento de Bumbum", pivô de uma boataria da imprensa sensacionalista envolvendo o ex-beatle Paul McCartney - , é alvo de investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro.
A ação foi movida depois de uma denúncia do Conselho Tutelar da cidade de São Fidélis, no Norte Fluminense, de que o grupo estaria violando artigos do Estatuto da Criança e do Adolescente, durante uma apresentação na cidade.
A denúncia destaca que o grupo tem três integrantes menores de idade e o grupo descumpre os artigos 17 e 18 do estatuto, que garantem a crianças e adolescentes o direito de preservação de imagem e a proibição de que suas imagens sejam exploradas de qualquer forma em espetáculos e produções em vídeo, principalmente divulgadas pela Internet.
A denúncia também atenta para o conteúdo pornográfico das letras e da coreografia feita pelas integrantes, e, segundo prevê o estatuto, como as três integrantes menores estão fora da escola, seus pais poderão ser criminalmente responsabilizados pela infração.
A denúncia foi feita depois da reclamação dos moradores da cidade, por conta do barulho e das letras que fazem apologia ao sexo. Esnobe, o empresário do grupo, Henrique Milão, disse que as denúncias vieram de gente "incomodada com o sucesso das meninas" e promete que o grupo lançará músicas "dedicadas às crianças", como "Abecedário das Maravilhas" e "Ginástica das Maravilhas".
Baixaria pouca é bobagem.
A "PANELA" DA INTELECTUALIDADE CULTURAL
Por Alexandre Figueiredo
Ando lendo o livro Quem Tem Um Sonho Não Dança, de Guilherme Bryan, que fala sobre os movimentos culturais dos anos 80. Entre tantas coisas, é relatado o problema da revista Bizz, que se tornou uma "panelinha" de críticos que só elogiavam bandas desconhecidas e formavam bandas "difíceis" de rock paulistano.
É claro que esse pessoal tem muita gente boa, como a dupla Cadão Volpato e Thomas Pappon, que formou o maravilhoso grupo Fellini, mas a queixa comum era que eles exaltavam bandas que os leitores não conheciam e quase não tinham chance de conhecer. Até porque não havia Internet e muito menos um YouTube que pode lhe mostrar uma nova banda da Croácia sem que você saia de sua casa no Brasil.
E nessa época a revolução das rádios alternativas de 1982-1985 começava a descaminhar por um caminho convencional, com a adesão oportunista de rádios supostamente "roqueiras" que na verdade eram emissoras de pop dançante ou de brega que mal alteravam sua orientação, se limitando a colocar uns poucos produtores "especializados" e um vitrolão "roqueiro" pré-estabelecido pelas gravadoras.
Portanto, conhecer bandas novas era muito difícil na época, enquanto jornalistas, músicos e radialistas detinham o privilégio de saberem eles mesmos as bandas seminais de rock alternativo. E não se fala de coisas manjadas como Pavement, Weezer e Flaming Lips, mas de nomes como Telescopes, Looper, Mercury Rev e outros.
Em lugares mais provincianos, havia engodos radiofônicos como a rádio 96 FM, de Salvador (Bahia), controlada por um "coronel" de Guanambi, do interior baiano, em parceria com empreiteiros da capital, que seguiam a mesma orientação ideológica da rádio paulista 89 FM que, sabemos, tem DNA malufista. E, para essas rádios, "alternativo" mal chegava a ser um 4-Non Blondes ou um Jesus Jones da vida. Lamentável.
Nessa era pré-Internet em que a Fluminense FM de Niterói recebeu chacotas do mercado por não contar com um departamento comercial forte, mesmo tocando preciosidades alternativas como Weather Prophets, a cultura alternativa estava privada do grande público.
Em contrapartida, a paulista 89 (atual UOL 89 FM), com seus donos nascidos no berço de ouro malufista da ditadura militar e bem relacionados com os grandes anunciantes, sobreviveu até hoje como "rádio rock" (descontando um hiato de seis anos), mas não tem coragem de tocar sequer o mais comezinho dos verdadeiros clássicos e dos alternativos autênticos da cultura rock.
Daí a "panelinha" dos críticos da Bizz, na verdade um monte de "panelinhas" na qual prevaleceu justamente a pior, aquela que detonou os anos 80, jogou a cultura alternativa no limbo e preferiram vestir a camisa de flanela do grunge para promover uma caricata "cultura alternativa" dos anos 90. Vide André Forastieri, Carlos Eduardo Miranda, Camilo Rocha e outros da "mais poderosa" das "panelinhas".
AO GRANDE PÚBLICO, RESERVA-SE O PIOR
A geração Bizz dos anos 90 era pior do que a geração dos anos 80 na mesma revista porque esta, pelo menos, transmitia muita informação, mostrava artistas e tendências interessantes da música brasileira e internacional, procurava trazer novas expressões musicais para o público médio poder apreciar.
Na geração 90, comandada por André Forastieri, não houve isso. Pelo contrário, iniciou-se a radicalização da "cultura de massa" mesmo quando há o pretexto "alternativo", que se restringiu ao grunge, ao noise rock e outras tendências mais simplórias. Enquanto isso, jornalistas tornavam-se privilegiados por uma bagagem de conhecimentos que nem os mais alternativos no Brasil poderiam ter fácil acesso.
E isso se passou, uma década depois, para a música brasileira. A "panela" intelectual tornou-se outra, mas era influenciada pela Ilustrada e pela Bizz dos anos 90, exaltando a "cultura de massa" como referencial do que eles desejam que o povo pobre consuma.
Daí as "divindades": Paulo César Araújo, Hermano Vianna etc. Todos sacerdotes de uma "religião do mau gosto", empurrando a breguice musical para o grande público, privando este da apreciação, ao menos prioritária, da música de qualidade.
Eles adotam pontos de vista aparentemente generosos, que apenas glamourizam a miséria e a ignorância populares, criando argumentos surreais para defesa da mediocridade e da imbecilização cultural, como se isso fosse inerente às classes populares. Visões preconceituosas de gente "sem preconceitos", como se vê.
Mas eles querem apenas é proteger os seus privilégios de classe "esclarecida", sabedora dos segredos culturais que em outros tempos até as classes pobres e a classe média baixa poderiam conhecer. Mas hoje, dentro do contexto da ditadura midiática, a intelectualidade defende a "cultura" brega e outros tipos de mediocridade, para que o grande público se distraia com o lixo cultural empurrado pela mídia e pelo mercado.
sexta-feira, 17 de maio de 2013
AGRAVA-SE ESTADO DE SAÚDE DE ROBERTO CIVITA
COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: O empresário do Grupo Abril estaria sofrendo, há vários meses, sérios problemas de saúde, agravados diante das pressões que recebeu das críticas a várias de suas publicações (sobretudo a revista Veja) e pela sua convocação para depor na hoje finada CPI do Cachoeira. A grande mídia faz sigilo sobre a doença de Civita, que administrava, até pouco tempo atrás, o Grupo Abril desde 1990, ano da morte de seu pai e fundador do grupo, Victor Civita.
Agrava-se estado de saúde de Roberto Civita
Do portal Brasil 247
Presidente afastado do Conselho de Administração do Grupo Abril tem piora em seu quadro de saúde; Roberto Civita está internado no hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, sob regime de divulgação restrita de informações; editores da revista Veja se reuniram na tarde de hoje para discutir o modo mais adequado de transmitir as notícias a respeito do quadro clínico do empresário
17 de Maio de 2013 às 06:31
247 – O estado de saúde do empresário Roberto Civita, de 76 anos, presidente afastado do Conselho de Administração do Grupo Abril, registrou uma piora nas últimas horas. Ele está internado no hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, sob regime de divulgação restrita de informações.
Na tarde desta quinta-feira 16, editores da revista Veja fizeram uma reunião de pauta extraordinária para decidir a melhor maneira de dar uma ampla cobertura sobre a situação do empresário.
No mês passado, Roberto Civita passou o comando do Grupo Abril para seu filho Giancarlo. Internado, ele considerou que não teria condições, neste momento, de seguir à frente da organização que edita, entre outras publicações, Veja, a revista de maior circulação do País.
MORRE O GENOCIDA VIDELA NA CADEIA
COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Um dos principais generais que comandaram a ditadura militar na Argentina, Jorge Rafael Videla, que presidiu o país de 1976 e 1981, faleceu aos 87 anos enquanto dormia, na madrugada de hoje. Cumprindo prisão perpétua pela violação de direitos humanos, Videla também foi condenado pela morte de oito mil pessoas durante seu governo, várias delas desaparecidas, que teriam sido opositoras à ditadura argentina.
Morre o genocida Videla na cadeia, na Argentina, enquanto nossos torturadores e assassinos passeiam sua impunidade
Por Antônio Mello - Blog do Mello
Morreu esta madrugada na cadeia na Argentina, onde estava condenado à prisão perpétua e mais 50 anos (vá entender essas determinações judiciais... Vão colocar o caixão de Videla na cadeia pelos próximos 50 anos?), o ditador (porque a patente de general do Exército lhe foi retirada por crimes de lesa humanidade) Jorge Rafael Videla, primeiro capo da sangrenta ditadura militar argentina [leia mais aqui].
Enquanto isso, aqui no Brasil, ainda estamos engatinhando (pois sempre estivemos de cócoras) com a importantíssima Comissão da Verdade, que, em boa hora, a presidenta Dilma - tão calada sobre o assunto - resolveu dar apoio mais consistente.
É o primeiro passo para que um dia levemos à Justiça os criminosos que, aproveitando-se da quebra da Constituição, sequestraram, torturaram, mataram inúmeros brasileiros e, até hoje, escondem seus crimes, passeiam sua impunidade como se fossem inocentes vovozinhos - quando têm as mãos sujas de sangue.
A morte de Vilela na cadeia soma-se à Ley de Medios como duas invejas/metas que temos do povo argentino.
Essa é a verdadeira Copa que temos que ganhar.
SOBRE NOVAS E VELHAS MÍDIAS
COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: O texto questiona a valorização excessiva das novas mídias digitais, considerando também que os meios de comunicação tradicionais também têm um poder auxiliar de difundir os movimentos sociais. É por isso que as forças progressistas defendem a regulação da mídia, como forma de transformar os meios de comunicação não só pelas tecnologias digitais, mas pelo processo social e profissional de comunicação.
Sobre novas e velhas mídias
Por Alexandre Haubrich - Blogue Jornalismo B
Seguindo a ideia de definir quem somos, levanto aqui no Jornalismo B mais uma questão a ser debatida: o conceito de velha e de nova mídia. Nesse caso, mais do que colocar-nos em uma dessas definições, o importante é diferenciar duas formas de encarar essa questão. Uma delas é tecnológica, a outra é política.
o-velho-e-o-novo
A definição tecnológica trata como velha mídia os chamadas meios tradicionais, especialmente os impressos, mas também televisão e rádio. E chama de nova mídia a internet, especificamente blogs e redes sociais. Esse tipo de definição carrega problemas políticos que constroem a perspectiva de limitação da apropriação da mídia pelo povo. Isso porque o adjetivo velha, especialmente quando confrontado diretamente com a ideia de nova, carrega forte carga negativa, como algo superado, que já não serve mais. Essa noção é um erro.
Abrir mão dos velhos espaços de comunicação enfraquece a mídia popular, esvazia a luta pela democratização dos meios de comunicação e nos mantém em uma situação marginal em relação aos conglomerados de mídia, já que o poder da tecnologia de jogar para a margem os grandes grupos de comunicação é relativamente menor em comparação com o poder político e econômico de que esses grupos dispõem para manter-nos marginalizados.
Se a nova mídia é a internet e podemos descartar ou superar a velha mídia, então nossa função política é apenas a de ocupar os espaços de web. Essa sentença é contraproducente. É preciso criar a consciência de que ocupar a internet não é suficiente. As ruas, os muros e o papel continuam sendo fundamentais para a propagação de informações, assim como a televisão e o rádio. A importância e o potencial da internet não anulam nem reduzem a necessidade de democratizar a comunicação em todos os seus espaços. A internet pode, sim, ser mais um caminho para que possamos retomar os espaços públicos de difusão – espectro de TV e rádio, por exemplo – para quem tem direito sobre eles – o povo.
Por tudo isso, a distinção política entre os conceitos de velha / nova mídia está mais adequada às necessidades da mídia contra-hegemônica e das lutas populares. A partir dessa perspectiva, velha diz-se também daquela mídia que está aí há tempos e que precisa ser descartada, mas não no sentido tecnológico e sim no sentido político: a mídia das velhas oligarquias, que precisa ser substituída por uma nova mídia em ascensão, do povo.
Essa velha mídia, com um velho discurso elitista e excludente, é sustentáculo também de uma velha sociedade, que também deve ser superada e substituída por uma nova. Essa velha mídia, porém, não está apenas em velhas plataformas, está também – e com muita força – na internet, e ali permanecerá e construirá a manutenção de sua hegemonia se o problema estrutural do abuso econômico e político dos conglomerados de comunicação não for enfrentado.
Não é a internet quem vai construir a transformação. São as pessoas, apropriando-se de todas as ferramentas disponíveis para isso – inclusive a internet. São as pessoas que precisam mudar, é o homem novo que precisa ser construído, e, a partir dele e com ele, uma nova mídia. Agindo sobre essas bases conceituais teremos mais capacidade de entender quem somos e o papel que podemos cumprir enquanto construtores dessa nova mídia e, com ela, de uma nova sociedade.
quinta-feira, 16 de maio de 2013
A POLÊMICA DE ANGELINA JOLIE E AS "POLÊMICAS" DAS "BOAZUDAS"
Por Alexandre Figueiredo
Recentemente, os noticiários divulgaram a repercussão de um artigo escrito pela atriz e produtora Angelina Jolie, considerada uma das maiores celebridades do mundo ao lado de seu noivo Brad Pitt (os dois ainda estão para oficializar a união de muitos anos e vários filhos, biológicos e adotivos), que afirmou que ela fez mastectomia dupla, uma cirurgia para retirar os seios como prevenção para o risco de câncer de mama.
Angelina realizou a cirurgia encorajada pelo fato de que ela havia perdido a mãe, a também atriz e produtora Marcheline Bertrand (ex-mulher de Jon Voight, pai de Angelina), que faleceu de câncer no ovário em 2007, aos 57 anos incompletos, e a avó, morta aos 45 anos. "Não existe muita longevidade na minha família materna", declarou Angelina.
A medida da atriz, que retirou os seios e os reconstituiu depois em cirurgia, causou polêmica na medida em que alguns especialistas em cirurgia de retirada de seios afirmarem que o ato de Angelina foi precipitado, porque aparentemente não havia risco dela sofrer imediatamente um tumor nos seios. Mesmo assim, o ato foi considerado corajoso, reafirmando a boa reputação que a atriz possui, não só pelo seu talento, mas por sua personalidade forte e determinada.
Angelina Jolie é também considerada pelo seu ativismo social, controverso mediante o fato dela ser também uma das atrizes mais bem pagas de Hollywood que faz alguns duvidarem de sua militância filantrópica. Mas talvez, a meu ver, essa militância possa ser sincera, já que Angelina parece ser suficientemente emancipada e sincera para se promover com causas enganosas.
A polêmica de Angelina, portanto, é uma forma da atriz promover, corajosamente, um debate em torno do tratamento de câncer, doença que atinge as vidas de muitas mulheres, ceifando essas vidas ainda precocemente (geralmente na casa dos 40 aos 60, mas às vezes não poupando as mais jovens) e isso faz com que Angelina Jolie seja um nome a considerar na luta feminista pela qualidade de vida das mulheres.
"BOAZUDAS" EM SITUAÇÕES VEXAMINOSAS
Antes disso, tivemos, por outro lado, dois casos infelizes, de musas ditas "populares" que só são consideradas "feministas" na imaginação fértil da nossa "irretocável" intelectualidade que, "coitadinha", não pode ser comparada aos ministros-astros do Supremo Tribunal Federal que vivem uma relação incestuosa com a grande mídia. Elas haviam se envolvido em situações vexaminosas a respeito de seus supostos casos amorosos.
Primeiro, foi a ex-dançarina do ídolo brega Latino e ex-vice Miss Bumbum, Andressa Urach - aquela que ficou feliz por ver um mosquito pousando em seus glúteos - , que na sua "turnê" pelo exterior para se promover como "musa sexy internacional", resolveu escrever nas redes sociais que tinha um caso de amor com o jogador português Cristiano Ronaldo.
Ao saber da boataria, o craque do clube espanhol Real Madrid e capitão da seleção portuguesa de futebol, também namorado da modelo Irina Shaik, ficou irritado. Imediatamente, desmentiu que teria tido um romance com a "popozuda", e decidiu entrar em processo judicial contra a moça, mediante falso testemunho. Esnobe, Andressa gracejou quando foi informada que seria processada pelo artilheiro, em mensagem escrita nas redes sociais.
Segundo, foi a vez de Nicole Bahls se envolver em mais um incidente, semanas depois de ter se envolvido na confusão causada pelo diretor de teatro Gerald Thomas, que a agarrou em plena cerimônia de lançamento de seu livro, numa livraria lotada de gente, fato que fez as esquerdas médias e cordeirinhas apostarem num maniqueísmo em que Gerald era um "machista selvagem" (o que, de fato, era) e Nicole Bahls era a "feminista indefesa" (o que, de fato, não era).
Diante do rumor de que Nicole estaria namorando o filho do ex-casal de atores Cláudia Raia e Edson Celulari, o adolescente Enzo Celulari, a atriz, no ar como a vilã Lívia da novela Salve Jorge, fez uma entrevista ao jornal O Globo na qual disse, a respeito do contato de Enzo com Nicole Bahls:
"Eu acho que ele está na hora de brincar disso. As paniquetes são as nossas chacretes de hoje em dia, são as mulheres da vez, são as gostosas que eles acham incríveis, então por que não sair com uma pessoa como ela? E Enzo é lindo, é filho da gente (dela e de Edson Celulari), é músico, é um gostoso, é normal que as pessoas achem ele incrível".
Cláudia teria dito também que não vê possibilidade de Enzo namorar Nicole Bahls, acrescentando que acha que "nem ele pensa (nisso). Ele tem outras prioridades na vida dele, é consciencioso. Super se diverte, mas dá o limite na hora certa, sempre foi assim".
Nicole não gostou das declarações, chegando a chorar uma vez. Viu ironia nos comentários aparentemente simpáticos de Cláudia. Nicole não gostou de ter sido chamada de "brinquedo sexual" e de "chacrete", e no seu perfil oficial do Twitter escreveu comentários esquisitos, em mensagens posteriormente apagadas, mas não sem antes de serem gravadas pela imprensa e amplamente divulgadas.
"O risco não é mulher com perfil chacrete (risos), é menino com 'carrinha' (sic) de paquito. kkkkkk. Acordaaa", diz o texto, aqui adaptado do internetês. Num outro comentário, Nicole citou um suposto "gay" querendo "pagar de gala" nas costas dela, dando a crer que ela teria chamado Enzo Celulari de "homossexual".
MORAL DA HISTÓRIA - As "admiráveis" mulheres que "mostram demais" seus corpos acabam sendo marcadas por suas piores qualidades. Intelectualmente vazias, limitadas na exibição gratuita de seus corpos, elas mostram que sua crise se agrava, na medida em que, quando elas mostram algo além de seus corpos siliconados e anabolizados, cometem gafes intermináveis. E elas nada têm de divertidas ou polêmicas, porque ninguém se dá bem mostrando o pior de si.
Daí que o pior da exploração feminina não está nos comerciais de TV e nem na obsessão com a boa forma e o bom vestuário das revistas femininas da grande mídia. Está, sim, nas musas "populares" que mostram que não são mais do que meros brinquedos sexuais de adolescentes frustrados e, quando querem ser vistas como algo além disso, se atrapalham sem parar.
Enquanto isso, lá fora, Angelina Jolie faz polêmica, sem perder a dignidade e a elegância.
quarta-feira, 15 de maio de 2013
O "PAPO-CABEÇA" DE HOJE NÃO CANSA?
Por Alexandre Figueiredo
São muitas as saudades dos tempos em que as vanguardas culturais viam no brega uma grande piada. Assimilava-se elementos bregas como uma forma cômica de fortalecer o caráter lúdico da arte, numa atitude com um quê de teatral e circense, num astral que envolve recreio e farra.
Nos últimos anos, porém, levou-se o brega e seus derivados a sério demais. A música brega, em todas as suas vertentes, incluindo o "funk carioca", virou um universo de palhaços dos quais a gente não pode rir. A desculpa mais comum é que eles estão "batalhando" por aquilo que entendem como "um lugar ao Sol da MPB".
Junta-se a isso a alegação de que "tudo é MPB". Até peido de mulher-fruta é "verdadeira MPB", "MPB com P maiúsculo", como denomina cinicamente a intelectualidade etnocêntrica. E toda a campanha retórica para promover a música brega, de Waldick Soriano a MC Federado e Os Lelekes, passando por É O Tchan, Leandro Lehart, Zezé di Camargo & Luciano, Banda Calypso etc, é bastante conhecida.
Só que esse arsenal discursivo, que envolve reportagens, resenhas, artigos, documentários, monografias e o que vier de formas textuais, está tomado de um "cabecismo" muito maçante e choroso, sempre definindo os ídolos "populares" como supostos injustiçados, numa choradeira discursiva que estaria cansando, mas que insiste em ser veiculada sob aplausos submissos das plateias associadas.
MASTURBAÇÃO INTELECTUAL
O "funk carioca" é sintomático. A choradeira em torno do gênero, que promove seus ídolos como supostas "vítimas de preconceito", é tomada de uma verdadeira masturbação intelectual, que associa o "funk" a referenciais que nada têm a ver com o gênero, mas que provém de pretensas comparações casuais vindas da imaginação fértil de nossa intelligentzia.
São julgamentos de valor intelectualoides que, sendo eles "positivos", não são vistos como julgamentos de valor. Como sua finalidade é encomiástica (ou seja, elogiosa), o julgamento de valor da intelectualidade é visto como "visão objetiva", por mais delirantes que sejam as comparações e as alusões.
O que o "funk carioca" tem a ver com punk rock, com o movimento Pop Art, com a Revolta de Canudos, com a Semana de Arte Moderna, com Woodstock, Revolução Cubana, Contracultura etc? Nada. É apenas um ritmo dançante feito para mera diversão de jovens suburbanos e acabou. Culturalmente, é tão oco quanto o twist e o hully-gully, ritmos que marcaram a juventude no começo dos anos 60.
Só que, quando veio a Contracultura, ninguém foi dizer que o twist era um movimento de protesto juvenil, e olha que naqueles anos em que Chubby Checker fazia sucesso, havia uma forte movimentação estudantil e um forte ativismo negro, impulsionado sobretudo pelos movimentos de independência política nos países africanos. Havia a "primavera africana" em 1960 e 1961. "1968" também começou nesses anos.
Mas ninguém atribuiu o twist a esse cenário, e olha que ele surgiu de uma dança africana. Da mesma forma, ninguém passou a Contracultura tentando associar a elas cantores como Pat Boone, Ricky Nelson e Bobby Darin. E olha que Pat Boone, como apresentador de TV, tentou entrevistar o psicodélico Syd Barrett (então líder do Pink Floyd) e Bobby Darin morreu sob as mesmas "guloseimas" dos psicodélicos.
Aqui, porém, um Odair José, o nosso Pat Boone, foi tido como o "Bob Dylan da Central", só faltando ser apelidado de "Lou Reed da Baixada". E foi incluído na versão brasileira da coletânea Nuggets, originalmente dedicada ao psicodelismo. E só faltou também inventar que Waldick Soriano, na verdade tão conservador quanto Richard Nixon, "lutou" na Revolução Cubana antes de gravar o primeiro disco.
O "funk carioca" se alimenta de factoides, boatos, falsas comparações, para se autopromover. É um gênero que se apropria de toda e qualquer estratégia de marketing, e que havia enganado as esquerdas pelo falso viés progressista do ritmo carioca, que no entanto estabelece, em contrapartida, fortes e sólidas alianças com veículos da grande mídia, do porte da Rede Globo e Folha de São Paulo.
Daí as mentiras, daí as meias-verdades. Se um funqueiro espirra, vai o antropólogo de plantão dizer que ele sofre o drama da opressão urbana. Dentro de um universo de falsos ativistas, falsas solteiras, falsos esquerdistas, o "funk carioca" mente e leva às últimas consequências toda a verborragia que a intelectualidade dominante usa em todas as tendências originárias ou derivadas da música brega.
CABECISMO
É um discurso choroso que não difere muito da banalização acadêmica do discurso cepecista dos anos 70. Se o Cinema Novo dos anos 60 era acusado de promover a glamourização da pobreza, a discurseira do brega-popularesco de hoje leva essa glamourização às últimas consequências com um teor paternalista maior e pior do que aquele atribuído à intelectualidade esquerdista dos anos 50 e 60.
O que é, por exemplo, a ideologia da "cultura" brega, evocando prostíbulos, bares decadentes com idosos mergulhados na embriaguez, o subemprego do comércio informal e contrabandista, o cafajestismo do machista pobre, o trabalho infantil, senão a glamourização da pobreza popular?
Os cinemanovistas, pelo menos, pareciam esconder, nessa suposta glamourização, alguma denúncia social. Se havia algum charme em ser subdesenvolvido, ele não era total, porque havia um debate sério por trás. Os Centros Populares de Cultura da UNE foram tidos como "ideológicos" e "dirigistas", mas sua trajetória foi curta demais para ignorarmos um debate que só estava começando e foi interrompido de vez pela ditadura.
Já a apologia ao brega glamouriza demais. E de forma bastante aberrante, embora as esquerdas médias tentem fazer vista grossa com tudo isso. A intelectualidade exalta a degradação sócio-cultural do povo pobre, numa apreciação hipócrita da "cultura do outro", enquanto prega o assistencialismo das classes médias como pretensa solução para essa "admirável" degradação.
Com isso, cria-se uma cosmética cheia de valores etnocêntricos das classes "esclarecidas" que "socorrem" o cafona da ocasião, maquiando-o para parecer um desses nomes pasteurizados da MPB, desfilando ao lado de um medalhão da MPB autêntica e do Rock Brasil esbanjando paternalismo. As elites degradam socialmente as classes pobres, usurpam sua cultura e depois as "socorrem" com seu paternalismo.
E tudo isso feito com argumentações confusas, apelos chorosos de "reconhecimento" a essa pseudo-cultura, num pretenso cabecismo capaz de transformar meros listões da rádio Nativa FM em delírios militantes, sociológicos e antropológicos em que, se preciso, até Itamar Assumpção e Emiliano Zapata podem ser us(urp)ados "in memoriam" para defender tchans, créus, tchu-tchás e lelekes.
Tudo num cabecismo pior do que nos tempos dos hippies nas faculdades brasileiras dos anos 70. Pior do que toda a verborragia acadêmica na moda na época, cheia de palavreado. Hoje temos monografias que exaltam a breguice, unindo todo o discurso "científico" à choradeira pró-brega. E muitas vezes nem discurso "científico" existe, vide os textos dos professores da UFBA, Milton Moura e Roberto Albergaria.
E se a MPB pasteurizada aborrecia com suas letras de amores mal-resolvidos e exaltações piegas da natureza, o brega deveria aborrecer ainda mais com suas postiças letras de amores traídos e exaltações piegas das periferias. Talvez pelo apelo paternalista que conforta e tranquiliza as elites, o brega não costuma aborrecer seus arautos.
Mas deveria. É um discurso maçante, de qualquer forma. Pior do que a MPB pasteurizada e os delírios intelectuais, sindicais e hippies dos anos 70, incluindo todo o cabecismo e o patrulhamento a eles vinculados, é a breguice que já é pasteurizada desde o começo, e todo o arsenal intelectual em prol dessa breguice é um discurso não menos rebuscado e não menos maçante.
Daí o tedioso "papo-cabeça" que há dez anos se faz com o "funk carioca", depois do sucesso que esse mesmo discurso maçante em prol dos "bregas de raiz" e similares. E muita gente continua aplaudindo tudo isso sem entender coisa alguma.
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