quinta-feira, 24 de abril de 2014

MÍDIA E INTELECTUAIS FORÇARAM REVOLTA DAS PERIFERIAS?

ÔNIBUS QUEIMADOS DURANTE REVOLTA EM CARAMUJO, EM NITERÓI (RJ). AO LADO, CONCESSIONÁRIA QUE SERVIU DE REFÚGIO DE MORADORES E TRANSEUNTES DURANTE O INCIDENTE.

Por Alexandre Figueiredo

Dias atrás, houve tiroteio de policiais e traficantes na frente de uma casa noturna onde ocorria um "baile funk", em Caramujo, Niterói, que causou a morte de dois jovens inocentes vítimas de balas perdidas, causando uma revolta popular que resultou em ônibus e veículos queimados e uma confusão que fez muita gente correr para se abrigar numa concessionária.

Em Salvador, um grupo de assaltantes, revoltado por não achar dinheiro num estabelecimento comercial no Largo dos Mares - no caminho entre a Calçada e a Península de Itapagipe (onde fica a Ribeira e o Bonfim, com sua famosa igreja) - , provocou um incêndio no local. Antes, durante uma greve de policiais, a capital baiana viveu um surto de assaltos, vandalismo e assassinatos.

No Rio de Janeiro, o fechamento de um trecho da Av. Brasil para a conclusão de obras de um viaduto para BRTs propiciou uma série de brigas e conflitos entre favelados. A região envolvida inclui os complexos do Alemão e da Maré, cujo surto de criminalidade e violência é comparável ao terrorismo que acontece nos países do Oriente Médio, como o Iraque, por exemplo.

Mas, também no Rio de Janeiro, o admirado bairro de Copacabana teve um trágico incidente numa favela vizinha ao bairro, também situada junto à Lagoa Rodrigo de Freitas. Em circunstâncias ainda não esclarecidas, o dançarino Douglas, do programa Esquenta!, da Rede Globo, foi encontrado morto causando uma violenta revolta que se seguiu a um tiroteio que matou outro inocente.

Em São Paulo, um grupo de revoltosos invadiu uma garagem de ônibus e provocou o incêndio que atingiu nada menos que 35 veículos, numa cidade em que favelas são incendiadas supostamente em nome da especulação imobiliária e a atuação do PCC, grupo criminoso local, já chamou a atenção do país por sua periculosidade.

O que está havendo com as periferias? Aquela Disneylândia  suburbana de sonho e fantasia, embora cercada de construções precárias, ruas mal asfaltadas (quando assim são), lixo no chão e pessoas maltrapilhas e até desdentadas, só existe na imaginação de intelectuais e barões da mídia que, a pretexto de defenderem o povo, difundem essa visão ilusória que nada ajuda.

Pelo contrário, o que se vê é que, de tanto se falar em periferias, o que acontece é que as periferias dos sonhos da intelligentzia - embora tais fantasias tenham recebido a roupagem "científica" e "etnográfica" de monografias e documentários - deram lugar ao pesadelo das elites, inclusive a própria intelectualidade "bacana", que é a revolta sem controle das comunidades pobres.

Não se trata da periferia de pobretões sorridentes e quase debiloides que o discurso intelectual, mesmo travestido da mais pura objetividade, cortejava em seus produtos informativos ou acadêmicos, mas de um povo que, abandonado pelas autoridades, sem uma cultura que não aquela imposta pela mídia e que tornou-se sua única opção de entretenimento, faz sua revolta à sua maneira.

São atos até extremos, como queimar ônibus, saquear lojas, depredar agências bancárias e cometer assassinatos que mostram que o grito dos pobres nada tem a ver com a "agressividade" domesticada e estereotipada do "funk". E mostram o quanto existe uma classe abandonada por políticos e intelectuais que há muito fazem promessas que em nenhum momento são realmente cumpridas.

Na volta de um dia de praia em Piratininga, eu mesmo pude ver, na altura do Viradouro, em Niterói, duas faveladas se puxando pelos cabelos, numa briga grotesca em plena rua, num bairro onde morei nos anos 80 e que, desde os anos 90, tornou-se uma área bastante perigosa. Bairros como Viradouro e Santa Isabel, este em São Gonçalo, viraram terra de ninguém.

A intelectualidade "bacana" e "boazinha", que acha que está promovendo ativismo social passando a mão nas cabeças do povo pobre, sem saber de fato seus verdadeiros problemas, só fez expor as classes populares para a opinião pública. Discutir se este é um aspecto positivo ou negativo é controverso, mas a situação de abandono das comunidades pobres de certo modo se evidenciou.

O povo pobre já não tem a sua cultura, aquela com vínculos comunitários, porque ela foi usurpada pelas classes médias altas de formação acadêmica, depois que se rompeu o diálogo e o debate do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes.

Hoje "cultura do povo pobre" passou a ser aquela ditada por rádios e TVs controladas por grupos oligárquicos, que manipulam desejos e necessidades corrompendo as classes populares às custas de produtos culturais confusos, de qualidade duvidosa, que nada trazem de valores, conhecimentos ou qualquer coisa que promova o progresso social das classes populares.

Tudo virou um pálido consumo. O povo pobre virou escravo dessa "indústria cultural" que não lhes traz cidadania, não melhora suas vidas, e que só promove o envaidecimento paternalista de intelectuais supostamente progressistas que não passam de colaboradores free lancer dos barões da mídia, por mais que insistam em vender seus pontos de vista em veículos como Carta Capital, Caros Amigo, Fórum e Brasil de Fato.

O povo pobre quer melhorias de vida e a intelectualidade perdendo tempo fazendo glamourização da ignorância, da miséria e da pobreza, prendendo o povo nas favelas e impedindo as prostitutas de optarem por empregos melhores.

É um discurso intelectual que junta o modismo trash e o politicamente correto, ambos importados dos EUA da Era Ronald Reagan, e que no Brasil ganhou roupagem falsamente progressista, que limitava as melhorias de vida das classes populares ao consumismo brega, à expressão do mau gosto e à permanência da ignorância.

O povo pobre virava um espetáculo para o deleite de intelectuais burgueses. A intelectualidade dominante dizia que "a pobreza é linda", "a ignorância é sagrada", falava de uma "pureza" da miséria popular que tranquilizava a todos. Insistiam no papo de "romper os preconceitos", mas se limitavam apenas a aceitar a pobreza, com todos seus símbolos e personagens, em vez de resolvê-la.

Só que aí as classes populares mostram seus gritos. Nada daquela glamourização da pobreza do brega, daquela "pobreza linda de se ver" com suas favelas idealizadas como "paisagens de consumo e admiração". E tudo dos atos extremos e desesperados, da revolta sem controle que mostra o caos das cidades, o pesadelo que desfaz a "periferia dos sonhos" como se desfazem castelos de areia.

São ônibus queimados, assaltos, saques, depredações, tiroteios. O crime organizado torna-se opção para jovens pobres que não conseguem emprego e não tem sequer escola para aprender valores éticos nem habilidades profissionais ou conhecimentos diversos. Os serviços de saúde, precários, matam muitos pacientes pelo descaso, pela desorganização e até por falta de higiene.

Essa explosão de revolta envolve desde a Baixada Fluminense até cidades como Florianópolis, uma cidade de estigma "europeizado" mas que possui uma periferia não muito diferente da que representam Nova Iguaçu, o Complexo da Maré ou o subúrbio ferroviário de Salvador. E que também tem suas explosões de revolta intensa, com seus atos violentos e desesperados.

Portanto, isso é uma situação para se pensar. A doce periferia da "pobreza linda de se ver", difundida pela grande mídia e por intelectuais "independentes" mas a serviço "informal" dos chefões midiáticos, se desfaz nos noticiários que, de tão fortes, estão longe de serem noticiosos, até porque não são os "urubólogos" que os divulgam, mas a prole de repórteres de visão mais objetiva e que eles mesmos não refletem necessariamente as opiniões dos seus patrões.

São notícias graves, duras e preocupantes, que não cabem nas monografias montadas em quartos refrigerados dos "etnógrafos de boutique" que lotam plateias com suas palestras de sonho e fantasia. São duras demais para a fantasia dos programas de auditório da TV aberta e realistas demais para o apetite sensacionalista dos telejornais policialescos.

O grito de revolta das periferias não tem a ver com a revolta domesticada do "funk". Tem a ver com o descontentamento com tudo, com o descaso das autoridades, com a demagogia do poder midiático, com os abusos policiais, com o paternalismo intelectual, que até agora não transformaram as periferias em áreas dignas para o desenvolvimento da cidadania e da qualidade de vida.

E isso é apenas o começo. E já chama a atenção dos noticiários estrangeiros. A situação pode complicar ainda mais, e não será uma intelectualidade organizada e articulada, com seus delírios pseudo-modernistas e pseudo-ativistas, que irá divulgar uma visão dócil e meiga das periferias do recreio brega, da "pobreza linda de se ver" e da "miséria alegre e animada".

Na vida real, as periferias explodem com a raiva popular contra um histórico de desprezo e exploração que o povo pobre sofre há décadas. É o desespero que toma conta das ruas e que desafia a tudo e a todos, o que irá sugerir a ruptura dos verdadeiros preconceitos, que são a demagogia e o paternalismo que ainda veem a pobreza ora como "algo sem importância", ora como "coisa linda de se ver".

quarta-feira, 23 de abril de 2014

IRMÃOS MARINHO DÃO UMA AJUDINHA PARA A RÁDIO CIDADE


Por Alexandre Figueiredo

Nos anos 90, era muito comum, na era da supremacia quase absoluta da grande mídia, haver reportagens sobre rádio feitas sob o ponto de vista dos gerentes artísticos, por sua vez, representantes dos interesses dos seus patrões, donos das rádios. Conceitos e fórmulas eram distorcidos, mas o que prevalecia era a visão oficial, sempre exaltada nas reportagens.

Se alguém reclamava, em carta para um jornal ou revista, por que, por exemplo, tal rádio deturpava algum conceito ou por que ela tomou o lugar de uma emissora considerada genial, a tendência era o editor da seção de cartas jogar a missiva no lixo, com o mais cômodo desdém.

Com o crescimento da Internet e, sobretudo, da blogosfera, as queixas que antes iam para as cestas de lixo na forma de cartas rasgadas deram lugar a comentários registrados em fóruns virtuais e blogues que permanecem no ar durante anos e causam repercussão que antes era evitada pelas redações da imprensa escrita.

Por outro lado, decaíram as reportagens sobre rádio que mais cheiravam a peças publicitárias e sempre seguiam o ponto de vista de donos e gerentes de rádio, mesmo quando ouvintes, celebridades e estatísticos eram entrevistados. A péssima repercussão nos comentários da Internet fazia a diferença.

Mas isso não impede que, volta e meia, apareçam reportagens desse tipo, com um claro ranço jabazeiro e marqueteiro. É o que se viu no Segundo Caderno de O Globo, na edição de 20 de abril de 2014, intitulada "Rádio Cidade, o regresso nas ondas do rock", em que o velho estilão de "reportagem de mesa de negócios".

Tendo como principal entrevistado o gerente artístico Alexandre Hovoruski - conhecido por produzir CDs de pop dançante da Jovem Pan 2 - , a reportagem, escrita por Sílvio Essinger e com box de Bernardo Araújo, até admite que a Rádio Cidade prioriza o "rock de 1990 e 2000", mas exagera na "militância da rádio pelo rock".

Primeiro, porque a Rádio Cidade de 1995-2006 e da atual fase nunca foi mais que um vitrolão roqueiro. Não é uma rádio de rock no sentido de personalidade, de estado de espírito e muito menos de atitude.

Isso é tão certo que, na sua volta, o que se viu foram roqueiros estereotipados, tanto nas festas de relançamento da rádio quanto nas peças publicitárias, neste caso com criancinhas com linguinha de fora e fazendo sinal de demônio com as mãos. Ou então os rapagões tatuados por todo o corpo nas festas de comemoração, num contexto em que até MC Guimê tem o corpo todo tatuado.

"ROCK MAIS NOVO" É EUFEMISMO PARA HIT-PARADE

Evidentemente, mesmo com o avanço da Internet, os espaços de debates sobre rádio ainda estão muito conservadores. Os sítios sobre rádio ainda seguem o ponto de vista dos donos de rádio, e exaltam qualquer novidade que vier, até desestimulando qualquer questionamento. Se uma rádio histórica sai do ar, há aquelas "lágrimas de crocodilo" e depois ninguém mais discute.

Daí que prevaleceu o ponto de vista favorável ao da Rádio Cidade e a eventual reação de quem não gosta de ver a emissora sendo questionada. Afinal, a Cidade FM comete uma série de contradições e erros desde que encanou em ser "rádio de rock" e perseguir um carisma igual ao da antiga Fluminense FM, sem ter a vocação nem competência para tal.

Diante dessa complicada situação, a Rádio Cidade arrumou uma desculpa para tamanhos equívocos, que envolvem sobretudo um padrão de locução incompatível para rádios que querem se firmar no segmento roqueiro e mais próximos de uma Mix FM ou Jovem Pan 2: dizer que "prioriza o rock mais novo".

Essa desculpa, aparentemente, livra a Rádio Cidade de certas responsabilidades, e permite que seus adeptos, embora se autoproclamem "adeptos do rock", esculhambem os clássicos do rock. No fundo, dão um tiro no pé, porque músicos de bandas tocadas pela Cidade, como Foo Fighters, Pearl Jam, Green Day, Oasis e Metallica, se relacionam bem com os antigos músicos de rock.

Além disso, para quem não sabe, um dos grupos recentes tocados pela Cidade, o inglês Muse, é liderado por Matt Bellamy, ninguém menos que o filho de George Bellamy, ex-guitarrista de uma banda da pré-Beatlemania, os Tornados.

Os Tornados (não confundir com o estadunidense Tornadoes, que estava na trilha do filme Pulp Fiction) fizeram sucesso em 1962 e 1963 com músicas como "Telstar" e "Robot", que pelo uso do órgão anteciparam por duas décadas o tecnopop britânico de grupos como New Order e Depeche Mode.

Esse impasse, ignorado pelos profissionais e adeptos da Cidade - que agora sofrem a "inócua" concorrência com a Kiss FM, esta priorizando o rock mais antigo - , também se agrava na medida em que, no caso do rock mais contemporâneo, a divulgação se resuma a grandes sucessos e canções de trabalho, a ponto de, por exemplo, a Cidade (assim como a paulista 89 FM) ignorarem a existência do Beady Eye, banda formada por ex-integrantes do Oasis após a saída de Noel Gallagher.

Por isso, o que se ouve na Cidade são os mesmos sucessos de Foo Fighters, Oasis, Pearl Jam etc junto às bandas comerciais como Guns N'Roses, grupos medianos nacionais do porte de CPM 22, medalhões do Rock Brasil e tendências como nu metal e poppy punk, dentro de uma perspectiva que claramente barra o acesso a artistas realmente alternativos.

Pouco adiantam as desculpas do tipo "a Cidade quer ousar mais, mas são os interesses comerciais", ou "até que está bom demais, quem não gostou, que vá ouvir MP3", porque são desculpas similares que fazem a televisão aberta cair em audiência, atrasar salários por meses e jogar funcionários no olho da rua, à própria sorte.

BRASIL 2000 DE 1990 E FLUMINENSE FM DE 1986 É QUE PRIORIZAVAM ROCK MAIS NOVO

Mas compreendamos. Num contexto em que até "funk" é considerado genial e um nome pouco expressivo como Rick Astley chega ao Brasil como se fosse coisa do outro mundo, sem falar que agora Michael Sullivan é "gênio da MPB" e daqui a pouco até o Big Brother Brasil erá tido como "clássico da TV brasileira", dá para perceber por que a 89 FM e a Rádio Cidade andam bastante exaltadas.

É certo que o sucesso das duas emissoras é superestimado, porque na verdade a audiência nem está tão imensa assim e a adesão de roqueiros autênticos (independente do tipo de rock que apreciam, se antigo ou novo) é praticamente nula, mas a visão dominante é de que as duas rádios são "geniais", "revolucionárias" e voltaram "em excelente momento".

Paciência. No país da "pensadora Valesca Popozuda", qualquer coisa é "genial", só são deploráveis os realmente geniais. Que se condenem não apenas João Goulart, mas também Chico Buarque, Fluminense FM, TV Excelsior, Método Paulo Freire, Sylvia Telles e Leila Diniz para o limbo. O "máximo" hoje é "lepo lepo", "beijinho no ombro", Rádio Cidade e 89 FM "roqueiras" e ponto final.

Só que o que poucos observam é que essa desculpa de "rock mais novo" faria sentido mais verdadeiro se fosse não o estilo "Jovem Pan 2 com guitarras" adotado pela 89 e Cidade, mas os trabalhos feitos pela Fluminense FM, de Niterói, em 1986, e pela rádio Brasil 2000 FM, de São Paulo, em 1990.

O contraponto que a mídia equivocadamente atribui entre a Cidade e a Kiss FM no Rio de Janeiro era realmente cumprido, em 1990, pela Brasil 2000 e pela 97 FM, no dial paulistano. Se bem que a Kiss FM, em São Paulo e no Rio de Janeiro (com outorga de São Gonçalo e jeitão de FM niteroiense), demonstra ser a única esforçada na cobertura do rock em geral.

Tanto na Fluminense FM de 1986 quanto na Brasil 2000 de 1990 havia espaço para grupos realmente alternativos, inclusive lançados por selos independentes. A Fluminense até radicalizava, tocando nomes que, embora bastante geniais e expressivos na história do rock, não foram lançados até hoje pelas gravadoras, como Monochrome Set, Teardrop Explodes e Weather Prophets.

CONTEXTO DA MÍDIA CONSERVADORA

Para um mercado radiofônico que acha Rick Astley coisa do outro mundo, é muito estranho que até hoje, por exemplo, uma banda como Buzzcocks, uma das mais importantes da história do punk rock, nunca teve uma divulgação regular em rádio, mesmo com sua música "I Believe" transformada numa versão bem local da banda baiana Camisa de Vênus, intitulada "O Adventista" de grande sucesso.

É um grande absurdo que queixas assim possam ser rebatidas, com senso de "superioridade", por internautas que explicam qualquer limitação ou deslize de emissoras FM com os tais "interesses comerciais" e que, numa atitude kamikaze, "aconselham" os descontentes a migrarem para o MP3 e para o You Tube.

Fazer o quê? O rádio FM está bastante conservador, e muitas FMs no ar no eixo Rio-São Paulo são dignas das mais coronelistas FMs do interior do Nordeste. E mesmo emissoras como Cidade e 89 FM não estão fora do contexto da mídia conservadora que trata um Luciano Huck como se fosse ganhador do Prêmio Nobel da Paz.

O Brasil da Cidade e da 89 FM é o mesmo do Big Brother Brasil, do "lepo lepo", do "beijinho no ombro", de Merval Pereira, de Rachel Sheherazade, de Marco Feliciano, de Jair Bolsonaro, dos ônibus queimados, da corrupção estatal. Não é um Brasil que se considere realmente progressista, promissor, de cabeça erguida, mas um país que opta entre a cabeça baixa e a cara feia.

A própria ajudinha das Organizações Globo na referida reportagem de O Globo, dentro de uma linha editorial que trata Merval Pereira e Rodrigo Constantino como "intelectuais de alta reputação", não tira a Cidade desse contexto de tendenciosismo midiático em que o jabaculê se torna quase uma generosidade entre "mídias amigas".

Por isso as pessoas que exaltam a Cidade e a 89 vivem no seu mundinho de fantasia. Fora dele, as FMs comerciais, os jornalões, as revistonas reaças, a TV aberta, perdem público e credibilidade. Ora, num Brasil de pilhas de Veja encalhadas e Jornal Nacional cada vez menos visto, alguém acreditaria mesmo que multidões de roqueiros iriam dar ouvidos às duvidosas Cidade e 89 FM?

terça-feira, 22 de abril de 2014

"FUNK" E A ADESÃO DE CELEBRIDADES... COM CACHÊ


Por Alexandre Figueiredo

O "funk" é cultura de pobre? Claro que não. Sabemos que tal constatação faz a intelectualidade "bacana" choramingar de tristeza, nos acusando de "preconceituosos", "moralistas", nos situando em patrulhas elitistas de 1910, atribuindo a nós como fósseis de uma campanha discriminatória do começo do século passado, como resíduos aristocráticos do Segundo Império etc.

No entanto, é o que realmente acontece. O "funk" construiu todo um aparente consenso de boa parte da opinião pública porque seus empresários são bastante ricos, possuem um habilidoso esquema de marketing e, espertos, passaram a depender menos do jabaculê radiofônico e mais de outras formas de aliciamento, que envolvem até acadêmicos e celebridades.

No último fim de semana, o portal Ego noticiou um "baile funk" para as elites - promovido pela Favorita e realizado na Zona Sul carioca - , reunindo atores e atrizes em boa parte solteiros, em evidência nas colunas sociais e em processo de ascensão na carreira profissional.

E os empresários de "funk", como os de "sertanejo", "pagode romântico" e axé-music, estabelecem até acordos comerciais engenhosos para atrair a adesão de celebridades, mediante cachês e compromissos contratuais.

Claro, a ideia é passar uma imagem, geralmente falsa, de que o ator ou atriz de novela, na maioria das vezes emergentes ou em ascensão na carreira, estão se "divertindo" em "bailes funk", como em micaretas, vaquejadas e outros eventos. São atores geralmente formadores de opinião e de gosto do público juvenil, daí a escolha deles para tais eventos.

E como é que se dão esses compromissos contratuais? Simples. A escolha de atores em ascensão, geralmente sem experiência como protagonistas em novelas e com visibilidade mediana para os padrões de estrelas do horário nobre da TV Globo, é estratégica para os empresários do entretenimento brega-popularesco, que fazem até ameaças se o ator ou atriz não aderir ao esquema.

Por isso, para o ator tal virar garoto-propaganda de uma grande rede de cursos de inglês e figurar no primeiro time do elenco da nova novela das nove, ele terá que ir para o Carnaval baiano abraçado a Bell Marques ou cantando o sucesso do Psirico, Parangolé ou o que vier. E, no Rio, deverá ir a um "baile funk" e fazer comentários "sociológicos" em favor do ritmo.

A atriz, então, precisa dançar, se rebolar, se esbaldar, se ela quiser ser atriz de primeira grandeza. Se é trio elétrico, palco "sertanejo", "baile funk" ou o que vier, terá que aderir, se quiser estrear um bom papel no horário nobre e até fazer comerciais de marcas de cosméticos, entre outros produtos bastante conhecidos e consumidos.

Caso atores e atrizes emergentes não aceitem esses eventos "culturais", eles simplesmente perdem todo o direito a papéis importantes e campanhas publicitárias, e os executivos de TV estão autorizados pelos empresários do entretenimento brega de promover tais atores e atrizes como "pessoas difíceis" e dificultar até a migração deles da Globo para a Record, por exemplo.

O mercado é esse mesmo, e Samara Felippo, uma das atrizes que estava no "baile funk" da Favorita, já havia revelado, mesmo sem querer, esse esquema de ir a tais eventos mediante cachê. O telespectador incauto pensa que está vendo grandes admiradores do "funk" e outros ritmos popularescos, adere e não imagina que tudo não passa de uma armação profissional.

O show business tem dessas coisas. O problema é que nem a mídia progressista denuncia em larga escala. Eles só falam quando atores e atrizes se engajam contra projetos tipo transposição do Rio São Francisco ou a Hidrelétrica de Belo Monte. Aí revelam casos de cachês e tudo o mais. Mas se são os "bailes funk", micaretas e vaquejadas, é um silêncio sorridente. Triste postura.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

DR. JEKYLL E MR. KERTÈSZ


Por Alexandre Figueiredo

Dizem que as opiniões de Mário Kertèsz na Rádio Metrópole FM, de Salvador, não correspondem necessariamente às opiniões do dono da rádio. Pode parecer uma constatação séria, mas é uma piada, se levarmos em conta que Mário é o próprio dono da rádio.

A ditadura midiática tem suas armadilhas. Volta e meia algum oportunista quer se parecer por "transparente" ou "progressista", e cabe desconfiar muito quando um filhote da ditadura, como Mário Kertèsz, afilhado político de Antônio Carlos Magalhães e lançado pelo temível partido ARENA, na ditadura militar, tenta assumir essa postura.

Ainda falta um livro para descrever a atuação de Mário Kertèsz na destruição do Jornal da Bahia. Seus fundadores, Teixeira Gomes e João Falcão (este já falecido) foram condescendentes com Mário mesmo quando este demonstrou sua fúria decisiva ao destruir, como interventor nomeado por Magalhães, o que o Jornal da Bahia tinha de mais sagrado: sua alma, seu espírito editorial.

Mário fez, com muito gosto, o Jornal da Bahia virar um tabloide sensacionalista, policialesco e pornográfico da pior espécie. E não fez apenas para "salvar financeiramente" o jornal, como consta nas visões oficiais. Mário realizou aquilo que ACM, seu padrinho e ocasional desafeto - embora Kertèsz tenha no final se revelado admirador de ACM, com a morte deste - , tentou fazer e não pôde.

Hoje Mário age como se fosse o proprietário maior do pensamento progressista na Bahia. Se passando por um "contraponto" para os herdeiros de ACM na Rede Bahia e para o populismo "cristão" da Rádio Sociedade / TV Itapoan personificado por Raimundo Varela, Kertèsz tentou "comprar" o apoio de socialites e socialistas locais para seu pequeno império midiático.

Este império foi até relativamente maior. Com o desvio de dinheiro público que seria destinado a obras urbanas de grande porte em Salvador, o então prefeito Mário Kertèsz, junto com seu comparsa Roberto Pinho - mais tarde envolvido no "mensalão" de Marcos Valério (até perguntamos se Kertèsz também não foi beneficiário do "valerioduto") - , usou dinheiro para as contas pessoais dos dois.

Kertèsz comprou três rádios - Rádio Clube de Salvador AM, Rádio Cidade FM e Rádio Itaparica FM - ações na TV Bandeirantes de Salvador e foi nomeado por Antônio Carlos Magalhães interventor do Jornal da Bahia. Tinha um império midiático em suas mãos e era cotado para ser candidato ao governo da Bahia, em 1990, até que investigações da imprensa quebraram o sonho político dele.

A cada escândalo, Kertèsz teve que desfazer de parte de seu patrimônio. Chegou a ser apresentador do programa Jogo Aberto, da TV Bandeirantes. Em 2000, chegou a ficar apenas com a Rádio Clube e a Rádio Cidade, transformadas em duas transmissoras da Rádio Metrópole, AM e FM. Atualmente, abriu uma editora para publicar a revista Metrópole, além de ter um portal de Internet.

Kertèsz segue o perfil do jornalista conservador que, quando a conveniência permite, posa de "progressista". Tenta dar a impressão de que é o oposto do que realmente é: tendencioso, machista, bajulador, pedante, reacionário. No seu programa de rádio, ele tenta ser o oposto de tais qualidades, se passando por acolhedor de uma diversidade de opiniões, desde que a palavra final ficasse com ele.

As esquerdas baianas se iludiram muito com ele, apesar do evidente pano-de-fundo político ligado à ditadura militar, uma postura que, tudo indica, já veio desde a juventude em 1964, quando Kertèsz teria sido anti-Jango. O astro-rei da Rádio Metrópole - a rádio vive do "culto de personalidade" ao seu dono - chegou a ser locutor de campanhas eleitorais do PT.

No entanto, Kertèsz é instável. Num dia, ele é o "radiojornalista corajoso", "amigo" das forças progressistas, "amigo" das causas sindicais e até feministas, "aliado" das esquerdas baianas. Mesmo sua voz oscilante entre um tom falsamente empostado de locutor chique e a voz quase ébria de um gerente de botequim, parece ainda cativar seus partidários.

Noutro dia, porém, Kertèsz deixa a máscara cair e torna-se o reacionário furioso a fazer ataques violentos às esquerdas, num conservadorismo doentio de arrepiar até os editores de Veja. E que surpreendeu até mesmo os esquerdistas baianos Emiliano José e Oldack Miranda, antes condescendentes com Kertèsz e duramente atacados por ele no ar, para todo o Estado da Bahia.

Infeliz de quem quiser ser jornalista na Rádio Metrópole, na revista e no portal, porque, salvo se for beneficiado pela alta visibilidade, seu trabalho será deturpado e manipulado a bel prazer pelas conveniências da empresa.

Como na história de Dr. Jekyll e Mr. Ride, o "médico e o monstro" da obra de Robert Louis Stevenson, Kertèsz é muito instável para ser incluído na mídia progressista. Pelo contrário. Ele mais parece um Bóris Casoy mais "tabarel" ("provinciano", segundo a gíria baiana) que às vezes pensa ser o Mino Carta, evidentemente sem ter a consciência social do editor de Carta Capital.

Kertèsz já enfrentou escândalos políticos atacando desafetos, e já teve suspensas por um dia as transmissões da Rádio Metrópole, devido a um processo judicial. O astro-rei da Rádio Metrópole ainda tem "gatos" (energia elétrica "pirata") em sua residência e os sinais da emissora encontram vários espectros no dial FM de Salvador e dizem que interferem até em sinais nos aeroportos.

Portanto, caros baianos. Se vocês esperam alguma mídia progressista de verdade, evitem a Rádio Metrópole, a revista Metrópole (de distribuição tendenciosamente gratuita) e seu portal de Internet. "Dom Mário Corleone" é um lobo em pele de cordeiro, um pseudo-jornalista ultraconservador sob verniz progressista, cujas raízes históricas se situam na ditadura militar.

domingo, 20 de abril de 2014

MICHAEL SULLIVAN E A "BREGUESIA" DA MPB


Por Alexandre Figueiredo

Tornou-se um mito, espalhado de forma epidêmica pela intelectualidade "bacaninha", que o brega sofria o tal "preconceito" das elites. Mas o brega, de Waldick Soriano a MC Guimê, nunca teve uma rejeição rigorosa das elites, sendo na verdade um grande blefe desses intelectuais festejados.

Eles nem conseguem explicar direito se quem rejeita o brega é mesmo uma maioria ou uma minoria. E não conseguem explicar se as madames aceitam ou não o brega. E toda essa choradeira, na verdade, se dá por conta de uns dois ou três críticos musicais ou acadêmicos que realmente se manifestam contra as breguices que fazem sucesso nas rádios e TVs.

As elites sempre aceitaram o brega. Hoje temos Valesca Popozuda no São Paulo Fashion Week, mas ontem tivemos Waldick Soriano tocando em casas noturnas chiques e tendo um caso com a socialite Béki Klabin. Os mais ricos condomínios hoje tocam "sertanejo", axé-music, "funk" e forró-brega, enquanto as zonas mais respeitáveis das roças evitam tudo isso e tocam música caipira de verdade.

Hoje as elites que julgam "entenderem tudo" de MPB estão aceitando até o bregalhão Michael Sullivan como "gênio injustiçado da MPB". Agora músicas constrangedoras como "Deslizes", "Talismã" e "Um Dia de Domingo" são "clássicos da MPB". A repentina adesão "espontânea" das elites ao repertório de Sullivan & Massadas representa, todavia, mais um problema para nossa cultura.

MICHAEL SULLIVAN FOI UM DOS CHEFÕES MUSICAIS APOIADOS PELAS ORGANIZAÇÕES GLOBO.

NEM AS ELITES CONSEGUEM ENTENDER O QUE É MESMO MPB

Afinal, esse "reconhecimento" das elites a Michael Sullivan nem de longe pode ser um reconhecimento justo a um artista menosprezado, mas, na verdade, um reflexo de como a impunidade se reflete também no âmbito cultural.

Michael Sullivan quis destruir a MPB, de acordo com denúncias divulgadas por Alceu Valença que, mesmo sem dizer nomes, deu as informações que encaixam perfeitamente no esquema jabazeiro comandado por Sullivan e Miguel Plopschi quando eram produtores executivos na antiga RCA, nos anos 80.

Segundo Alceu, o esquema de Michael Sullivan tinha como propósito enfraquecer artistas do porte de Alceu, Chico Buarque e até Fafá de Belém para botar "novos talentos" no lugar, mais submissos à indústria de canções comerciais de Sullivan e Paulo Massadas.

É estarrecedor que hoje Michael Sullivan volte abraçado por uma elite supostamente sofisticada, porém paternalista, que agora acolhe o que as empregadas domésticas ouviram nas emissoras de rádio controladas por oligarquias político-empresariais apadrinhadas por José Sarney e Antônio Carlos Magalhães.

Michael Sullivan estava a serviço de multinacionais, era patrocinado pela Rede Globo, tinha interesses puramente mercantilistas. Mas hoje ele, esperto como um político em campanha, aparece abraçado a Sérgio Ricardo, Fernanda Takai, Roberta Sá, Os Cariocas e Arnaldo Antunes, naquele mesmo esquema de "morde e assopra".

Vá ele apoiar Sérgio Ricardo nos anos 80. Impossível. Sérgio, que nunca teve o devido espaço de divulgação na mídia, teria que fazer arremedos de baladas soul, pasteurizar os arranjos com excesso de sintetizadores e gravar as rimas pobres criadas por Sullivan e Massadas e que a plateia de incautos pensa ser "clássicos da MPB".

MPB NÃO É COUVERT ARTÍSTICO

Talvez essa adesão das elites "esclarecidas" a Michael Sullivan se deva à sua noção equivocada sobre o que é MPB. Se temos uma corrente que acha que "verdadeira MPB" é todo aquele que lota plateias com facilidade, podendo ser até "mulher-fruta" do "funk", há outra que fala na "boa MPB" de crooners de restaurante, que fazem o tão conhecido couvert artístico.

É uma elite com maior poder aquisitivo e maior capacidade de digerir cultura, mas que prefere ser a burguesia brega e esnobe, um brega-chique de uma "breguesia" que se acha convencida e entendedora de tudo, mas que só quer saber da "boa música" que reconstitua aquele clima consumista dos restaurantes e boates.

Paciência. Poucas pessoas realmente ouvem música neste país. As pessoas ficam bebendo, lavando carros, conversando com amigos, jogando baralho, ninguém fica parado para realmente escutar música. E mesmo gente com nível superior nem tem noção exata do que é boa música, do que é uma boa poesia, sua noção sobre Música e Literatura é vinculada ao que há de banal na TV aberta.

E fala-se de um público mais abastado, dito "esclarecido". Que vai no Facebook e, feliz da vida, vai recomendar uma música de Michael Sullivan - para não dizer outras breguices; já começam a empurrar, por exemplo, Alexandre Pires e Zezé di Camargo & Luciano - para outros membros da comunidade sobre MPB.

Isso mostra o quanto está a cultura de nosso país. E que é uma herança da ditadura militar e seus efeitos diretos ou indiretos. Ou mesmo da influência dos EUA da Era Reagan que pauperizou os estadunidenses e, introduzido no Brasil nos anos 80, gerou toda a breguice que eclodiu nos anos 90 e que hoje nossas elites "tão cultas" acham o máximo de "requinte e sofisticação".

É bastante perigoso. Afinal, Michael Sullivan é um compositor medíocre, um cantor de terceira categoria, mas que agora recebe um tratamento vip como se fosse o "novo Tom Jobim". É preocupante, vide sua trajetória perversa de empastelar a MPB e promover a decadência gradual de nossos maiores artistas.

Querer que Michael Sullivan seja o "cavaleiro da Esperança" da MPB autêntica é apostar na memória curta e deixar que um sujeito que quis acabar com a MPB se aproprie de sua recuperação. É como deixar o galinheiro aos cuidados de uma raposa, o que trará um prejuízo certo à nossa MPB autêntica, sem espaços, sem grande público e, ainda assim, à mercê de oportunistas como Sullivan.

sábado, 19 de abril de 2014

BREGA FORÇA A BARRA AO TENTAR SE ASSOCIAR A ALTERNATIVOS

ANDERSON (GRUPO MOLEJO), LUIZ CARLOS (RAÇA NEGRA) E COMPADRE WASHINGTON (É O TCHAN) - Mercado força a barra para empurrar bregas ao público alternativo.

Por Alexandre Figueiredo

O jabaculê do brega-popularesco não encontra limites. Ele já não vai mais pelo caminho tradicional de subornar radialistas e vai muito longe, tentando empurrar seus ídolos goela abaixo para o público alternativo, querendo conquistar públicos mais conceituados "na marra".

O exemplo de Odair José foi um dos primeiros casos, mas pelo menos era verossímil, pela roupagem "roqueira" que, bem ou mal, tinha ele, com seu visual "psicodélico" banalizado. No fundo ele sempre esteve próximo do conservadorismo de um Pat Boone, mas ainda fazia algum sentido, por pior que seja, na tentativa de empurrar Odair José para o público alternativo.

Já o "funk", o "pagode romântico" e o "pagodão baiano", não. São ritmos que vão fundo ao grotesco e representam o oposto de tudo aquilo que o público de cultura alternativa acredita. Mas foram beneficiados por uma blindagem intelectual patrocinada pelo mercado e pelos barões da grande mídia - apesar da infiltração nos meios progressistas - e seu discurso bastante confuso e persuasivo.

E aí o resultado é esse: tributo "indie" do Raça Negra, camisetinha do Molejo com estética dos Ramones e agora uma montagem que junta a voz do Morrissey em "This Charming Man", dos Smiths, com samples do É O Tchan e da Banda Eva.

Para piorar, as três iniciativas são lançadas como "sérias". Quando muito, "seriamente divertidas", das quais "não" se recomenda qualquer gargalhada. Em outras palavras, nem mesmo as duas últimas medidas, a do Molejo e a do É O Tchan (esta por iniciativa do DJ Bertazi), podem ser vistas como piadas. Tudo é "cultura séria", como prega a intelectualidade "bacana" do nosso país.

Isso se torna o ponto extremo de toda a medida desesperada dos empresários de brega-popularesco em querer ampliar público e mercado de seus ídolos da bregalização. Não medem escrúpulos em comprar o apoio de sindicalistas a professores de pós-graduação, numa estratégia de jabaculê cada vez mais requintada, para compensar a péssima qualidade musical de seus clientes.

Isso é muito grave, porque se torna uma atitude bastante demagógica. Enquanto os defensores da música brega e seus ritmos derivados reclamam da falta de espaços e da intolerância contra eles, eles querem ocupar os espaços dos outros e não toleram a existência de espaços em que eles não possam invadir e criar reservas de mercado.

Nos EUA, o pop comercial possui suas próprias reservas de mercado, seus próprios espaços e, se ele quer tomar os espaços dos outros, é através de mercados de outros países. Mas pelo menos isso ocorre sempre dentro de um contexto de comercialismo e mercado hit-parade, ninguém vai ficar bancando o vanguardista e invadir na marra mercados que não são de sua afinidade.

Já no Brasil a música brega-popularesca (ou Música de Cabresto Brasileira), o nosso hit-parade, não se contenta em manter um mercado que já é hegemônico o suficiente para seus ídolos. Daí que, nos últimos dez anos, seus empresários recorreram a uma campanha que teve o apoio de universidades públicas a veículos de mídia como a Rede Globo e a revista Caras, em busca de mais mercados.

A coisa é tão grave que hoje não temos mais cenário de MPB autêntica em boa parte das regiões brasileiras. E quase não temos mais artistas populares com a visceralidade de Jackson do Pandeiro, Cartola e Luiz Gonzaga, ou a modernidade de um Jorge Veiga ou Miltinho.

Enquanto isso, o que nos resta de sambas, baiões, modinhas nas lembranças do grande público estão associados mais a especialistas, memorialistas e apreciadores de elite. O nosso rico patrimônio cultural brasileiro virou coisa de museue e de mansões.

A MPB autêntica que ainda resiste é quase toda de artistas idosos. E, se nas artes cênicas, vemos um José Wilker morrer de repente aos 67 anos incompletos, é sinal que a coisa está grave. E, para piorar, nem mesmo os cenários de cultura alternativa têm direito a uma expressão livre da breguice, pois se até as maiores aberrações da cafonice cultural tentam invadir seus redutos.

Parece aquela coisa da Margareth Thatcher: "Não existe alternativa". E Morrissey não gostava da falecida premier britânica. Da mesma forma, o cantor inglês também não gostaria do que um DJ brasileiro fez com sua voz, misturada com É O Tchan.

Mas o É O Tchan já se encontra dentro dos parâmetros sócio-culturais sonhados por Margareth Thatcher e Ronald Reagan, os artífices da "década perdida" dos anos 80 britânico-estadunidenses, que serviram de fonte para os "longos anos 90" que até agora não terminaram no Brasil. Com toda sua breguice hegemônica e próxima ao monopólio.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

RIO DE JANEIRO VIROU ESTADO ULTRACONSERVADOR?


Por Alexandre Figueiredo

Analisando as mídias sociais e comunidades diversas sobre cultura, mobilidade urbana, rádio, televisão e futebol, uma constatação pode vir à tona: o Rio de Janeiro está virando um Estado muito conservador.

É no Rio de Janeiro que há uma quantidade expressiva e preocupante de internautas que se contenta com o "estabelecido", tem uma defesa apaixonada e até intransigente da mediocridade sócio-cultural, e reage muitas vezes de forma agressiva e até violenta contra quem discorda de seus pontos de vista "pragmáticos".

O Rio de Janeiro sofre com uma política que estabeleceu relações promíscuas com a contravenção, nos anos 80, e o paramilitarismo, nos últimos anos, e tem uma mídia que segue uma orientação ainda mais conservadora que a de São Paulo, já bastante conservador.

São Paulo, porém, pelo menos possui um público expressivo de forças progressistas e uma opinião pública mais questionadora, já que pessoas assim são minoria no Rio de Janeiro. São Paulo tem seus "urubólogos", mas lá é sede do primeiro grupo de mídia progressista organizado, o Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé.

Já no Rio de Janeiro o conservadorismo que contagia até um público "roqueiro", adepto da Rádio Cidade, se expressa de tal forma que é capaz de deixar até Carlos Lacerda de queixo caído, se ele vivo fosse, lá pelos seus 100 anos de idade. Ou que deixaria até Lobão, o roqueiro vertido à direita mais convicta e reaça, mais perplexo.

O reacionarismo também faz o fã-clube de Ali Kamel, Merval Pereira e Jair Bolsonaro e até mesmo no sistema de ônibus já surgiu busólogo de extrema-direita, defendendo o fardamento das empresas de ônibus (pintura padronizada) e apoiando Eduardo Paes e Sérgio Cabral Filho em tudo que eles decidiam sem qualquer consulta à população.

Mas há também os chamados "futebosteiros", fanáticos intolerantes de futebol, que chegam a fazer bullying contra quem não aprecia o esporte e ainda reclama das gritarias que os torcedores fazem durante as partidas esportivas, mesmo as realizadas à noite. E há os fanáticos do Jornal Nacional, Caldeirão do Huck, Domingão do Faustão, Globo Esporte e até do Big Brother Brasil.

Na Internet, a trolagem, sobretudo de cariocas, chegou ao ponto de fazer ameaças de morte e de estupro, além de comentários violentamente zombeteiros, à deputada federal Jandira Feghali, do PC do B fluminense, porque ela entrou em ação na Procuradoria-Geral da República pedindo a suspensão de verbas do Governo Federal para o SBT Brasil apresentado por Rachel Sheherazade.

Apesar de ser uma nordestina radicada em São Paulo, Rachel havia feito um comentário defendendo a violência de justiceiros contra um menor pobre acusado de pequenos roubos. Embora seja um comentáiro bastante reacionário e impopular, ele atrai uma série de adeptos marcados por um moralismo doentio.

Os reacionários do Rio de Janeiro podem não ser, rigorosamente, uma ampla maioria, mas a quantidade deles preocupa, variando da mobilidade pública à cultura pop-rock, passando pela bregalização cultural, pelo jornalismo sensacionalista e outros aspectos, geralmente defendendo o "estabelecido" pela política, pela mídia ou pela indústria do entretenimento.

E o "funk"? Sim, ele também tem seus reacionários. O próprio "funk" é reacionário, apesar de insistir em trabalhar uma imagem contrária. O "funk" impede o povo pobre de desenvolver uma cultura mais forte, proibindo jovens de aprender um violão, compor melodias e defender valores sociais mais edificantes, deixa o povo pobre refém de sua própria pobreza.

Preocupa esse reacionarismo no Rio de Janeiro, com pessoas que preferem defender interesses político-econômicos por trás de fórmulas "estabelecidas". E que chegam a fazer ameaças, difundir ofensas na Internet entre tantas outras coisas. Um pessoal que defende o atraso, mesmo travestido de falsas novidades do rádio e TV, e que não aceita discordâncias.

Eles nem pensam no progresso. Pensam no tal "sucesso econômico", que os faz defender a mediocridade mais rasteira, reagindo furiosamente a quem discordar de suas crenças e projetos. Assim, o Rio de Janeiro, Estado litorâneo no Brasil, como a Califórnia nos EUA, ameaça ser um Estado tão ultraconservador como o também estadunidense Alabama.

Pena. O Rio de Janeiro, Estado lindo de sua gente admirável, corre o risco de ser corrompido por causa de umas turmas de reacionários intolerantes. O Rio de Janeiro periga virar o "Calibama", misto de Califórnia com Alabama. A não ser que possamos agir a tempo de desmascarar os reaças.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

AOS 87 ANOS, MORRE O ESCRITOR COLOMBIANO GABRIEL GARCIA MÁRQUEZ


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: O escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez, um dos maiores nomes da literatura latino-americana e famoso por sua obra Cem Anos de Solidão (que eu li em 1996), perdeu a batalha contra um câncer ao agravar a doença contraindo pneumonia e sofrendo infecção respiratória. Nobel de Literatura em 1982, Gabriel também era jornalista e tinha quase 60 anos de carreira literária. Era também considerado um dos maiores escritores de língua espanhola do mundo.

Gabriel encerrou sua carreira literária lançando o livro autobiográfico Viver para Contar, de 2002. Anunciou oficialmente sua aposentadoria em 2009. Entre seus filhos, está o diretor de cinema Rodrigo Garcia, que ficou conhecido por dirigir episódios dos seriados Família Soprano e A Sete Palmos (One Tree Hill).

Aos 87 anos, morre o escritor colombiano Gabriel García Márquez

Por Nádia Franco - Agência Brasil, com informações das agências Notimex e Télam

Rodeado de parentes e amigos, morreu na tarde desta quinta-feira (17), na Cidade do México, o escritor colombiano Gabriel García Márquez. Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1982, o escritor e jornalista morreu em casa, aos 87 anos.

A notícia foi confirmada pelo Conselho Nacional da Cultura e das Artes, pela rede de televisão venezuelana Telesur e pelo jornal espanhol El País.

Nascido em Aracataca, na Colômbia, no dia 7 de março de 1927, García Márquez, que era também jornalista, vivia atualmente no México. Entre seus livros mais conhecidos, destacam-se Cem Anos de Solidão e O Amor nos Tempos do Cólera.

“Mil anos de solidão e tristeza pela morte do maior colombiano de todos os tempos!", escreveu o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, em sua conta pessoal no Twitter. Na mensagem, Santos manifestou solidariedade e prestou condolências à família de García Márquez.

"FUNK" E A BANALIZAÇÃO E IDIOTIZAÇÃO DO ATO DE PROVOCAR

A CANTORA, ATRIZ, DANÇARINA E ATIVISTA JOSEPHINE BAKER (1906-1975) FOI MAIS UMA VÍTIMA DO OPORTUNISMO FUNQUEIRO.

Por Alexandre Figueiredo

A banalização do ato de provocar, que beira à idiotização mais completa, faz com que uma geração de intelectuais brasileiros caia no ridículo com o apoio ao "funk" e a associação tendenciosa deste ritmo a qualquer pretexto apenas por vagas coincidências.

O "funk" sofre daquilo que os teóricos da Comunicação, ao estudarem as questões da Retórica, definem como "falácia da falsa comparação", em que pequenos e inexpressivos aspectos em comum forçam a analogia entre fenômenos que, no fundo, nada têm a ver um com o outro.

Daí a comparação com o samba, por exemplo. O "funk" nada tem a ver com o samba. O samba era artisticamente mais livre, o "funk" é tão limitado que proíbe um MC de tocar um violão, por exemplo. O "funk" é esteticamente rígido, mas tem um senso marqueteiro suficiente para convencer muita gente de parecer ser o contrário disso.

Muitas vítimas foram feitas para as falsas analogias do "funk". De Antônio Conselheiro a Andy Wahrol. E, agora, a mais recente vítima é a atriz, cantora, dançarina Josephine Baker (1906-1975), estrela norte-americana do jazz e do teatro popular que chegou a se radicar na França e a resistir contra a ocupação nazista durante a Segunda Guerra Mundial.

Josephine era conhecida por uma sensualidade considerada escandalosa em seu tempo. Naquela época, sobretudo os anos 1920, as pessoas se chocavam até quando jovens mocinhas mostravam seus pezinhos nus, daí o moralismo por demais rígido, que não se compara com as reações que hoje se tem às baixarias de cunho supostamente sexy.

A atriz também foi uma ativista contra a discriminação racial, contra a opressão política e apoiou o ativismo do reverendo Martin Luther King. E, quando chegou ao Brasil para sua primeira turnê no país, em 1929, ela teve um breve romance com o colega de embarcação, o arquiteto suíço-francês Le Corbusier (1887-1965).

Le Corbusier, mais tarde, seria conhecido como o orientador dos trabalhos de construção do edifício do Ministério da Educação e Saúde, no bairro do Castelo, no Rio de Janeiro, cuja concepção teve a participação de vários de seus discípulos, como Afonso Reidy e sobretudo Oscar Niemeyer. Corbusier foi um dos maiores nomes da arquitetura moderna do século XX.

E o que tem a ver o "funk" com isso? Nada. Quer dizer, nada mesmo, a não ser o oportunismo de curadores do Museu de Arte do Rio de Janeiro, que, para lançar uma exposição de fotografias, gravuras e outros registros sobre o encontro entre Josephine e Corbusier - intitulado Josephine Baker e Le Corbusier - Um Amor Transatlântico - foi chamar um grupo de "funk" para a abertura do evento.

O grupo escalado foi as Tequileiras do Funk, armação que se tornou conhecida pelo grotesco sucesso "Surra na Bunda", e que os curadores do evento arrumaram uma desculpa esfarrapada para explicar a escolha, que "incentivaria a mulher a ser dona do corpo".

Disse um dos curadores, o colombiano Carlos Maria Romero: "Em sua época, Josephine subverteu questões ao lidar com o jeito que percebemos gêneros, orientação sexual, classe e especificamente raça. O convite às Tequileiras para o evento de abertura ocorreu porque, no contexto brasileiro atual, vemos um espírito similar na manifestação delas".

Puro sinal de oportunismo e de falácia da falsa comparação. É como, por exemplo, comparar um trote telefônico dado ao Corpo de Bombeiros de uma cidade brasileira a uma tocaia de vietcongues armada contra os soldados norte-americanos, na famosa Guerra de Vietnã.

A banalização da "provocação", a transformação da polêmica em mercadoria e factoide deixa os intelectuais "bacanas" tranquilos. Como no caso do professor Antônio Kubitschek e sua "pensadora Popozuda", os curadores do MAR estão tranquilos, acreditando, até com ingenuidade quixotesca, que provocaram uma revolução sócio-cultural e que o tempo estará a favor deles.

Não, não estará. O "funk", do contrário das manifestações sócio-culturais e comportamentais aos quais o ritmo carioca é comparado, não tem algo a oferecer senão marketing e factoides. Como um pássaro doente e sem asas, o "funk" procura galhos para se apoiar no abismo e dizer para os outros que está voando.

Se você tirar a polêmica, a retórica "socializante", os factoides e toda a choradeira intelectual registrada até em monografias e documentários, além de inserções oportunistas de "funk" numa prova escolar ou numa exposição de arte, nada sobra. Nada. Só o grotesco, as baixarias, a imbecilização cultural, os baixos valores morais, tudo o que há de ruim no "funk".

Inútil fazer mais uma choradeira clamando "contra o preconceito". Perder o preconceito não é aceitar tudo de mão beijada. Quem rejeita o "funk" é bem menos preconceituoso que quem aceita. Os que aceitam só querem saber de historinhas tristes de MCs, de polêmicas "divertidas" e da espetacularização de suas baixarias.

Já os que rejeitam é que melhor percebem o que realmente é o "funk": um monte de baixarias sem qualidade artística expressos nos CDs e nos palcos. E isso tudo fala muito mais de negativo sobre o "funk" do que toda a "choradeira" e "provocação" querem mostrar de supostamente positivo. O tempo não parece muito interessado em salvar o "funk" para a posteridade.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

O PAÍS DE POPOZUDAS E SHEHERAZADES


Por Alexandre Figueiredo

Maniqueísmo fácil, esse o do Brasil. De um lado, o "cidadão de bem" que reclama da degradação sócio-cultural, da crise econômica, da corrupção estatal, incitando marchas moralistas para pedir a derrubada do atual governo. De outro, o "povo" que reclama do obscurantismo moralista, do rancor da mídia, da revolta das elites, incitando "rolezinhos" nos centros comerciais para pedir a derrubada da "sociedade organizada".

Vivemos o país de maniqueísmos fáceis, em que há, de um lado, o elitismo obscurantista, e, de outro, o populismo bregalizador. Não há um meio-termo nesse abismo que separa a aristocracia ilustrada e o populacho grotesco, e a própria intelectualidade dominante é, em parte, subproduto dessa visão maniqueísta que disputa, sob diferentes enfoques, o destino futuro de nosso país.

Se, na intelectualidade propriamente dita, temos o maniqueísmo em que, de um lado, ocorre o reacionarismo rancoroso de Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino e Merval Pereira, de outro há o populismo complacente de Pedro Alexandre Sanches, Paulo César Araújo e Hermano Vianna, todos disputando o monopólio da razão sem dar algo de positivo para a sociedade em geral.

Agora o maniqueísmo se dá entre duas supostas "feministas", sendo o reacionarismo representado por Rachel Sheherazade e o populismo por Valesca Popozuda. Rachel é uma Sarah Palin mais cafona, enquanto Valesca Popozuda encarna a versão brega da Lady Gaga.

Rachel quer o obscurantismo da sociedade "indignada" que prega contra a corrupção e a degradação social. Valesca quer a permissividade sócio-cultural que prega contra o moralismo e o preconceito. Parecem diferentes, mas são dois lados de uma só moeda, dois extremos de um mesmo abismo sócio-cultural.

O próprio SBT, o "palanque" das opiniões reacionárias de Rachel - que no entanto está "dispensada" de fazer seus comentários - já havia recebido Valesca Popozuda para participar de um game show, a emissora de Sílvio Santos é um dos cenários de encontro desses pontos de vista "diferentes".

Rachel havia repercutido negativamente por conta de um comentário em defesa da violência policial contra um adolescente pobre que havia cometido assaltos. Depois ela esteve associada à campanha pela organização da Marcha da Família ocorrida há dias em São Paulo.

Valesca é famosa pelos glúteos e peitos siliconados, e veio da corrente mais grotesca do "funk carioca", com seu grupo (vocalista e dançarinos) Gaiola das Popozudas. É associada à erotização grotesca e a um pseudo-ativismo supostamente feminista e tendenciosamente pró-liberdade sexual.

A funqueira tornou-se conhecida por conta de uma questão de prova escolar, numa escola pública de ensino médio em Brasília, que usou uma letra de um de seus sucessos para interpretação de texto. A questão causou repercussão negativa por ter definido Valesca como "grande pensadora contemporânea".

Aparentemente, no combate maniqueísta, Valesca se saiu "melhor" do que Rachel, devido ao pretexto de que aquela "combateu o preconceito" enquanto esta saiu como "defensora da truculência". Mas as duas saíram empatadas num país em crise que depende desse maniqueísmo sem qualquer outra opção em vista.

Isso porque as duas têm que se mexer na sua "liberdade de expressão". Rachel virou uma "leitora de teleprompter", e Valesca agora terá que remover até o silicone dos glúteos e dar uma mexida no seu som, se aproximando ao "funk comportado" da concorrente Anitta.

As pressões sociais de tudo quanto é lado fazem as duas diminuírem seus apetites de causarem polêmicas. Terão que moderar suas posturas, a graciosa Rachel contendo suas raivas reacionárias para não assustar o cidadão comum, a grotesca Valesca tentando melhorar até o porte físico para não constranger a alta sociedade.

Mais uma vez é o maniqueísmo que impera. A "boa" Valesca da "liberdade sexual" contra a "má" Rachel do "preconceito moralista". Ou a "boa" Rachel dos "bons costumes sociais" contra a "má" Valesca dos "desvios populares".

No fundo, ambas são a mesma coisa, cara e coroa de uma mesma moeda. O país até agora não ficou melhor com este e outros surtos maniqueístas, como os "urubólogos" contra intelectuais "bacanas" e as "marchas da família" contra os "rolezinhos". São apenas oposições feitas para desviar a opinião pública de outras questões a respeito dos verdadeiros problemas sociais.

terça-feira, 15 de abril de 2014

ANTÔNIO KUBITSCHEK É QUE NÃO ENTENDEU CONTEXTOS POR TRÁS DO "FUNK"


Por Alexandre Figueiredo

Ainda no episódio da questão escolar sobre a "pensadora" Valesca Popozuda, o professor Antônio Kubitschek, a exemplo da funqueira, tentaram sair "com a consciência tranquila" no episódio, além de usarem a roupagem de um falso ativismo social provocativo.

Da parte do professor de Brasília, as justificativas que ele tentou dar tiveram a pretensão de soarem "definitivas", como provocar a reação dos "urubus da mídia" e "esclarecer" os contextos que estão por trás da questão escolar por ele elaborada supostamente a partir de um debate com seus alunos.

O que o professor Antônio ignora é que os dois pontos de sua justificativa, a provocação midiática e os contextos ocultos na polêmica prova escolar, apresentam sérios equívocos na sua abordagem, o que indica que o que ele cometeu nem de longe significa um acerto.

Primeiro, porque Antônio não expôs os "urubus da mídia" - ou seja, jornalistas de perfil mais reacionário - ao ridículo, como queria fazer crer. Pelo contrário, deu subsídios para que o "privatista" Rodrigo Constantino de repente se autopromova às custas da educação pública, como se um direitista radical pudesse desejar alguma coisa boa para as classes populares.

Segundo, porque Antônio não conhece os contextos que estão por trás do "funk" que ele tanto defende como "ritmo popular". Ele desconhece os vínculos empresariais, políticos e midiáticos que transformaram um ritmo dançante sem muita serventia em um suposto ativismo social.

Ha contextos que estão por trás de toda a blindagem intelectual do "funk". O jabaculê manipula a vontade popular e o inconsciente coletivo, sobretudo das classes populares, sem que muitos saibam ou admitam os interesses que estão por trás. Para eles, se tudo é "popular", vale tudo, até peido na cara.

O "funk" segue a "orientação" de cenários mercadológicos de pop dançante na Itália e do miami bass dos EUA, com um contexto de exploração empresarial, marketing, mentiras, intrigas, subornos e outras coisas. Dizer isso é complicado, para uma intelectualidade bem articulada que acha que as periferias são "paraísos" dotados de casas malfeitas, quase sem asfalto e com muito lixo no chão.

Daí que a própria intelectualidade "bacana", na qual se insere o professor Antônio, ter sido pega desprevenida. Enquanto os intelectuais comemoram o "ativismo social" que reconheceram na questão da "pensadora Popozuda", se achando vitoriosos na "provocativa" atitude, eles fortaleceram ainda mais os Constantino e as Sheherazade da vida que agora passaram a "defender a educação pública" com mais "consistência".

A comemoração da intelectualidade "bacana", que acha que o "funk" trará a revolução social em nosso país, se dá em animados convescotes verbais em sindicatos, auditórios, isolados numa vitória que só eles consideram no combate social contra as forças reacionárias.

Enquanto isso, os intelectuais que saíram em defesa de Valesca e Antônio mal podem imaginar o quanto eles ajudaram para Rachel Sheherazade, Rodrigo Constantino e companhia saírem em defesa da "verdadeira educação", já que as esquerdas médias, na medida em que glorificam o "funk", acabam também permitindo à direita uma suposta defesa de interesses sociais que os direitistas, naturalmente, não teriam a menor vontade de defender.

Os barões da grande mídia agradecem ao professor Antônio por essa ajudinha sensacionalista. Ele continuará dormindo tranquilo, porque acha que suas convicções bastam para o desfecho do caso. Mas é só ver as mídias sociais e outros ambientes midiáticos para ver o quanto os "urubus da mídia" saíram fortalecidos no episódio da "funqueira pensadora".

segunda-feira, 14 de abril de 2014

VALESCA POPOZUDA E O FEMINISMO COMO MERCADORIA

VALESCA POPOZUDA SE ENCONTRA COM GISELE BÜNDCHEN NO SÃO PAULO FASHION WEEK 2014.

Por Alexandre Figueiredo

A "musa do verão 2014", a funqueira Valesca Popozuda, é um dos mais recentes símbolos da chamada "sociedade do espetáculo" estudada e problematizada por teóricos como Guy Debord e Jean Baudrillard, na Europa.

Se lá no exterior a chamada "sociedade do espetáculo" é contestada sem meias palavras, aqui no Brasil a intelectualidade - que já barra o acesso de similares brasileiros de Debord e Baudrillard já nas portas de entrada dos anteprojetos de mestrado - prefere endeusar essa "sociedade", analisando-a de maneira acrítica e meramente descritiva.

Daí que se permitem que surjam nomes como Valesca Popozuda, a pseudo-feminista que, de uma sósia visual de Carla Perez e musical de Tati Quebra-Barraco passou para uma espécie de Lady Gaga mais brega, e que, pasmem, virou o "maior nome da música brasileira" do momento, além de um dos símbolos do "ativismo social" no país.

Acumulando visibilidade às custas de diversos factoides, Valesca apenas mudou levemente sua "orientação". Associada ao "funk" mais grotesco, ela "lapidou" o estilo para se tornar "digestível" para as elites. Enquanto isso, trabalha seu "discurso direto" num arremedo de ativismo social que a faz supostamente "feminista".

Em entrevista à revista Época, Valesca - curiosamente tratada como "senhora" pela reportagem - declarou que "ser vadia é ser livre", usando de todos esses clichês para o "feminismo de resultados", sobretudo a aparente aversão aos homens.

A reportagem, não se sabe se por ironia ou pretensiosismo, comparou Valesca a Simone de Beauvoir, Naomi Wolf e Betty Friedan. Totalmente ridículo. Afinal, Valesca apenas adota aspectos superficiais do feminismo, se autopromovendo às custas de fatos bem conhecidos, como o estupro e a violência doméstica cometidos por homens.

Por outro lado, Valesca tenta trabalhar a ideia de que a prostituição e a erotização são "bandeiras de luta", daí o "feminismo" como mercadoria, a união do suposto "apelo sexual" do grotesco "funk" com os clichês de ativismo que não assustam em um momento sequer os "urubus da mídia". Um "feminismo" que submete a cidadania ao sexo, em vez de integrar o sexo a ideais de cidadania.

Evidentemente, ela agora adota posturas mais politicamente corretas, como admitir que a educação não vem da rua, mas de casa, ou que ela não se considera uma "pensadora", já que a funqueira agora precisa conquistar um público de elite, inclusive a classe acadêmica, daí uma dose de aparente "despretensiosismo".

Sobre a prostituição, ela argumenta que as prostitutas são "guerreiras" e que arrumarem nas boates as "oportunidades" que elas não tiveram nas ruas. Ela defende a regularização profissional, ignorando que a prostituição deveria ser vista como uma atividade transitória, e não permanente.

A defesa da prostituição como "profissão definitiva", a exemplo da defesa das favelas como "moradias permanentes" do povo pobre, é uma forma de glamourizar a pobreza, de transformar condições transitórias, emergenciais e feitas praticamente a contragosto em "trabalho definitivo", como se a prostituta quisesse ser prostituta pelo resto da vida. E a maioria delas não quer.

Completando o pretensiosismo, Valesca agora ataca a MPB, seja no episódio da questão escolar - em que a funqueira foi chamada de "grande pensadora contemporânea" - , seja na questão da temática da mulher-objeto. Aí ela comete o equívoco de achar que toda letra que deseja e exalta uma mulher é letra que a explora como "objeto sexual".

Ora, então um poeta não pode escrever uma letra de Bossa Nova para exaltar a beleza feminina. Mas a funqueira pode escrever uma letra que baixa a lenha nos homens. O lirismo da MPB agora é visto como "mais grotesco" que o "funk" mais rasteiro. Pura desculpa para promover o "funk" às custas de qualquer coisa.

Aqui há uma mania, surgida em torno de 25 anos atrás, de culpar os mestres e todos aqueles que possuem grandes virtudes, de cometerem mais pecados e erros do que a gente mais rasteira. Daí, por exemplo, que nomes como Chico Buarque são duramente atacados, enquanto um espertalhão como Michael Sullivan "compra" toda a MPB e ninguém se dá conta disso.

Isso porque o Brasil é o país que fica complacente com a mediocridade. Confunde medíocres com aprendizes e a cada ano o grotesco, o piegas e o cafona mostram exemplos que a sociedade logo se acostuma com muita conformação.

Daí o pseudo-ativismo de Valesca Popozuda, que no fundo nada acrescenta de diferencial, por exemplo, à antiga visibilidade de uma Xuxa Meneghel, por exemplo. Um "feminismo de resultados", para desviar a atenção da sociedade para temas realmente feministas. Um "feminismo" como mercadoria, para fazer de conta que existe "ativismo" no mundinho da "cultura midiática".

Aqui a "sociedade do espetáculo" não é vista como problema, chegando a ser encarada, com muita ingenuidade, como uma "solução". Mas este é o país em que a "cultura popular" é movida pelo império do jabaculê, patrocinado até mesmo pelo latifúndio mais sanguinário. Mas como tudo é aparentemente "popular", ninguém questiona.

Que falta fazem Guy Debord e Jean Baudrillard por aqui...
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